Isolamento não é egoísmo

Moradores de rua enganam estômago com água e esperam horas no sol ...

Hoje entramos no 23º dia de isolamento. Para quem continua com seu rico dinheirinho no banco, a despensa e a geladeira bem abastecidas, é ótimo. E, principalmente, se tiver uma esposa ou mãe fazendo todo o serviço de casa. Que férias!!!!!!!!!

Não é o sentimento de quem está na outra ponta da canoa social. Com as prateleiras do pequeno armário já esvaziadas, a geladeira guardando apenas ar frio, o dinheiro ganho diariamente com o suor do rosto sem entrar, os filhos com fome, o futuro apagado… que sentimentos passam na alma dessas pessoas?

Aumentam geometricamente os pedidos de ajuda pela internet.

Grupos se formam para arrecadar dinheiro ou produtos.

Ainda que já tenhamos o hábito de ajudar entidades e instituições, agora a situação é emergencial. Nossos irmãos estão literalmente passando fome.

Os freis franciscanos, em São Paulo, forneciam 400 refeições/dia. Nessas últimas semanas essa fila aumentou para 2.500 refeições/dia. Eles não têm como fazer frente a essa multidão faminta. Frei Davi pede socorro.

Nós nos unimos e ajudamos. Dia a dia aumentamos a conta de quantas refeições podemos fornecer. Muitos ajudam. Graças a Deus nem todos os humanos são recheados de egoísmo e conseguem entender que a fome é a mais cruel tortura.

Outro grupo se forma para arrecadar fundos e fornecer cestas básicas para as famílias paupérrimas de crianças que eram atendidas em uma creche que está fechada. E as crianças sem as refeições diárias.

E vamos ajudando. Pedindo a todos que também colaborem.

Uma refeição custa R$ 8,00. Será possível que nosso igual não possa dispor de 8, 16 ou 24 reais/dia e dar comida a quem tem fome?

Ainda que nossos ganhos também diminuam em razão dessa crise, tenho certeza que ainda estamos melhores que esses desvalidos. Vamos dividir um pouco. Se tanto nos foi dado, talvez agora seja a hora de dividirmos um pouco.

Vamos ser mais humanos. Ou só sabemos fazer campanhas quando a mídia nos destaca, dia da criança, Natal dos pobres etc.? Não sabemos fazer caridade à moda de Cristo? Que sua mão esquerda não saiba o que doou sua mão direita?

E a compaixão – a capacidade de se colocar no lugar do próximo e entender o que ele sente – onde fica?

Será que o isolamento despertou o egoísmo? Se estamos em casa, por que não aproveitarmos para pensar nos outros, que talvez não tenham em suas casas nosso conforto, nossa “largueza”.

Tricotar cachecóis para distribuir quando começar o inverno. Fazer sapatinhos e casaquinhos para recém-nascidos e entregar em uma maternidade pública?

Não tem esses dons?

Grave textos, contos, livros e envie para entidades que atendem pessoas cegas.

Nem isso?

Faça pães e deixe em pontos públicos quando sair para ir ao mercado ou ao médico.

Conserte, recupere antigos brinquedos para doar. Faça brinquedos de pedaços de madeira, de garrafas plásticas. Faça móbiles para berços com botões, tampas de garrafas. Mas faça. Qualquer coisa. Ficar sentado olhando para a parede só porque estamos em quarentena não é certo.

Não acredito que haja uma pessoa tão inútil nesse mundo, que não possa ajudar com dinheiro, com as mãos, com a voz, com nada de si.

Um dia irá prestar contas de sua vida. E nada terá a apresentar ao Pai, a não ser sua total inutilidade.

Por mais maçante que seja esse período de isolamento, não podemos deixar morrer em nós o pouco de humanidade que nos resta nesse mundo egoísta e desumano.

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