Ruas

Rua do Professor, Ribeirão Preto | Mapio.net

 

Vejo as ruas desertas de pessoas a pé. Lembro-me de minha infância e adolescência. Não tive “mãetorista”. Apenas em alguns casos éramos levados de automóvel nos lugares. Porque, à  escola, às atividades extracurriculares – conservatório musical, aulas de línguas estrangeiras, cursos que resolvíamos fazer – bem como cinema, compras, casas de amigos, festinhas e tudo o mais, era para ir a pé. Sozinha, com irmãos, com amigos, em grupos, apenas pedíamos autorização e avisávamos que estávamos indo. E sempre hora marcada do retorno, vamos deixar bem claro. E isso era liberdade.

Andávamos. Caminhávamos. Passeávamos. Sempre a pé.

Acho que isso desenvolve um outro sentido, não sei se sétimo, oitavo ou nono. A percepção da rua.

Hoje vivemos em outro mundo. Não há mais rua nesse sentido. Apenas artérias de passagem de carros. Há lugares, em praticamente todas as cidades, em que se veem carros e motocicletas nas ruas. E nenhuma pessoa. Simplesmente as calçadas completamente inúteis e vazias.

Aqui no interior, mesmo em tempos anteriores à peste chinesa, a região onde moro é assim. Na avenida principal, no começo da manhã e final da tarde nós nos deparamos com “atletas” – roupinhas típicas, boné e tênis, fazendo exercício. Mas o resto do dia é um deserto de pessoas, uma cidade de veículos motorizados. Sem população.

Não é meu mundo. Gosto de andar a pé.

Nos anos em que morei no Guarujá, nem levei o carro. Deixei-o em uma garagem da casa de meus pais, em Ribeirão Preto.

Andava tanto lá, que, por brincadeira, adquiri e comecei a usar um aparelhinho que media os passos, e, durante os meses em que fiz uma reforma em um imóvel – fazendo todas as compras a pé – eu andava, em média, vinte quilômetros por dia.

Sem contar a infalível caminhada matinal à beira mar – entre seis e dezoito quilômetros/dia. Dependia mais do tempo disponível para caminhar do que disposição física ou cansaço.

Em São Paulo, também onde prefiro não dirigir nem ter carro, meu local de trabalho distava cerca de um quilômetro minha casa. Que foi cirurgicamente escolhida para me proporcionar a liberdade de andar a pé. Na hora de ir, geralmente, pegava um táxi. Mas voltava a pé. Especialmente no horário de verão, entre 18h30 e 19h00. Caminhava do Paraíso ao longo da Paulista até a Pamplona. E descia até a Lorena.

Em volta tenho tudo o que necessito. Faço tudo sem precisar de carro. Por isso, também, amo ficar por lá.

Sempre amei andar a pé em São Paulo. A beleza de São Paulo não é escancarada, para qualquer um chegar e se encantar. Não, São Paulo é de uma beleza peculiar, um encanto que se mostra aos poucos, só para “os iniciados”.

Quando eu trabalhava em um escritório do centro, no milênio passado, amava aquelas ruas antigas (ainda não havia as nojentas pichações como se veem hoje por todo lado). E era República, Barão, Sete de Abril, Patriarca, Santa Ifigênia… que coisa linda era o viaduto Santa Ifigênia, com seu gradil estilo “belle époque”. As fachadas dos prédios no centro, os canteiros, o Teatro…

Agora tudo é um lixo. A porquice do povo, o descaso da prefeitura, a invasão de estrangeiros de baixa categoria… minha cidade se acabou.

Andava em Paris, Roma, Madrid, e outras capitais que até quatro ou cinco anos possuíam seus centros preservados. Tudo lindo. Tudo encantador.

Depois dos atentados no Bataclan, em Paris, e na Promenade des Anglais, a linda “La Prom”,em Nice, e vendo, ainda, esse aumento desenfreado de “refugiados” porcos e violentos, a degradação dessas cidades também desanimou de frequentá-las. Estão feias. Ponto comum entre a maioria, são as prefeituras de esquerda. Onde era um patrimônio cultural da humanidade, hoje é lixo.

E assim o mundo, que era tão grande, foi se encolhendo.

E, há um mês, o meu mundo se resume a uma casa.

Uma casa se tornou o mundo de quem ainda tem sorte de ter uma casa.

E as ruas, a cada dia mais desertas, só nos dão a dimensão da tristeza de ainda estarmos vivos.