Como um vulcão

Trouxe a poesia dentro de si:

Chegou mansamente e aqui ficou.

Pousou em meu peito com a leveza

De uma delicada borboleta

Que pousa em uma pétala de flor.

Coloriu meu dia e minha vida,

Até então sempre cinzentos;

Alegrou minha alma e minha vida

Que eram imersas em tantas tristezas.

Despertou toda a paixão latente

Como um vulcão adormecido

Que volta subitamente à vida.

Abriu as comportas do desejo,

E, desde então, acreditei que,

Encantados de tanto amor,

Seguiríamos sempre juntos.

Hoje a saudade, em forma de lágrimas

Inunda meu rosto com quentes gotas.

Saudade é privilégio de quem foi feliz

E esse sentimento, quando muito intenso,

Se liquefaz tal como magma em lava,

E esse vulcão, que então explodiu de paixão,

Volta à quietude de seu letárgico sono

E, novamente entorpecido, em sua ausência

Adormece triste e eternamente.

Hoje é dia de poesia – Ferreira Gullar – Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Analisando Alice

 

Sempre escutei:– Alice? No país das maravilhas?

E eu ficava muda, muito sem graça, e nada respondia.

Detestei a vida toda essa pergunta. Mas a ouvi milhares de vezes.

E nunca fui muito entusiasta dessa obra. Narrativa chata. Passa do ponto do non sense e por isso logo perdemos o interesse em continuar a leitura.

De um par de anos para cá, resolvi inverter.

– Alice? No país das maravilhas?

E eu respondo: – Eu mesma. A própria. E que maravilhas! Você nem imagina!

E agora o bobo que pergunta fica mudo, sem graça e com cara de idiota.

Analiso Alice – realmente, não tem nada a ver comigo.

Eu nunca fui curiosa (não sou até hoje), nunca entrei em uma toca seguindo um coelho. Posso ter entrado em várias tocas e até tocaias na vida, mas nunca por curiosidade. Por ingenuidade e por vontade, mas não curiosidade.

Talvez me identifique um pouco com o White Rabbit, “Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!”

Mas não tenho o hábito de me atrasar. Sempre fui pontual. Algum atraso foi totalmente involuntário e inevitável. Apenas seria o Coelho Branco no item andar com o relógio – mas, no meu caso, para ter a certeza de NÃO estar atrasada. Embora quase nunca use relógio, afinal, sou uma sem hora.

O Chapeleiro Maluco? Nunca. Ele é meu avesso. Sigo regras, acho correto que tenhamos regras – especialmente as convenções à mesa e para possibilitar que mais de um ser humano permaneça no mesmo ambiente em que estou. Detesto quem tem por regra exatamente quebrar as regras.

A Lagarta? Pode ser em parte. Aceito toda a metamorfose que a vida nos impõe. Acredito que tenhamos de mudar continuamente para sermos sempre nós mesmos. Mas não seria inteiramente esse personagem.

A Rainha de Copas? Bem, não vou negar, tenho alguns pontos em comum com ela – todos sabem que meu pavio é bem curto e que, se pudesse, mandaria decapitar um par de existentes, seria muito bom ter o poder de livrar o mundo de algumas pessoas indesejáveis. Mas também essa Rainha é uma forma fora do meu número.

E nada a ver com os outros personagens.

Vivo num mundo real. Muito real. Tristemente real. Bem mais realidade do que eu gostaria. Minha alma poeta sonha com outro mundo, que crio e recrio para poder enfrentar esse aqui onde nos encontramos.

Mas não vivo no país das maravilhas. Nem vou falar em termos de país, porque atualmente o meu é péssimo.

E, decididamente, não sou a Alice que Lewis Carrol imaginou.  

Insanidade

La jalousie est le plus grand de tous les maux, et celui qui fait le moins de pitié aux personnes qui les causent. La jalousie nait toujours avec l’amour; mais elle ne meurt pas toujours avec lui.  (François de la Rochefoucauld)

 

Porque um dia se encantou com um olhar, se apaixonou. E porque uma vez se apaixonou, sentiu amor.

Aquilo que imaginava fosse sentir amor gerava necessidade de cuidar, de mimar, de estar sempre junto. E assim passou a se dedicar inteiramente a esse sentimento. E acreditava que muito amava.

E porque cuidava passou a se sentir dono. Tinha o dever de zelar e o direito de vigiar, de limitar, de controlar.

E assim, por acreditar que isso era amor, passou a ter ciúme.

Sem perceber que o ciúme não é amor, que se adonar não é amar, que amar não é estar apaixonado. Confundiu tudo.

Era uma sede insana de dominar. Que começou a minar a paixão, destruir o amor.

Precisava se sentir no comando. Tinha de ser obedecido.

Seu sentimento endureceu no ódio. Que nasceu do ciúme.

Subitamente percebeu que não havia mais paixão. Que não havia mais nada. Que seu ciúme pusera tudo a perder.

Enlouquecido, resolveu matar o que pensava ser amor. E aquela que o personificava. Agora só lhe restava se matar também.

Escolhas

Devine, si tu peux, et choisis, si tu l’oses (Pierre Corneille)

 

Quando a estrada se parte

E se tem de escolher um outro caminho

O coração dentro do peito se aperta

Entre a poeira conhecida do que já foi

E a luz do novo que virá

Onde estarão as flores nessa nova caminhada?

Onde a estrada será feita apenas de  pedras agudas

A nos lanhar os pés já tão cansados

De tantas caminhadas que já tivemos?

Todo o vazio da nossa existência

Que drenou a vontade de continuar seguindo

Súbito se torna intransponível

E vem o medo de assumir a escolha

Viver é difícil! Escolher é difícil!

Setembro

E setembro voltou…

Trazendo chuvas que prenunciam o retorno de um novo verão, levando os ventos que se foram com agosto…

Setembro, primavera, sensação de renovação da vida.

Ainda que já não mais tenhamos as estações bem definidas, ainda que hoje exista o recurso da ciência de proporcionar frutas e flores temporãs, mesmo assim há o que celebrar.

Porque alguns aspectos da natureza jamais serão alterados, nem pela ciência nem pelo chamado aquecimento global, talvez nem por outra era do gelo: setembro, o tempo de acasalamento dos pássaros.

Todos começam a procurar os locais para fazer seu ninho em meados de agosto. Agora, a partir de setembro, veremos as danças, os pios, os cantos, os voos de namoro, a explosão de beleza, a exibição de cores e plumagens e tudo o que têm a seu dispor para atraírem as fêmeas, na eterna roda da preservação das espécies.

E logo todo amanhecer será uma sinfonia de cantos e pios. E a cidade se tornará mais alegre, e os homens – aqueles que ouvem pássaros e não têm coração duro – sorrirão ao alvorecer, quando a serenata começar em torno de suas casas.

Teremos tempestades? Sim, muitas. Como na vida, não há bonança antes do temporal, não há arco-iris antes da chuva, não há felicidade sem alguma tristeza… Mas é novamente setembro: começa a época de grandes chuvas e temporais. Vendavais, raios e trovões.E ar lavado, e arco-iris e renascimento do verde. Isso é natureza, e nada mais lindo que um dia de chuva.

Mesmo que tenhamos de abrir mão de alguns programas ao ar livre, nada melhor que aproveitar as tardes chuvosas para nos sentarmos nas varandas e contemplarmos o doce cair da chuva.

Se for possível andar na chuva, melhor ainda. Caminhar lentamente, deixando a água escorrer, chapinhar nas poças, ir contra a enxurrada e, como crianças que um dia fomos, sentir que estamos em plena comunhão com a natureza.

Tudo isso nos traz setembro.

Seja bem vindo de volta, setembro, e que venha até nós a primavera da vida, e que ótimos ventos você nos traga!