Dia de poesia – Guilherme de Almeida – Canção bem simples

Momento poesia, trazendo Guilherme de Almeida:

 

Se eu achasse uma rima em “Eu”

mas uma rima rica e linda

que nenhum poeta achou ainda

e em que coubesse mais do que eu;

 

E também uma rima para “gosto”

mas que pudesse traduzir

tudo o que eu sinto sem sentir

e o quanto eu gosto quando eu gosto;

 

E ainda mais uma para “muito”

que fosse rara como um bem

que é meu, só meu, de mais ninguém,

e é sempre pouco, nunca é muito;

 

E tivesse uma para “de”

que alguém que adoro me dissesse

num beijo louco e que pusesse

entre o seu e o meu nome um de;

 

E uma afinal para “você”

se eu tivesse tudo isso um dia

eis a canção que eu comporia:

“Eu gosto muito de você”.

Vivências

Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante. (Saint Exupéry)

Há dias ensolarados que nos parecem sombrios. E dias chuvosos que nos parecem ensolarados.

Os sentimentos dizem muito mais que a própria meteorologia. É a alegria, é a felicidade, o que realmente importa.

Nunca alguém reclamou que teve um dia de chuva em Paris ou em Milão.

Para mim, em especial, se estou na praia – bem acompanhada, frise-se – pode chover à vontade que não importa.

E muitas vezes, em casa, há um sol que objetivamente é maravilhoso, mas continuo com frio e no escuro.

Daí procuro e vejo que tanto o frio quanto o escuro estão dentro de mim, da insatisfação que estou sentindo, da vontade louca de estar em outro lugar…

E sei que a vida se assemelha a uma moeda: tem os dois lados, indissociáveis, para termos o valor temos que ter o verso dele – é cara e coroa em tudo.

O pior é saber que nossas escolhas muitas vezes nos traem e conseguimos exatamente o que buscávamos, mas vemos que buscávamos não o que queríamos.

Antes da escolha é preciso estar bem certo se estamos buscando o que queremos, porque depois que alcançamos o buscado, é com ele que conviveremos sem alternativa.

Há algumas fases da vida que nos põem em confronto com o que temos, o que queremos e o que deveríamos ter e querer.

É terrível chegar no topo da montanha errada.

 

 

Considerações sobre o nada

Escrevi esse texto em 14.04.2010. Mas continua tão atual que merece ser publicado hoje, aqui:

 

Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. SørenKierkegaard

 

Não se trata de niilismo, não estou em fase Nietzsche, Weber, Heidegger, Sartre ou Camus.

Apenas quero não-pensar. E o nada pode ser instigante, pode ser um desafio. Não é sobre esse nada que penso hoje – é simplesmente sobre o nada nada.

Depois de uma semana que se pode dizer terribilis – com direito a doenças, internações, coma, piora, morte, melhora etc. tudo com membros da família, sinto-me como um barco que enfrentou águas revoltas à noite e agora, ao amanhecer, encontra mar calmo e céu azul…

Terremoto na China, hoje. São tantos terremotos nos últimos tempos que já acostumamos com a idéia e não nos sentimos chocados com a tragédia alheia. Isso não é bom sinal.

A chuva fez muitas vítimas e muito estrago no Rio. Como fizera no ano passado em Santa Catarina. E tantas catástrofes são imputadas ao tempo, ao clima, OK. Mas pergunto, e o Morro do Bumba? Acho que o tempo não tem nada a ver com isso. A chuva só adiantou a tragédia, porque se o gás metano que ali havia explodisse seria um incêndio de proporções dantescas. E o poder público, que, mesmo avisado, fez ruas e benfeitorias sobre uma bomba que mais cedo ou mais tarde seria uma tragédia???? É brincar com a vida alheia.

Usei acima o termo dantesco indicando algo horrível, maléfico. Pergunto-me o porquê.

Em geral falamos dantesco sobre algo muito, muito, intensamente ruim, como se a obra de Dante se resumisse ao inferno.

Esse inferno descrito por Dante que tomou conta do imaginário popular serve de modelo para todos os infernos descritos na era pós-Dante.

Até no filme Amor Além da Vida eu vi o inferno ali mostrado como se fosse inspirado em Dante (talvez tenha sido mesmo, não tive a curiosidade de ir pesquisar).

É claro que o diabo inspira mais medo que Deus ao povo em geral, e sempre nos lembramos mais do que tememos, detestamos ou desprezamos do que daquilo que queremos desejamos ou amamos.

Mas ficar usando o termo dantesco para o horrível reduz a obra do grande poeta a uma parte ínfima.

Mesmo porque na mesma obra há o paraíso dantesco, o poeta fica face a face com Deus…

E mais, a belíssima, poética e agradável língua italiana moderna pode ser considerada italiano dantesco, uma vez que construída – para a unificação da Itália, sobre a obra de Dante, que a escreveu não em latim, como era comum aos poetas de então, mas em um italiano castiço, porque considerava pernóstico o uso do latim…

Mas, mudando de assunto:

Descobriram a pólvora e inventaram a roda esta semana: cientistas afirmam que estresse e ansiedade estão ligados à depressão. Oh, que novidade!!!!

Jornais publicam que comandante de igreja evangélica impõe meta de arrecadação mesmo durante a crise e ensina seus subordinados como conseguirem o aumento das “doações”. Oh, outra novidade!!!!!

Nos mundos artístico e esportivo continuam as cirandas de noivados e casamentos desfeitos. Esses casais entendem muito de separação, de casamento não entendem nada.

E assim os jornais, quando não têm assunto, começam a publicar esses nadas. Exatamente o que eu fiz hoje por aqui.

 

Alma cativa

O homem é uma prisão em que a alma permanece livre. (Victor Hugo)

 

Uma alma aprisionada sonha com a liberdade de ir. Ir a qualquer lugar, perto, longe, outro país, outro planeta.

Mas ir.

Porque às vezes se chega a um ponto que não dá mais para ficar.

E a alma, livre por natureza e vocação, sofre com as grades que a cercam que a limitam, que a aprisionam.

Aprisionada ela não é mais alma, como um pássaro cativo que perde sua natureza de pássaro e canta de desespero e não de alegria.

Ir a lugares novos, nunca vistos nem visitados, desde a alma de outras pessoas até outros mundos bem distantes.

E voltar aos lugares onde viu a felicidade, onde encontrou o prazer. Rever lugares onde nunca esteve, mas sonhou e sabe que existe.

Ir novamente às melhores paisagens, aos mais caros rincões cuja existência ninguém mais conhece, mas que por ter estado lá nunca pode esquecer.

Voltar a um momento tão distante, tão passado, tão fugaz, mas que ficou vivo na alma como brasa na carne.

E assim, presa, sonha com a liberdade que também nunca teve. Triste sina das almas que não são livres.

Triste vida das pessoas que se deixam aprisionar.

Poesia da casa – Minhas dores

As minhas dores são tantas…

São dores que estão seladas:

As dores do corpo são chagas,

Da alma são mágoas passadas.

 

Diante da dor sinto medo

Mas me mantenho serena;

A dor me torna tão frágil,

O medo me faz tão pequena.

 

Sempre juntas nessa vida,

Das dores não me separo,

Assim eu vou caminhando:

 

Com minhas dores vivendo,

Eu, minhas dores cantando,

Em mim, minhas dores doendo…