Notas a respeito de nada

Escrever é fácil? Claro, se você é alfabetizado não existe dificuldade…

Não é bem assim. Se você tem algum pendor, boas idéias, é só começar a escrever. Você escreve hoje, escreve amanhã, no outro dia dá uma desculpa tipo falta de tempo, empurra dois dias com a barriga, fim de semana não foi feito para isso…

 De repente sua carreira de escritor, que nem havia começado de verdade, já terminou por ali mesmo. 

E olhe que nem era um livro, mas sim eram notas, crônicas, réplicas de diálogos… mas não tem jeito. 

Você roda o pensamento, roda o pensamento, mas não sai nada da cabeça. Esvaziou. Tenta pensar numa crônica e só consegue lembrar de uma conta que não pagou. Começa uma poesia e a cabeça insiste em ficar repetindo um jingle que grudou no cérebro, tipo casas bahia. 

Deixa tudo para amanhã, quem sabe. 

Aí que tudo piora, até já esqueceu a propósito de que era aquele começado… agora que não mesmo para continuar. Desiste. 

Mas, você não é de deixar pra lá. Daí uns dias tenta de novo.

Não consegue nada.

E fica imaginando de onde os cronistas profissionais tiram tantas crônicas, os romancistas tiram tantos romances, os poetas tiram tanta poesia.

Olha em volta, acha que seu mundo é muito cinzento para servir de inspiração. Resolve abrir um vinho, sentar na frente da TV e assistir filme.

Escrever é para os outros. Muito difícil. 

Nostalgia

Nostalgia é saudade do que vivi, melancolia é saudade do que não vivi.(Carlos Heitor Cony)

 

Quantas vezes abro minhas caixas de e-mails esperando um – o qual nem sei de quem viria, nem o que falaria, mas um e-mail que enchesse minha alma de alegria.

Nunca vem.

Quantas vezes espero ouvir tocar o telefone na certeza ansiosa de é alguém para dar uma boa notícia – alguém que não sei quem seria, nem sobre o que falaria, mas que fosse como um sol num dia frio.

Nunca toca.

Quantas vezes começo o dia na certeza que algo extraordinário há de acontecer, que transforme minha vida como num sonho mágico.

Nunca acontece.

E assim vivemos: sempre esperando algo maravilhoso que nunca chega.

Começamos a ter saudade do que nunca vivemos, vontade de voltar a lugar onde nunca fomos.

E uma profunda tristeza vai crescendo dentro de nós, tomando conta de tudo e apagando as luzes da alegria.

Perdemos a vontade de tudo, quando amanhece só queremos sumir, passar para debaixo da cama e ali ficar, quietinhos, no escuro, esquecidos do mundo.

Cada tarefa a cumprir é um calvário. Sorrir, comer, trabalhar, até mesmo pensar é penoso.

E como não podemos parar vamos nos arrastando vida a fora, carregando um peso incrível que não é nosso e nem sabemos porque temos de suportar.

Aí um dia, sem mais nem menos, um belo dia, quando acordamos ouvimos um sabiá cantando do lado de fora da janela.

Abrimos a janela e vemos um lindo sol lá fora, sorrindo para nós e nos convidando para a vida.

Leves, felizes, retomamos nossa vida, deixando para trás a nostalgia e a melancolia, que voltam então, cabisbaixas, para seus cantinhos, e ficam por ali esperando um dia em que estivermos distraídos para pularem de volta no centro de nossa vida e tomarem conta de tudo novamente.

 

Da morte

Dans l’Histoire des temps la vie n’est qu’une ivresse, la Verité c’est la Mort.

 

Não sou muito de pensar em morte, mas às vezes essa idéia vem e martela… 

Será que se percebe a aproximação da morte, ou só se encara a morte quando não tem mais jeito, quando ela realmente intercepta nossa trajetória por aqui? 

O que será que Jesus pensava enquanto caminhava rumo a seu calvário? Quando andei por lá, sentindo a emoção de pisar as mesmas pedras que meu Deus pisou, olhava para o chão do caminho entre o local do julgamento e da crucificação e essa idéia me martelava: o que Jesus pensava, será que ele realmente sabia da vida, da morte e da vida depois da morte? 

E quem morre de acidente, será que dá tempo de ver a morte chegar? Quem fica preso em um carro que cai no mar, que demora a morrer e não pode se salvar, o que será que pensa? 

Os passageiros dos aviões que caem – quase sempre à noite, em locais ermos, escuro total – será que eles vêem que já estão de frente para o além, que não voltarão mais ao mundo onde viviam até então? 

As vítimas que morrem baleadas, em assaltos, em homicídios, em tiroteios que não participam, o tempo que leva entre o tiro, a entrada da bala e a perda da consciência – será que dá tempo para pensar em alguma coisa? 

E os suicidas? O que eles pensam depois que dão início à execução da própria morte, será que se arrependem, mas já é tarde demais para voltar atrás? 

Estranha a morte, não se encaixa em nada do mundo dos viventes…

Naufrágio

La mer / Qu’on voit danser le long des golfes clairs

A des reflets d’argent / La mer

Des reflets changeants / Sous la pluie

 

La mer / Les a bercés

Le long des golfes clairs / Et d’une chanson d’amour

La mer / A bercé mon cœur pour la vie

(Charles Trenet)

 

 

                                               Era um barco. Um simples e vulnerável barco, cortando as águas em busca de seu porto.

                                               Singrava as águas mansamente, sem pressa, sem querer chegar depressa. Apenas queria chegar.

                                               As águas, tépidas e amigas, o balançavam suavemente, brincando de resistir com suas marolas

                                               O céu a tudo assistia. Tentava clarear o máximo de tempo possível, dourando as águas ao amanhecer, e as prateando antes de jogar sobre elas o marinho noturno.

                                               E o barco, de dia singrava, de noite adormecia. Ao sabor das águas, confiante e sereno. Não receava tempestade, não temia o vento. Ele se bastava, não sentia solidão nem precisava de outro barco a lhe fazer companhia. Esperava as primeiras estrelas de cada anoitecer para conferir o rumo que o sol lhe dava. E, se a lua estivesse bem-humorada, logo surgia rastreando de prata toda a superfície visível.

                                               Tão sereno, tão valente, o pobre barco confiava em seu poder e não temia seu destino.

                                               Até o dia em outro barco, de repente, vier a cruzar sua travessia e desviar sua atenção. É a própria tragédia anunciada. O pobre barco não terá mais paz, buscando encontrar seu igual, e se sentirá só nessa imensidão.

                                               Sem paz, não poderá mais enfrentar ventos e procelas. E conhecerá o sofrimento. A ansiedade de esperar, de querer, de desejar.

                                               E, de repente, soçobrará.

                                               Meu coração, esse mar. Minha paixão, esse barco, que naufragou quando buscou outro barco.

 

 

Em busca da felicidade

 

 

 

Trinta raios convergem para o meio de uma roda

Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;

É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;

São os buracos que o tornam útil.
Por isso, a vantagem do que está lá

Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.

(TaoTe Ching, cap. 11)

    

                                         

É sutil no início. Nem dá para perceber com muita nitidez. 

Continuamos nossa vida normalmente, sempre sentindo que algo incomoda. 

Algo indefinido, como uma náusea que não se instala, uma vontade de tossir que não basta para tossir. 

E, dia após dia, parece que braços e pernas pesam mais, ou o corpo todo está pesando, tudo que fazemos é arrastado, difícil, incomoda, não causa prazer. 

Até que as festas não atraem, os hobbies entendiam, as pessoas nos cansam. 

E, de repente, um dia quando tentamos nos levantar, notamos que estamos presos no local, por milhares de fios de teias de aranhas invisíveis. E nem nos movimentamos mais. 

Esse é o começo da depressão causada pela insatisfação cotidiana da vida.

 Se não temos uma profissão que nos dê prazer, trabalhamos cumprindo a obrigação, mas sem sentir, sem vibrar. 

Se não se trabalha fora, o serviço doméstico, entediante por natureza, se torna um monstro invencível.

 Conviver é um sacrifício. 

Aí, se quisermos sobreviver, temos que romper essas correntes que nos paralisam,  que não vemos mas sentimos. 

E o sofrimento, a dificuldade, para quebrar esses elos – conceitos e preconceitos que nos acompanham, nos limitam, nos travam, não nos deixam viver em plenitude. 

Da mesma forma que precisamos quebrar os ovos quando queremos saborear uma omelete, se não rompemos essas correntes jamais teremos nosso próprio caminho – o Tao. 

Somente pensando por nossa própria cabeça atingiremos essa liberdade espiritual que nos abrirá as portas para fazermos nosso caminho e não mais caminharmos caminhos já feitos por outros. 

Essa mudança – radical às vezes – será mal vista, mal interpretada, fará alguns chorarem, talvez nós mesmos, mas é a única forma de procurarmos nossa verdadeira felicidade – objetivo primeiro e maior de nossa vida. 

Mas tem outro lado: ao sairmos do comodismo do caminho já feito, visto e percorrido pelos outros, encontraremos obstáculos, buracos, pedras e espinhos novos e imprevisíveis. 

E cairemos e sangraremos. 

É preciso coragem, muita coragem, para romper com esse esquema cômodo e trilhar o próprio e solitário caminho da busca de si mesmo. 

Se chegarmos a algum lugar, seremos vencedores. Se ficarmos pelo caminho, demonstraremos nossa fraqueza, se recuarmos e voltarmos ao comodismo da vida que outros vivem por nós, aí será a covardia maior.

 

Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,

Na busca do Tao, todos os dias algo é deixado para trás.

(Tao Te Ching, cap. 48)

 

Filosofando com tristeza

A morte não é a maior perda da vida.

A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos…

(Pablo Picasso)

 

 

 

Tema recorrente, a decepção.

Quantas e quantas vezes um coração é capaz de sobreviver a uma decepção?

Qual a pior decepção – no amor, na família, nas amizades…

Há uma decepção pior ou melhor que a outra?

Se tudo for decepção, será possível continuar vivendo mesmo assim?

São infinitas as perguntas.

Mas não tenho as respostas.

Quanto a mim, remendando aqui e acolá esse velho coração tão judiado, tenho conseguido lidar com tantas tristezas e decepções. Sem choro, sem desespero. Com minha fonte inesgotável de defesa para me manter viva e em paz.

E sem perder nem a doçura nem a vontade de ser feliz e fazer o outro feliz.

Como suporte, desenvolvi o mecanismo da morte em vida: quem me decepciona além de um ponto determinado na minha escala de suportar os seres humanos, simplesmente morre para mim.

Morre definitiva e irremediavelmente. Seja amor, seja familiar, seja amigo. Morre uma única vez. Morre em vida.

Ultimamente vi morrer em vida pessoas que muito prezei em minha vida. Mas ultrapassaram todos os pontos da escala de suportabilidade de atos alheios…

Então morreram em mim. Sem flores, sem enterro, sem choro.

Para sempre.

 

(Escrevi esse texto aos 01/06/2015 , mas continua tão atual, parece que escrevi ontem, hoje, essa madrugada… então resolvi postá-lo hoje. Porque a realidade continua sempre igual).