Em busca da felicidade

 

 

 

Trinta raios convergem para o meio de uma roda

Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;

É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;

São os buracos que o tornam útil.
Por isso, a vantagem do que está lá

Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.

(TaoTe Ching, cap. 11)

    

                                         

É sutil no início. Nem dá para perceber com muita nitidez. 

Continuamos nossa vida normalmente, sempre sentindo que algo incomoda. 

Algo indefinido, como uma náusea que não se instala, uma vontade de tossir que não basta para tossir. 

E, dia após dia, parece que braços e pernas pesam mais, ou o corpo todo está pesando, tudo que fazemos é arrastado, difícil, incomoda, não causa prazer. 

Até que as festas não atraem, os hobbies entendiam, as pessoas nos cansam. 

E, de repente, um dia quando tentamos nos levantar, notamos que estamos presos no local, por milhares de fios de teias de aranhas invisíveis. E nem nos movimentamos mais. 

Esse é o começo da depressão causada pela insatisfação cotidiana da vida.

 Se não temos uma profissão que nos dê prazer, trabalhamos cumprindo a obrigação, mas sem sentir, sem vibrar. 

Se não se trabalha fora, o serviço doméstico, entediante por natureza, se torna um monstro invencível.

 Conviver é um sacrifício. 

Aí, se quisermos sobreviver, temos que romper essas correntes que nos paralisam,  que não vemos mas sentimos. 

E o sofrimento, a dificuldade, para quebrar esses elos – conceitos e preconceitos que nos acompanham, nos limitam, nos travam, não nos deixam viver em plenitude. 

Da mesma forma que precisamos quebrar os ovos quando queremos saborear uma omelete, se não rompemos essas correntes jamais teremos nosso próprio caminho – o Tao. 

Somente pensando por nossa própria cabeça atingiremos essa liberdade espiritual que nos abrirá as portas para fazermos nosso caminho e não mais caminharmos caminhos já feitos por outros. 

Essa mudança – radical às vezes – será mal vista, mal interpretada, fará alguns chorarem, talvez nós mesmos, mas é a única forma de procurarmos nossa verdadeira felicidade – objetivo primeiro e maior de nossa vida. 

Mas tem outro lado: ao sairmos do comodismo do caminho já feito, visto e percorrido pelos outros, encontraremos obstáculos, buracos, pedras e espinhos novos e imprevisíveis. 

E cairemos e sangraremos. 

É preciso coragem, muita coragem, para romper com esse esquema cômodo e trilhar o próprio e solitário caminho da busca de si mesmo. 

Se chegarmos a algum lugar, seremos vencedores. Se ficarmos pelo caminho, demonstraremos nossa fraqueza, se recuarmos e voltarmos ao comodismo da vida que outros vivem por nós, aí será a covardia maior.

 

Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,

Na busca do Tao, todos os dias algo é deixado para trás.

(Tao Te Ching, cap. 48)

 

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