Viver é isso mesmo

Mensagens e Pregações: Levai as cargas uns dos outros

Não é questão de gostar, nem é questão de querer.

Como também não é questão de aguentar nem é questão de ser forte.

É apenas a vida exatamente como ela é: rude, crua, bruta, implacável.

Nunca a vida pergunta como se quer ou como se gosta.

Apenas tudo acontece como deve acontecer, e cada um que se vire para se sair bem em cada prova que chega.

Da mesma forma, a vida não tem teste de capacitação nem auxílio de fortalecimento: manda os acontecimentos, as dores, as privações, e cada um que trate de aguentar como puder e fortalecer o próprio ombro para suportar o peso que terá de arrastar.

Ninguém é forte por opção nem por achar bonito. Mas por necessidade. Por não ter outra pessoa sobre a qual jogar o peso do que lhe acontece. Então o jeito é ser forte. Ou irá a pique.

A vida não fornece borracha nem apagador. Seus erros ficam gravados e geram consequências infinitamente, até o fim dos dias. Ouse errar uma vez, um segundo. E pagará como um Sísifo moderno, até o momento do último suspiro.

Também a vida não faz teste preventivo – apenas joga a carga e tem-se de suportar o peso do próprio fardo. E, por vezes, dos outros também, que nos é imposto carregar. E também a vida não ensina a ser forte: bate duramente até que cada um se fortaleça ou se quebre.

Felicidade? Ah, isso é baboseira que inventaram para fazer de conta que a vida pode ser boa e recompensar um dia.

Um dia? Sim, um dia. Quem sabe…

Dia de poesia – Rosa Lobato Faria – Primeiro a tua mão sobre o meu seio

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.

Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.

Logo o roçar urgente do joelho

e o ventre mais à frente na maré.

 

É a onda do ombro que se instala.

É a linha do dorso que se inscreve.

A mão agora impõe, já não embala

mas o beijo é carícia, de tão leve.

 

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.

A boca exige: quer mais sal, mais morno.

Já não há gesto que se não invente,

ímpeto que não ache um abandono.


Então já a maré subiu de vez.

É todo o mar que inunda a nossa cama.

Afogados de amor e de nudez

Somos a maré alta de quem ama


Por fim o sono calmo, que não é

Senão ternura, intimidade, enleio:

O meu pé descansando no teu pé,

A tua mão dormindo no meu seio.

(Imagem: banco de imagens Google)

O fado de Vinicius de Moraes – Saudades do Brasil em Portugal

E o Poetinha se aventurou em outras águas. E atreveu-se a compor um fado. Aqui, Saudades do Brasil em Portugal, da voz da inigualável fadista Amália Rodrigues

O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi

Pelo “Dia da Poesia”, a Carlos Drummond de Andrade

No dia 31 de outubro de 1902 nascia, em Itabira, Carlos Drummond de Andrade. Um dos maiores poetas do Brasil. Em razão de seu aniversário natalício, nessa data, é comemorado o “Dia da Poesia”.

E agora, Carlos? agora, em sua homenagem, trago um poema que simboliza a modernidade de sua temática, a dinâmica de sua poesia:

6 poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre a amizade - Cultura Genial

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Poesia da casa – Meu cansaço

Arquivos MELHORANDO O RELACIONAMENTO - MULHER DE VALOR / RELACIONAMENTO E  CONQUISTA

Eu já não trago nem mais carrego

esse cansaço que vive em mim:

ele se tornou minha pele, eu o visto

ele faz parte de mim

porque sei que nunca mais

viverei sem ele a me atormentar.

Esse cansaço hoje é parte de mim

um cansaço difuso, histórico, presente

cansaço da vida, da falta de amor

cansaço de tanto plantar e nada colher.

Foi tanto cansaço, mas tanto e tanto

que me cansei até dele mesmo.

Deixa-me, cansaço meu, por um momento.

Fica longe de mim por uns instantes!

Quero ao menos um tempo sem você

para poder, então, morrer em paz!

2020 – O ano que não vivi

Hoje, 29 de outubro, é comemorado o Dia Nacional do Livro. E isso acontece por ser a data da fundação da primeira biblioteca no Brasil, a Biblioteca Real, no Rio de Janeiro, quando da vinda da família real portuguesa para se estabelecer no Brasil – único caso conhecido em que um reino se deslocou e se instalou em uma colônia da coroa. A Real Biblioteca Portuguesa veio junto com a família real, tornando-se, aqui, a Biblioteca Nacional.

Para se formar uma biblioteca, imprescindível a existência de livros. À menção da palavra livro já se visualiza o papel cortado, alinhado, preso em capa firme. Essa é a imagem clássica de um livro. Entretanto, o primeiro livro conhecido não era impresso, mas escrito em cerâmica – um poema homenageando um rei da longínqua Mesopotâmia. O primeiro livro impresso no mundo foi a Bíblia, quando Guttenberg a imprimiu em 1445.

E nesse mesmo hoje, 29 de outubro de 2020, em comemoração ao Dia Nacional do Livro, lanço meu quarto livro. Uma mistura de crônicas, contos e depoimentos reais, os sentimentos, as emoções e a realidade desse ano louco, que marcará para sempre a História.

Relatos de como enfrentamos o isolamento social, o medo do futuro, a insegurança coletiva.

Apresento, com orgulho e emoção, trazendo o prefácio da escritora Vera Melo e capa do artista Beto Jr., “2020 – O ano que não vivi”.