Nada

Nuvens sem fim, escuridão

O céu desaparece e o nada é imensidão

Luz sem vida de estrelas mortas

No âmago da inconstância

Indefinidas formas se encontram

A vida, finita por natureza

Não pode conter infinitos

Amores também nascem para morrer

Tudo o que floresce, fenece

Das correntes nos libertamos

Para nos atirarmos dos rochedos

E morrer no mar

Nada permanece, nada é eterno

Cada minuto diminui sessenta segundos de vida

Só insensatos não entendem essa realidade

A sede de viver é proporcional à consciência da morte

Certeza absoluta nesse oceano de incertezas

Quando chega um momento certo

Verdes e azuis se tornam marrons e cinzas

E até a natureza parece soçobrar

De tudo aquilo que fomos, vimos e amamos

Então nada restará

 

 

Escrever

Poeta não é somente o que escreve. É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso. (Cora Coralina)

 

Escrever… escrever

Para escrever é preciso pensar. Pensar muito. Pensar concreto no papel através de conjuntos de letras.

Tentar, por escrito, a comunicação com os outros que não consegue pessoalmente.

Poeta ou prosador, despertar emoção latente em outras almas, mesmo que desconhecidas.  

Por que escrever? Por vaidade, por necessidade, para perpetuar a memória desse momento histórico em que vivemos. Através da escrita (e antes, ainda, através dos desenhos encontrados em cavernas) o homem vem deixando o testemunho de sua passagem pela Terra, possibilitando que se consiga entender as questões filosóficas mais básicas – o que somos, de onde viemos, para onde caminhamos…

E poesia, por que escrever poesias?

Para por sal na vida. Sem emoção a vida é muito insossa. A poesia traz amor, paixão, desejo, tristeza, separação, mas sempre dentro de um contexto de muita emoção. Também é um testemunho de um tempo, dinâmica, mostra o relacionamento do homem com suas próprias emoções.

Recordando Francisco Otaviano, “Quem passou pela vida em branca nuvem / E em plácido repouso adormeceu, / Quem não sentiu o frio da desgraça, / Quem passou pela vida e não sofreu, / Foi espectro de homem, e não homem, / Só passou pela vida, não viveu”

E emoção de quem escreve deve ser capaz de despertar a emoção de quem lê. Frutos de origens distintas, outras raízes, outras experiências, escritor e leitor, mas unidos na mesma emoção.

Por isso escrevo, por isso sou poeta. Por isso leio outros escritores e outros poetas.

E você, caro leitor, por que lê?

A caixinha de música

 

Abaixou-se, pegou a delicada caixinha no chão. Quando se levantou, lágrimas corriam de seus olhos. “Por que você fez isso?” perguntou. A caixinha entortara, a cabeça e um braço da bailarina quebraram e estavam no chão. Recolhidos com cuidado, foram carinhosamente guardados no interior de veludo vermelho.

Havia uma grande dor em seus olhos, uma tristeza que mostrava intensa mágoa.

Ele pegou a caixinha de suas mãos, saiu do quarto e fechou a porta.

Ela voltou a se deitar. E chorou. Chorou sozinha, chorou abafado, até as lágrimas secarem e adormecer ainda soluçando. Ela estava dormindo, por que ele viera na madrugada perturbar seu sono e quebrar sua caixinha de música?

Lembrou-se, então, de quando a teve nas mãos pela primeira vez, há pouco mais de dois anos atrás. Algo que sempre desejara, sempre esperara, enfim, estava ali, a seu alcance.

Quantas noites, já no escuro, dava corda e ficava ouvindo a suave melodia até adormecer. Quantas noites não conseguira mais dormir sem ouvir a musiquinha, como se a caixinha tivesse se tornado um vício? Era seu calmante, seu sonífero, seu ansiolítico mais eficazes…

Aquela caixinha embalara seu sono e amparara seus sonhos todas as noites. Agora ele a quebrara. Sem nenhum motivo. Era um egoísta, não se importava com ela.

Dias depois, encontrou a caixinha sobre a cama. Ele a refizera. Tirou os riscos do verniz externo. Remontara com perfeição a bailarina. Não podia negar o quanto ele era habilidoso quando queria ser.

Sentindo um sopro quente de alegria no coração, deitou-se e deu corda. A música não tocou. A bailarina não dançou. A pancada danificara irremediavelmente o mecanismo.

Ainda que à primeira vista a caixinha estivesse perfeita por fora, seu coração fora para sempre danificado por aquela atitude estúpida, nunca mais seria a mesma, e ela sabia que noites insones a fariam ter saudade dessa caixinha. Mesmo que ele trouxesse outra para substituí-la, não seria igual, porque os sonhos que sonhara com aquela música nunca mais viriam.

Lágrimas lhe vieram aos olhos, porque, uma vez trincada, essa emoção não voltaria mais, mostrando que a saudade já chegara…

Um barco à deriva

Como seguir o vento, se as adriças já não içam as velas?

A calmaria impede navegar, não há mais movimento

O leme, inútil agora, tenta indicar a direção a seguir

Mas o velho barco não consegue seguir adiante

Está à deriva, tristonho, já não se arrisca nas ondas

Nem luta com o mar quando há tormentas e ventos

Pássaros ligeiros do alto espreitam a imobilidade

Tal como nuvens brancas, esparramadas pelo céu azul

E o mar, todo o mar, rodeando e embalando

O casco que balança ao sabor das marolas

Não é possível seguir, mas não é possível ficar

Por que parou, barco ligeiro e habilidoso?

Perdeu a vontade de navegar, a necessidade de chegar,

Ou já não há porto a sua espera? pergunto ao barco.

Comparo agora esse velho barco a meu coração

Que se recolhe num ponto qualquer, perdido sem

Ter razão para seguir, já não luta nem se arrisca

Que também perdeu seu porto onde ancorar

Porque as adriças do abandono travaram o sentimento

Resta, então, a velha âncora da paixão que já não há,

Mortas as velas do encanto que impulsionam e lhe dão sentido.

Poetas

Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos. (Cora Coralina)

 

O que faz de um ser humano um poeta?

A tristeza? As adversidades? As dores dos amores não vividos ou não correspondidos?

O que desperta esse ser poeta?

A beleza? O amor? A natureza?

Já dizia o Poeta (poeta, só o Poeta, assim, com artigo definido e letra maiúscula é Vinicius de Morais) que ninguém é poeta por saber rimar…

E não é mesmo. Para fazer rima basta um dicionário.

Para ser poeta é preciso muito, muito mais…

Mais que um dicionário, um papel e um lápis.

Mais que um grande amor, muita paixão e a saudade doída da separação.

E um sentimento humano tão grande, tão maciço, que sufoca, não deixa respirar e faz chorar.

Pode ser que com tudo isso surja um poeta. Mas mesmo com tudo isso e ainda mais, muitos não se mostram poetas.

Não sabem ver a beleza da flor que virá quando olham um simples botão; nem prever o brilho das estrelas antes do anoitecer.

Não sabem ouvir a voz dos anjos nem o pranto não chorado dos que sofrem calados.

Não veem em cada ser à sua volta uma criação divina, à imagem e semelhança do Pai.

E, principalmente, não soltam os freios do próprio sentir, mantendo em cárcere privado o próprio amor, afundados em egoísmo.

Esses jamais serão poetas.

Porque poetas olham para a terra bruta e enxergam o jardim que poderia ser.

Olham a poça d’água e pensam na infinidade do mar. Olham para as pedras e sonham montanhas.

E, mais que tudo isso, vêem com os olhos do coração, o qual mantêm solto, sem freios nem rédeas, ao acaso da sorte e ao sabor das paixões.

Por isso vêem outro mundo na nossa realidade, e nos levam aos píncaros das emoções, despertam sensações indescritíveis, fazem-nos sentir a alma como as cordas retesadas de um violino.

A beleza de sua produção é diretamente proporcional ao sofrimento que experimentam. Porém alguns, em face de uma grande dor, num momento de ternura e raiva destroem toda sua produção e nunca mais escrevem. Muito triste quando isso acontece.

Na felicidade nada conseguem expressar.

Há poetas da vida, das palavras, dos sons, das cores… porque há poesia em tudo, em cada esquina, em cada parede, em cada face. É preciso ter olhos especiais de poeta para enxergar.

E para quem não enxerga, há os poetas, que podem ver e traduzem a todos a beleza e a dor que veem e que sentem.

Por isso são imortais, centenas de anos se passam, mas a poesia é presente, é viva e não morre jamais.

Abençoados sejam os poetas.

(obs. – escrito aos 18/04/09 , antes de me descobrir ou de me assumir poeta…)

Silêncio pelo menino morto

Esse texto foi escrito em 03 de setembro de 2015. O mundo já esqueceu… 

 

O menino deitado na areia

Adormeceu

Espera por seu pai

De quem se perdeu.

O menino deitado na areia

Fugiu de sua pátria

Fugiu da guerra e do horror

Fugiu da fome e da violência.

No vento frio da noite

Segurava na mão de seu pai

O menino deitado na areia

Tinha pai, tinha mãe e irmão.

No vento da noite o balanço do mar

No frio da noite as ondas imensas

No escuro da noite seu corpo no mar.

Não viu onde foi seu irmão

Não ouviu mais a voz de sua mãe

Não achou mais a mão de seu pai.

E as ondas do mar levaram o menino

E o deixaram na beira da praia.

Adormecido ali ficou o menino.

O pequenino na areia da praia.

Rostinho virado de lado não viu

A cem metros estava seu irmão

Deitado na areia da praia

Dormindo na beira do mar.

Não mais se deram as mãos

Não mais se viram os rostos.

O menino deitado na areia

Deixou um planeta chocado

Sacudiu o conforto de todos

Arrancou lágrimas de dor

Porque não brincava o menino

Não aproveitava a alegria da praia

O menino deitado na areia

Fugindo do horror e da guerra

Não dormia o menino na areia:

Estava morto o menino

Deitado na areia da praia

Morrera nas ondas do mar.