Conversa com meu avô n° 15

Olá, Vô, por que anda tão sumido? Desistiu de saber notícias aqui de baixo?

Então manda algumas daí de cima – deve estar bem melhor que aqui.

Como assim, por que estou tão sozinha? Queria que eu estivesse com quem? O senhor foi embora, logo em seguida a Vovó o seguiu. Meus tios queridos, meu pai amado, e, há quatro meses, meu querido padrinho… vocês se foram e me deixaram aqui. Não sobrou ninguém para gostar de mim… Será que ninguém virá me buscar? Meu castigo será a vida longa????????

Sim, vamos mudar de assunto que o senhor não quer ou não pode falar sobre isso. Diga lá – o que quer saber da lambança que está a política (sempre é sobre isso…)

Pois é, a Rainha da Inglaterra nos deixou. O mundo ficou esquisito sem ela. O senhor acredita que, quando eu nasci, ela já era rainha? Agora fica o dedos-de-salsicha brincando de ser rei… sei não se a monarquia sobreviverá a esse fulano.

Mas aqui, na nossa terrinha, a coisa está complicada.

Temos um rainha da Inglaterra tupiniquim. Embora presidente eleito, e idolatrado pelo povo, ele não tem poder. Um outro se adonou do poder e o exerce loucamente.

Nosso Presidente é candidato a ser reeleito – espero que ganhe, o que, obviamente acontecerá se depender apenas e somente da vontade do povo, já fartamente demonstrada – e um de seus ministros – o melhor, por sinal – é candidato ao governo do nosso Estado.

Esse sim, precisa ganhar a eleição. São Paulo voltará a crescer, transbordar, recuperar sua economia e pujança. Voltará a ser aquele Estado que é maior que muito país… Vamos aguardar. Faltam vinte dias.

Aí saberemos se teremos futuro ou se vamos comer nossos cachorros (agora se chamam pets e não são mais nossos – animal atualmente não tem dono, tem tutor).

Que besteira é essa, Vô? Sei lá, não fui eu que inventei nem me perguntaram quando inventaram. É mais uma da turma do politicamente correto, que na verdade é o disfarce dos intelectualmente limitados.

Não, não estou azeda nem revoltada. O senhor que perguntou e respondi o que penso. O senhor bem sabe que não sou mentirosa. Mesmo sendo fantasiosa como escritora, na vida eu não exagero nem minto. Continuo a mesma neta de sempre.

Pode confiar em mim.

Sim, a Amazônia continua intacta. E os oceanos continuam sendo o pulmão do mundo. Os abestados pensam que é a floresta, mas quem gera mais de 50% do nosso oxigênio são as algas marinhas que produzem. O entendimento dos idiotas é atestado de ignorância dos ecochatos.

O Presidente não mandou matar ninguém. A economia melhorou muito, especialmente em comparação com o que sobrou da pandemia no resto do mundo. O Brasil está fortíssimo no agronegócio, exportando alimentos para mais de meio mundo. Se deixarem o presidente governar, o Brasil subirá feito um foguete.

Quem? O presidente dos EUA? Ninguém sabe, ninguém viu. O cara é tão inexpressivo que nem gera notícias.

Na próxima semana teremos a conferência anual da ONU, aí haverá um pouco de divulgação. Mas a imprensa está tão dominada, que nem sabemos como interpretar o que nos chega.

Verdade, Vô. Falei para o senhor que aqui está complicado.

Sabe o que eu queria, mesmo? Sentar para tomar café e comer rapadura com o senhor. Como antigamente. Estou sentindo muita falta dos que estão aí.

Veja se apressa minha ida.

Ou não irei para o mesmo lugar que vocês??????????????

Não fica bravo. Estou enfrentando aqui e continuo na luta. O senhor sabe.

Mas chega um momento em que se desanima. Tanta mentira, tanta falsidade. Tanta enganação, tanta traição… O futuro está encolhendo…

Não sabemos mais quem é o bandido e quem é o mocinho. Isso é complicado.

Sim, vamos cuidar da vida.

Apareça mais vezes que sinto saudade. bj

Dia de poesia – Cecília Meireles – Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

– e um dia me acabarei.

Texto de Ângela Caboz – Não penses que mudei

Não penses que mudei!

Tu partiste e eu continuo igual a mim mesma.

Chorei, sim é verdade que chorei. Afinal como bem sabes não sou feita de mentiras, portanto, chorei pelo amor verdadeiro que me corria nas veias e que acelerava o meu coração. Chorei rios de desilusão, litros de revolta e também soltei do meu coração algumas toneladas de sofrimento.

Libertei tudo isso silenciosamente. Limpei cuidadosamente a ferida que fizeste e foi com muita força que a curei, para que não restassem vestígios de ti na minha nova vida.

Mas tudo isso não me fez mudar! Continuo igual.

Sou a mulher que te conquistou, a mesma que te amou. Aquela mulher sofrida que não teme o futuro. A que vem de um passado duro e coberta de marcas que lhe ficaram tatuadas no corpo. Sou a mulher que poucos saberão amar por não terem essa capacidade de compreender as virtudes de uma mulher com passado. Talvez não seja fácil abraçar alguém que tem feridas com nome e que não desiste de sua própria identidade e por isso não quiseste ficar a meu lado. Não tiveste força para amar tudo o que sou.

Continuo a acreditar no amor e sei que sempre será ele a comandar a minha vida, por mais que amar me vá deixando marcas que nunca se irão apagar.

Não mudei, apenas aprendi a dar distância a quem não me procura. A não sorrir para quem se afastou. E em tudo isso tu poupaste-me o trabalho quando partiste por vontade própria, dessa forma não tive que te riscar da minha vida com quem quer corrigir um erro de percurso.

Sou a mulher que se veste todos os dias dela mesma, sem ter medo de continuar na estrada da vida.

Texto de Martha Medeiros

Não peço que tire os sapatos, ao entrar na minha casa.

Ou seria minha vida? Entenda como quiser.

Peço que tire a máscara e a armadura.

Pode deixar ali naquele cantinho, devolvo na saída. Prometo.

E não me venha com silêncios ou imobilidades.

Nada de recuos ou fugas.

Apenas entregue-se.

Aqui, o durante, é que importa.

O antes e o depois você resolve lá fora, cadeira do analista, bar com amigos, tanto faz.

Aceite as falhas, engula a pressa.

E não me peça para escutar as coisas que você não diz. Não leio mentes, não faço jogos.

Me aceita, me abraça e me recebe. Deixa alguma marca, cria alguma história.

Sou uma mistura de aço e gelo.

Adicione um pouco de vodka.

E sirva-se.

(Imagem: banco de imagens Google)

Perdão (Memória)

“Te perdoo por me amares demais” (Chico Buarque)

Fala comigo! 

Me acalenta. 

Me permite cometer erros gramaticais,

seja em nome da licença poética 

ou do meu amor por você. 

Me permite chorar alto, te chamar 

Me permite te perdoar 

Me permite te permitir ser minha. 

Por não ter entrado na sua vida antes, 

te peço perdão. 

Me perdoa por não me perdoar. (desconheço a autoria)

(Imagem colhida em banco de imagem Google)

Dia de poesia – Hoeppner Dutra – Melancolia

Minha alma respira espúmeos devaneios

do sal convulso que a tempestade dissipou.

Minha alma silencia sonhos alados

que a garoa doce e meiga afagou.

Minha alma andeja pelas doidas madrugadas

libando cismas nas neblinas fugidias.

Minha alma palmilha insônias perdidas

que o luar em ardente enlace lobrigou.

Minha alma é um punhado de tédio e de cal

Espargido em noites tristes de solidão.

(Imagem: banco de imagens Google)