Luta cotidiana

Não importava a vontade.

Era preciso se levantar.

Não apenas se levantar, mas enfrentar mais um dia.

Teve uma crise de choro. Mais uma. Era recorrente. Era rotineiro no último ano.

Mas se levantou.

Sentiu que o corpo se levantava. Mas continuava ali deitada.

Olhou-se na cama, entrou no banho e decidiu enfrentar o dia e a vida.

Já arrumada, pronta para sair, foi até o armário, pegou uma caixinha e ali guardou a dor, o pranto e o amor ferido.

Olhou-se novamente na cama.

Foi até ali e pegou a alma sangrando, com todo cuidado e a colocou em outra caixinha dentro do armário.

Deu uma última conferida no espelho, para ver se no corpo estéril e desprezado estava tudo em ordem.

Ensaiou um sorriso para si mesma, treinando para enfrentar a humanidade diária.

E foi…

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Soneto da Quarta-feira de cinzas

Por seres quem me foste, grave e pura 
Em tão doce surpresa conquistada 
Por seres uma branca criatura 
De uma brancura de manhã raiada 

Por seres de uma rara formosura 
Malgrado a vida dura e atormentada 
Por seres mais que a simples aventura 
E menos que a constante namorada 

Porque te vi nascer de mim sozinha 
Como a noturna flor desabrochada 
A uma fala de amor, talvez perjura 

Por não te possuir, tendo-te minha 
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada 
Hei de lembrar-te sempre com ternura.

- Rio, 1941 -

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Ana Acto

Bebe comigo um trago quente
Maduro, frutado
De um corpo deitado
Sedento de loucura
Sente...
As notas apimentadas 
E o odor almíscarado
Que o compõem 
Bebe comigo, em mim...
Degusta cada gole
Desta casta delicada
Numa prova singular
Ah...meu poeta
Sacia em meu corpo tua sede
De prazer e inspiração 
E eu, deleitada
Entre homem e palavra 
Me deixo seduzir
Entre carícias e letras
Numa entrega rival 
E despida
Me rendo a votos suados 
Sussurrados em desejo
Declamados pelo chão 

(Imagem: foto de Maria Alice)

Uma noite, um café

A noite estava muito linda para se ficar em um quarto. Pegou seu cavalete, uma tela, suas tintas e pincéis e saiu.

Encantou-se com as cores que o entardecer trouxera e mais ainda com as estrelas que brilhavam sobre Arles.

Em uma calçada, montou a tela no cavalete, tomou emprestada uma cadeira da mesinha de um café ainda aberto, e começou a pintar.

Pintou as casas com as cores que a luz da rua projetava sobre as fachadas.

Pintou as janelas contra-iluminadas por lâmpadas artificiais.

As pedras das ruas em seus diferentes tons.

E então, olhou para cima, e pintou o céu, as estrelas e a noite.

Não usou tinta preta, porque não via a noite negra.

Pintou os azuis que o anoitecer deixara no céu.

Pintou as estrelas que piscavam louca e alegremente em todo o firmamento.

E nunca mais pensou em pintar uma noite com tinta preta, porque entendeu o que enxergava, e que, na verdade, o azul permanecia no céu depois do anoitecer. Bastava ter a memória do dia e os olhos de artista.

(Imagem: Terrasse du café sur la Place du Fórum à Arles, le soir – pintura de Vincent van Gogh, 1888, banco de imagens Google)