Fim de voo

Seria um voo curto – do galho da paineira até o alto da mangueira.

As árvores ficavam próximas entre si.

O pequeno pássaro avaliou a distância.

Avaliou a altura do galho da mangueira que queria alcançar.

Traçou seu plano de voo e se lançou.

Voar era liberdade. Era alegria.

Tinha a visão do céu muito azul nessa tarde de inverno.

Deu mais vigor às pequenas asas. Em poucos metros chegaria.

Não viu nem ouviu. Mas sentiu.

Sentiu a pedrada certeira que o tirou do voo.

O azul escureceu.

(Imagem: banco de imagens Google)

Da série “Foi Poeta, sonhou e amou na vida”

A meus caros leitores e seguidores: vou iniciar nesta data uma nova coluna neste blog: “Foi Poeta, sonhou e amou na vida”. Onde será publicada uma breve biografia de poetas brasileiros e estrangeiros, e ainda um poema de sua autoria. Para maior divulgação da vida e da obra dos poetas. Cultura nunca é demais…

Começarei com o autor da citação que nomeia a coluna, “o poeta da dúvida”, o brasileiro

Álvares Azevedo

(Foto de Mônica Yamagawa)

(Texto de Dilva Frazão, Biblioteconomista e professora)

Biografia

Álvares de Azevedo (1831-1852) foi um poeta, escritor e contista, da Segunda Geração Romântica brasileira. Suas poesias retratam o seu mundo interior. É conhecido como “o poeta da dúvida”.

Faz parte dos poetas que deixaram em segundo plano, os temas nacionalistas e indianistas, usados na Primeira Geração Romântica, e mergulha fundo em seu mundo interior. É Patrono da cadeira n.º 2, da Academia Brasileira de Letras.

Infância e Juventude

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Era filho do Doutor Inácio Manuel Alvares de Azevedo e Dona Luísa Azevedo. Aos dois anos de idade, junto com sua família, muda-se para o Rio de Janeiro.

Em 1836 morre seu irmão mais novo, fato que o deixou bastante abalado. Foi aluno brilhante, estudou no colégio do professor Stoll, onde era constantemente elogiado. Em 1845 ingressou no Colégio Pedro II.

Em 1848, Álvares de Azevedo voltou para São Paulo e iniciou o curso de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde passou a conviver com vários escritores românticos.

Nessa época fundou a revista da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano, traduziu a obra Parisina, de Byron e o quinto ato de Otelo, de Shakespeare, entre outros trabalhos.

Álvares de Azevedo vivia em meio aos livros da faculdade e se dedicava a escrever suas poesias. Toda sua obra poética foi escrita durante os quatro anos que cursou a faculdade. O sentimento de solidão e tristeza, refletidos em seus poemas, era de fato a saudade da família, que ficara no Rio de Janeiro.

Morte

Em 1852, Álvares de Azevedo adoece e abandona a faculdade, um ano antes de completar o curso de Direito. Vitimado por uma tuberculose e sofrendo com um tumor, Álvares de Azevedo é operado, mas não resiste.

Álvares de Azevedo faleceu no dia 25 de abril de 1852, com apenas 20 anos de idade.

Lembranças de morrer

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei. que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores.
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Dia de poesia – Gustavo Alejandro Castiñeiras – Diz-me, por favor

Diz-me por favor onde não estás
em qual lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar as tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.

Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.

Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.
(Imagem: banco de imagens Google)

Dias de outubro

… e assim chegou mais um outubro…

Promessa de renascimento, primavera, entre furacões naturais e políticos, afetivos e amorosos… mais um outubro

Quantos outubros já vivemos?  Quantos ainda teremos?

Ideia recorrente da partida iminente…

Mês de tantos aniversários… dos que estão aqui e dos que já partiram…

Por que nos lembramos – e muitas vezes até mesmo celebramos – o aniversário de quem já partiu? Que sentido há nesse ato?

Homenagem?

Saudade?

Aqueles que amamos e já morreram, chamados pelo Pai? Devemos celebrar sua data natalícia aqui na Terra? Se deixaram a vida terrena e, seja lá por qual motivo, nos deixaram?

E, pior ainda, aqueles que morreram dentro de nós, mas continuam vivos nesse plano?

Como celebrar o aniversário daqueles que morreram – ou matamos – dentro de nós, aqueles que nos deixaram voluntaria e cruelmente?

Na verdade, por que comemorar aniversários? Que sentido há nisso? Sorrir e festejar por estar oficialmente envelhecendo, a cada dia mais perto da morte?

Muitas vezes longe das pessoas amadas, dos familiares, cercados apenas por interesseiros e desavergonhados?

Mesmo que estejamos em família, que sentido em celebrar algo que aconteceu há tantas década?

Venha, outubro, com suas chuvas, furacões, tempestades tropicais e mudanças.

Com seus aniversários, dos mortos, dos vivos e dos mortos-vivos.

Com suas flores de outubro, com seus feriados e comemorações.

E passe logo.

Que novos tempos virão…

(Imagem: banco de imagens Google)

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de CasdiaMAlves

Quando passares pela vida de uma pessoa,

saiba que foi um suave toque, não interessa à distância que os separem…

deixamos nela, uma marca como se configurasse uma impressão digital…

é uma identidade individual…

portanto, não magoe, nem sejas cruel a ponto de deixar cicatrizes…

por mais longo que sejam seus dias de vida, procure ser feliz e transponha à outrem, a felicidade…

é muito importante e gratificante saber que uma outra pessoa é feliz porque você doou uma parte,

em algum momento, quando, pela vida dela passou!

(Imagem: banco de imagens Google)

Cozinhando com paixão (Memória – 29.09.2020)

Queria hoje fazer um prato especial. Pediram um macarrão. Resolveu fazer o melhor macarrão de sua vida. Que trouxesse ao paladar as mais secretas memórias de cada um dos convidados e familiares que estariam presentes na grande mesa. Os jantares se tornavam a cada dia mais raros. Ninguém tinha tempo para ninguém, embora sobrasse tempo para internets e lives.      

Gostava da vida, de viver, de se sentir viva. E, mesmo com o rótulo “live”, via as relações virtuais e os encontros digitais como prenúncio da morte.    

Por isso, periodicamente, reunia por volta de uma dúzia de pessoas ao redor da grande mesa, artisticamente composta, para conversarem de verdade. De perto. Como gente e não como máquinas.

Os celulares ficavam, devidamente desligados, no grande vaso de cristal sobre o aparador.      

Voltou à cozinha, para terminar o prato-surpresa. Que prazer cozinhar para as pessoas que se ama e repartir uma refeição! Como é gostoso preparar um prato que todos gostam e, ao mesmo tempo tão simples, como um belo macarrão, precedido de entradinhas saborosas e acompanhados de um vinho italiano especial.    

Pensou que a preparação de um prato é mais ou menos como viver. Uma comida bem feita equivale a uma vida bem vivida.    

Qual o ingrediente mais importante da vida? Nas palavras de seu falecido avô (que saudade sem fim!), é a alegria. Quanto mais alegria, melhor.    

Entornou o azeite generosamente na panela e deixou o líquido tomar conta de todo o fundo. Azeite era alegria, trazia consigo os mistérios das oliveiras eternas.    

Também na vida são importante amigos e bons colegas. Juntou alho e cebola e deixou que se fritassem lentamente, tirando de cada um o que de melhor tinham a juntar naquela vida que se formava.     

Inevitáveis algumas tristezas, que devem ser sentidas na dose certa para não estragar o viver, juntou o sal e, pelos aborrecimentos, a pimenta seca que realça o sabor e a pimenta fresca que desperta o paladar.    

Para colorir a vida e lhe dar beleza, acrescentou os tomates e muitas ervas frescas, dos vasos que cultivava com tanto carinho. A vida tomava corpo, cor e o perfume do encanto.

Mas isso não basta. Para a vida ficar melhor ainda, há de ter uma resistência, um fundo forte para lhe dar sustentação.

Buscou então a caixinha mágica e foi acrescentando as ervas secas, em porções diferentes, algumas em pitadas, outras em punhados, – orégano, louro, colorau, tomilho, alecrim, estragão e sálvia.     

Curiosa, provou o sabor. Quase extraordinário.     

Divertida, pensou nas batalhas travadas pelas especiarias, e concluiu que valeram a pena. Embora não entendesse como as pessoas hoje podiam comprar comidas de micro-ondas e temperos em cubinhos, sem dosar nada, sem saber como se faz, sem ter o prazer do antes, do fazer, do ver surgir.     

Deixou ferver. Como a vida fervilhava em torno de todos nós, com dias cada vez mais curtos, amores comprados, todos apressadamente correndo sem usufruir daquilo que conquistavam.     

Olhou para o relógio.       

Precisava terminar esse molho. O cheiro estava maravilhoso e inspirador. Como a vida que desejamos. Mas o sabor estava incompleto. Faltava algo que expressasse o prazer, o ponto acima do simples viver no modo automático.      

Pensou na paixão. Que deve ser presente, ardente, constante.     

O grande segredo da vida é a paixão. A mistura do amor com a atração.     

Então rapidamente despejou a massa que acabava de cozinhar no molho e inundou tudo com a manteiga e o queijo, provocando a reação química mais encantadora que a vida nos pode proporcionar.

(Imagem: acervo pessoal da autora)