Texto de Luciana Melo

Tem gente que tem magia, que embeleza a raiva, que transforma lágrimas em riso, que aperta sua mão, que não esquece um aniversário, que tem arte nos olhos, também nos lábios.

Sim, tem gente que tem música, que tem um mundo pra mudar, que surpreende, que te faz dançar.

Tem gente que te faz sentir amado, com uma mensagem, com um sinto sua falta, com um sussurro, com um beijo.

Tem gente que rouba de você, suspiros e versos, que quebra seus medos, que beija suas feridas, que usa músicas para dar bom dia.

Há pessoas que estão quebradas, quebradas por dentro, mas olham para você e fazem você sorrir, sem que você perceba.

Há pessoas que dão presentes, dão momentos, dão fotos que só existem em suas memórias, dão desejo, motivos e incentivo.

Há pessoas que procuram coincidências para fazê-las parecer exatamente isso.

Há pessoas que cuidam de você, com um simples como você está, que te mandam flores, que te fazem se perder, te procurar e se encontrar no silêncio.

Existem pessoas que pensam em você, que te amam lindamente e que te acordam para que você possa sonhar novamente.

Essas pessoas… que nunca encontram uma maneira de dizer obrigado por tudo isso… pessoas para quem você sempre quer voltar.

(Imagem: banco de imagens Google)

Recordações ao som de Le lac de Come

Acordes que trazem mais do que um passado – trazem, de volta à memória, toda uma vida.

Na sala da casa havia um piano. Alguém dedilhava Le lac de Come.

A algazarra cotidiana se acalmava, a música hipnotizava.

As crianças – mesmo na calçada – baixavam o tom das vozes; o barulho da cozinha cessava.

E, imersos na melodia encantada, sonhávamos.

De repente, uma porta batia. Era dentro de cada um, as portas que se fechavam e muitas delas se fechariam para sempre.

A porta da infância, a porta da família reunida, a porta da paixão ardente, a porta da ambição e a porta do próprio futuro.

Não estou mais naquela sala…

Essa porta também se fechou, mas, através dela e da memória imortalizada, ainda posso ouvir o som do piano.

Tempestade (Memória, um ano)

Não vi como essa tempestade começou. Nunca consigo ver de onde vêm os temporais. Estava distraída, cochilando, talvez dormindo. Só sei que aquela brisa, aquele ventinho gostoso que diminuiu o calor, subitamente transformou-se em violento vendaval. E o céu se abriu, e a chuva caiu com força, muita força.

Portas e janelas precisam ser fechadas, não há a menor condição de se sair de casa. Tudo voa lá fora com a força do vento. Árvores caem.

Não tenho como abrandar o vento. Não tenho como amainar a chuva. Então trato de acalmar minhas emoções, esperar a tempestade acabar e seguir a vida.

Em algum momento a tempestade se cansará de causar tantos estragos e se irá. Para onde? Não sei. Provavelmente para algum lugar onde havia ordem e beleza, para o qual levará o caos e a destruição. É sua sina, é sua missão. Para isso surgem as tempestades.

Ouço o rugido do vento – poderoso, destruidor. Escuto o barulho da chuva – não a chuva mansa que lava o ar, mas a borrasca. Penso na minha vida. Quantas tormentas, vendavais, aguaceiros, raios e trovões já enfrentei…

E, em todas as ocasiões, impotente em minha humana fragilidade, apenas abaixei a cabeça para esperar que tudo passasse, na firme certeza da bonança que viria.

Isso que mantém o fio da vida preso a nós: mesmo nas piores tempestades, a fé na calmaria que há de vir.

Em dias de tempestade não há sol. Em noites de tempestades não há lua. Em vidas atormentadas não há amor nem paixão…

E agora, quando a tempestade começa a enfraquecer, eu me preparo para voltar à vida. Ainda que meu jardim esteja destruído, as pétalas das flores arrancadas formarão um lindo tapete que me apontará para onde deverei seguir.

(Imagem: foto de Maria Alice)

Para poucos

Aparece um arco-íris. Lá longe.
Desenhando a curva do céu.

Dança a autora boreal. Lá longe.
Alegrando outro céu.
Cai uma estrela. Lá longe.
Do outro lado do céu.
A lua surge, dourada. Lá longe.
Bem no alto do céu.
A noite encobre os amantes. Lá longe.
Onde eles têm seu próprio céu.
Há um céu. Para poucos.
Para todos, só o inferno.

(Imagem: banco de imagens Google)