No escuro. Sempre.

A vida acontece lá fora. 
Não aqui entre essas paredes.
Sou prisioneira de um pesadelo sem fim.
Talvez haja luzes e cantos.
Mas não os posso escutar.
Talvez haja calor e aconchego.
Mas não os posso sentir.
Talvez haja pessoas brindando à alegria.
Mas não posso participar.
Continuarei aqui.
No escuro. Frio. Silêncio. E tristeza.
Totalmente sem futuro.
Presa a um longo passado.
Onde havia luzes, calor e alegria.
Não estou viva.
Apenas continuo aqui...

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Eterna espera (Memória)

E eu esperei.

Com a paciência de um pescador,

 Sentei-me à beira-mar e esperei.

Por todos os séculos que você não voltou.

Assim eu esperei

Com a alegria de uma criança

Em meio a tantos brinquedos

Por todos os anos que você não voltou.

Então eu esperei

Com a confiança de uma mãe,

De madrugada no canto da sala,

Por todas as noites que você não voltou.

E eu ainda espero

Com a perseverança de uma mulher

Que apaixonada acredita em amar

Eu para sempre esperarei

Por todas as noites, anos e séculos,

Esperarei eternamente pela sua volta

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Cecília Meireles – De longe te hei-de amar

De longe te hei-de amar
– da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

(Imagem: banco de imagens Google)

Triste Dia dos Pais

“Terceiro ano seguido que, órfã, nada tenho a comemorar no dia dos pais. Esse ano, com a partida do meu padrinho, mais órfã do que nunca. Republico, aqui, a mensagem de 2020, neste – agora – triste dia – para mim.

“Pai, há dezessete meses o senhor nos deixou. No dia mais triste de toda a minha vida. Porque eu não estava preparada para me tornar órfã. Sabíamos que sua ida era iminente, mas ainda o tínhamos aqui. Com seu carinho, sua presença.    

O senhor sempre foi nossa força, nosso incentivador, o centro de nossa família. E, de repente, não está mais aqui.      

Seu lugar vazio na mesa da casa de nossa mãe dói. Muito.

Chegar lá e não ter o senhor para me receber é de uma tristeza indescritível.

Onde está seu sorriso acolhedor? Onde estão seus lindos olhos amorosos? Por que tínhamos de nos separar assim?    

Tantas lembranças, tantas, que não cabem em um só coração.   

Meu lugar na mesa era a sua esquerda. E o senhor sempre teve um jeito todo próprio de manter a mão esquerda sobre a mesa. E eu, muitas vezes, deixava meu talher e pegava na sua mão. O senhor abaixava os olhos, olhava fixamente nossas mãos unidas. Depois olhava para mim e sorria.    

Ah, pai, o que eu não daria para ter novamente seu sorriso.

O senhor sempre sorria: sorria de alegria, sorria de galhofa, quando fazia suas brincadeiras, e seus olhos sorriam junto. Tenho tanta saudade de seu olhar, pai…  

Suas rimas, que podiam até irritar a mamãe, mas divertiam os filhos e netos – especialmente a Carolina – “espera aí, vovô, fala de novo que vou escrever…”… Suas paródias… “… a tal da angélica, moça…” … “…un automobile, naquela esquina…”…    

Sua voz, pai, explicando seu ponto de vista, sempre ponderado, nos dando um norte, sendo um farol para nosso pensamento, ainda ecoa dentro de mim.    

As histórias de sua infância, da onça, dos tiros, as lembranças de meu avô, (primeiro pai que perdi)… Invernadinha, Negro Dionísio, Tio Ary saltando de guarda-chuva, Romeu montando no burro… tantas histórias, tantas risadas. Ninguém nos conta mais histórias, pai. Ninguém mais conhece o Guilherme J. Kuhll…    

Lembra-se da estrada para Morro Agudo? Quantas vezes encravamos para aqueles lados em dias de chuva. Hoje nem se sabe mais o que é encravar. O que é pneu lameiro. O que são correntes… E o senhor nos tirava de todos os embaraços.      

E quando o senhor perdeu a paciência com a tal da Odila ou Otília, não me lembro mais do nome, só da feia cara da funcionária de mau humor, na faculdade Toledo de ensino de Presidente Prudente e me mandou de volta para terminar a faculdade em Ribeirão Preto. Sofri, pai, porque eu não queria morar em pensão, não queria morar em outra cidade. Mas fui. E assim que peguei meu canudo vazio das mãos do Dr. Pessini, voltei para casa.

Estou aqui, pai, nesse final de dia, vendo o mar que o senhor tanto amava e nos ensinou a amar também, e tomando meu whisky “regulamentar” como o senhor dizia. E me lembrando de quantos whiskies tomamos juntos – foi o senhor quem me ensinou a gostar do single escocês. E tantas outras coisas na vida que o senhor me ensinou. Só se esqueceu de me ensinar como continuar sozinha, sem sua valiosa opinião, seu apoio incondicional e seu amor de pai.    

Não vou comemorar, pelo segundo ano seguido, o dia dos pais. Porque nada tenho a comemorar – só a saudade que tenho do senhor, só a falta que eu sinto de um abraço de pai, que nunca mais terei.     

Sei que não serei merecedora de ir a seu encontro na eternidade, mas queria muito, pai, pelo menos uma vez, de relance que seja, vê-lo e abraçá-lo. Mesmo que fosse por uma única vez.       

Saudade, meu pai. Muita saudade, e tristeza nesse dia dos pais, e meu eterno amor de filha.”

(obs. – na foto acima, meu pai, Carlos, com a bisneta Helena, do acervo pessoal da autora)

Lembranças – e saudade – do meu pai

Meu pai partiu. Deixou-me órfã. E isso dói. Sempre e muito.

Era um homem feliz e realizado. Bom. Justo. Passou aos filhos valores morais inegociáveis. E deixou, também, deixou um legado de amor e dedicação à família como poucos homens podem deixar.

Sua alegria era ter a casa em festa, com filhos, netos e bisnetos.

Não importava onde eu estivesse residindo – nos dois dias sagrados do ano – 15 de janeiro (seu aniversário) e dia dos pais, eu vencia qualquer distância, atravessava qualquer rincão, mas ia me encontrar com ele.

Não esperei “as coisas se acalmarem”, nem “dar um jeito nos negócios” para me dedicar a meu pai. Dediquei-me enquanto ele era vivo, e podia me receber com um abraço e um sorriso.

Sinto muito a falta dele. E essa dor é para sempre.

Hoje, véspera de mais um dia dos pais, agora órfã, presto-lhe uma homenagem, com sua música preferida:

Poesia da casa – A morada do poeta

Poeta, onde é sua morada? 
Quero encontrá-lo, ver onde vive, do que é feito seu mundo. 
O poeta me recebe, mas não é bem uma casa onde ele mora.
Sua morada é o mundo, seu telhado é o céu
De dia ele avista as nuvens, à noite dialoga com as estrelas
Também não tem paredes, porque o poeta é livre
Seus limites são os limites do Universo
Não precisa portas nem janelas, não há cercas nem muros
O chão do poeta é o imenso oceano
Pisa nas espumas das ondas, repousa nas marolas
Os vizinhos do poeta são as matas, os rios,
A natureza tranquila e exuberante
Na casa do poeta se ouvem o mar, o vento e o silêncio
E os suspiros da paixão não correspondida
Se vêem os quadros das lágrimas dos que choram por amor
Pode-se tocar o concreto sofrimento dos abandonados
Tudo é etéreo, tudo é difuso
Porque o poeta medita, em profunda solidão, 
vive dentro de si para conseguir ver o mundo
Procurando a morada do poeta, não a vi
Ela não está sobre a terra, não está no horizonte
Descobri então que o poeta, na verdade
Mora na alma dos apaixonados
Vive a eterna dor da finitude da paixão
Em contraste com o amor infinito 
Sua alma abriga todas as penas humanas
E seus olhos enxergam o que ninguém vê
O poeta mora na brisa que sopra
No brilho de cada estrela da madrugada
Nos pingos da chuva mansa que nos acalma
Nos sons do pranto do desesperançado
Ah, poeta, agora que consegui vir à sua casa
Deixa-me, eu também, morar nesse universo...

(Imagem: banco de imagens Google)