Quarentena ou oitentena?

E assim, ainda isolada e mascarada, completei a oitentena. Já cumpri duas quarentenas. Quando serei libertada????    

Chego no banco – chaves, metais e celular na caixinha. Passo por porta circular detectora de metais, com a finalidade de ser impedida de entrar armada. E entro mascarada.    

Pergunto ao vigia, também ele mascarado, meu velho e afável conhecido, que sempre me cumprimenta alegremente: “há três meses atrás, se eu chegasse aqui mascarada, o senhor me deixaria entrar?” Em meio a uma gargalhada ele responde: “nunca, doutora!”    

Pois é, vejam a situação que essa pandemia nos colocou: todos os passageiros dos veículos, todos os fregueses na fila do pão, todos os consumidores nos corredores dos supermercados, mascarados. A máscara, usada como caricatura de assaltantes, agora nos foi imposta. Vou comprar uma espingarda de carregar pelo cano e sair por aí, armada e mascarada, como nos tempos do velho oeste.    

Passo pela quitanda. Minha vez , na família, de fazer as compras. Pego meus “hortifrutis”, as encomendas da minha mãe, dirijo-me ao caixa para pagar, e começo a depositar as mercadorias que tiro do carrinho sobre a esteira rolante. Devidamente mascarada e banhada no obrigatório álcool gel (vai saber o que tem dentro desses vasilhames nas portas de todos os lugares).    

Uma senhora, bem senhora, unhas feitas, cabelos cuidadosamente tingidos (estranhamente, depois de mais de 60 dias de salões de beleza fechados), muito bem vestida (tipo riquinha ostentadora), que está pagando a conta do outro lado, já na saída, começa a falar alto, meio gritado. Depois de alguns segundos, percebo que a perua está se dirigindo a mim. Pergunto: “é comigo” e ela, nervosíssima por trás da máscara, grita: “já mandei parar com isso. Pare. Pare já com isso”. Sem entender, pergunto: “com o que?” e ela: “pare de colocar as coisas no balcão. Saia daí e vá para trás, fique longe de mim!” (detalhe, eu estava mais ou menos a 1,20m da cidadã). Comecei a rir (por trás da máscara) e disse “Minha senhora, tudo isso é medo do covid?” Fica tranquila. Fiz o teste há três dias e deu negativo, não tenho coronavírus”.

Claro que ela não acreditou, mas ficou desarmada, porque respondi alto e todos ouviram. E tenho de relatar: era uma madame clássica, dessas que não faz pacote nem carrega sacola, então, a menos de 30 cm de sua excelsa pessoa, uma funcionária do estabelecimento recolhia a mercadoria e embalava para colocar no carrinho da fulana. Que, terminado o pagamento e o espetáculo, fez sinal para uma humilde mocinha uniformizada, mascarada e encostada na parede, que veio, deu o braço para a patroa e foi empurrando o carrinho de compras, porque madame que é madame sequer empurra carrinho lojas.    

E não foi só comigo.  

Padaria. Final da tarde. Fila do pão. Mocinha – mascarada – se distrai olhando o balcão de doces e dá uns passos inocentes. Um senhor – o masculino da minha madame – fica enfurecido e brada para a garota recuar e ficar a um metro dele, mostrando os riscos no chão, destinados a manter cada qual no seu quadrado.  Constrangida, a menina se desculpa e volta para seu risquinho. Na saída, a garota já pagando, chega o guardião dos espaços, e vai por cima dela tentando pagar para sair logo. Não percebeu que para pagar também há fila e marcas no chão… só vale para os outros…    

E assim vamos vendo, como em um imenso laboratório de ratinhos humanos, o que o isolamento está provocando no comportamento das pessoas. Prato cheio para a psiquiatria.     Não sei se sempre foi assim, ou, se por estarmos todos usando máscaras, só os olhos visíveis, prestamos mais atenção ao olhar dos outros. E tenho visto olhares de ódio, de raiva, de pressa, de rancor… quase não vejo olhos doces ou sorridentes.     A pandemia tirou o que há de pior e de mais egoísta de dentro de todos.      

Alguns ingênuos pensam que a humanidade vai melhorar depois dessa doença. E eu me pergunto – “melhorar em que, cara pálida?”. O mundo vai piorar e muito. Desemprego, pobreza, falências, epidemias de outras doenças que foram descuidadas em razão da peste chinesa… para quem usa drogas e vê borboletas cor-de-rosa no teto, tudo está sempre bem, toda maneira de amar vale a pena, somos todos irmãos… mas para os que enfrentam a dura realidade, e, além da doença, estão vendo os empregos se evaporarem, as firmas fecharem, a miséria e a fome batendo à porta, esses não verão nenhuma melhora em razão do isolamento.    

Infelizmente nem todas as pessoas que vivem nesse mundo vivem no mesmo mundo. Porque para uns esses mais de oitenta dias têm sido agradáveis férias estendidas e inesperadas. Para outros, não passa de desespero e insegurança quanto ao futuro.    

A quarentena virou oitentena, dá mostras que passará da centena, e nós, como boiada confinada, aqui continuaremos, a maioria achando que o governo se preocupa com a saúde do povo e por isso o mantém enjaulado. “É para seu bem”, diz o carrasco ao colocar o capuz no condenado à morte. “É para seu bem” diziam os guardas aos judeus quando os levavam. “É para seu bem!” diz a esquerda quando substitui salário por esmola. E o povo aplaude e obedece.    

O pior é aguentar quando aí vêm os pollyanas com sua filosofia – “Estamos todos no mesmo barco”. Ah, tá bom… hipocrisia descarada. Porque estamos todos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco.

No mundo da lua

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

(Ismália, Alphonsus de Guimaraens)

Ah, os mistérios da lua…      

Sempre fascinante, reinando absoluta no céu das noites. Inspirando poetas e cantadores. Não perde seu brilho nem seu encanto.     

Por vezes, apressada e saudosa do sol, ela chega bem cedo, ainda dia, no céu azul.     

E, pálida de ansiedade, ali fica, até escurecer, quando então se veste de dourados tons e, soberana, mostra sua beleza ao mundo.     

Mas a lua, mulher sábia e experiente, não se mostra por inteira. Ela se revela aos poucos, surge mansa, depois brilha intensamente, e se esvai sem ninguém perceber quando se retira, mas todos sentem quando já se foi.     

E, feminina e dengosa, tem suas fases.     

Às vezes, vaidosa e querendo provocar, não aparece por inteiro. Ora se mostra um pedaço, ora outro. Faceira, por vezes desaparece e nos deixa nas noites escuras, a sonhar com sua volta. E, depois, esplêndida, vem brilhar por inteiro, como desafiando todo o sistema solar se existe ser mais belo do que ela.     

Quantos encantos tem a lua. Quantos feitiços nos inspira…       

Ela se reflete nos lagos e nos mares, fazendo nascer uma luz nas profundezas escuras das águas.     

Torna prateados os campos.     

Seu séquito de estrelas cintilantes só faz destacar sua beleza.     

E hoje, ah, hoje ela simplesmente deslumbrante… é a verdadeira lua de Ismália…

(foto Denise Alvim, 07.06.2020, Presidente Prudente,SP)

O que eu quero

A paz do Pai pela fé no Filho - Universal.org - Portal Oficial da ...

Quero a beleza do amanhecer na floresta, com o ruído das folhas ao vento

Misturados à algazarra animada dos pássaros e às cores do dia que surge.

Não posso ficar indiferente a tanta beleza, a tanta alegria da natureza

Que nesse altar se revigora todas as manhãs, e renova a vida, o céu e a terra.

Mas também quero o silêncio do longo anoitecer no lago da montanha

Com suas cores exóticas, brisa amiga, longos pios do longe dentre as árvores

E a água se vestindo de ouro, de azul, de prata, de cinzas vários até enegrecer

E cair a noite, cálida e amiga, despertando os corações para novas paixões.

E não quero viver longe da cidade grande, com seu caos organizado, sua vida

Pulsante que nos provoca sempre – sobreviver é a proposta, viver é o desafio

Onde tudo é difícil, mas maravilhoso, tudo longe, mas compensador e vibrante

E ali, na madrugada que se esvai, então dormir com a certeza de um novo dia.

Mas preciso do mar, meu amado mar, de tantas vestes diferentes e humor variado

Nas horas sem fim, que passo a mirar as águas, as ondas vadias que me chamam

Ouvir seu canto infinito, sua eterna canção de me ninar nas noites insones

Apenas estar. Sentir. Não pensar, não sofrer, voltar às origens da vida sem dor.

Tudo isso eu quero, ver a vida de tantas e diferentes janelas, nunca ficar parada

Ter a certeza de que em algum lugar alguém me espera com ansiedade, sabendo que irei

Porque nunca estou, sou vento, sou chuva, apenas passo e não me detenho.

Voltarei pelo seu amor: não posso parar, sou ave de arribação. Espera por mim!

Onde há heróis?

Na vida não existem heróis. Quando muito, alguns atos de coragem. Não apenas coragem de subir num penhasco, de mergulhar no mar, de segurar um cão que ataca uma pessoa. Nem sempre a coragem demanda uma demonstração física. Também há atos de heroísmo de coragem intelectual, de atitude, de postura, de firmeza de caráter. Que se traduzem em se manifestar onde todos se calam. De defender o que acredita ser o certo e o melhor quando todos estão na contramão.

A História nos mostra que pensar fora da manada fez mártires. Pela Cruz e pela espada. Fuzilados. Queimados. Guilhotinados. Assassinados. Esfaqueados. Estranhamente acidentados.

Mas, mesmo mortos, esses heróis sem capa nem espada transformaram o mundo. Pela palavra. Simplesmente tiveram a coragem de expressar seu pensamento divergente daquele dominante. Sem medo de enfrentar quem se considerava poderoso e inatingível.

Muitas vezes a palavra que cala é a mais perigosa. Porque quando o outro não tem contra-argumento para sua afirmação, a tendência é vencer pela força. Que é o argumento do ignorante.

Então se sua palavra cala aquela do seu adversário, prepare-se para o ataque. Desde sempre jornalistas são mortos por serem firmes em suas posições. Às vezes dentro da nossa própria família, como foi o caso do meu bisavô, jornalista João de Moura.

Políticos honestos são eliminados fisicamente diante da impossibilidade de serem vencidos pelo voto popular. Professores que não recuam de sua firme vocação para formar mentes são atacados covardemente.

E, agora, em tempos de internet, onde impera a ignorância travestida de verdades, pelos doutores em nada, especialistas em tudo, está ainda mais difícil. Difícil separar a verdade das notícias falsas. Difícil separar o que é científico, comprovado, das alegações tendenciosas e distorcidas, para servirem a grupos mal-intencionados.

Os opositores são rotulados, ridiculizados, desrespeitados dentro de um ambiente anárquico e inculto.

Da mesma forma, é exatamente esse mesmo caldo boçal, descontrolado, que possibilita a aparição de “heróis”. Basta uma pessoa falar o que a maioria quer ouvir e logo será incensado e blindado. Mesmo que seja um idiota completo e acabado. A que leva a falta de cultura, de escolas organizadas e de educação concreta…

De outra parte, entretanto, vemos surgirem vozes que desafiam toda essa situação. Que dizem as verdades doídas e que muitos preferiam ver escondidas sob o tapete da infâmia, da corrupção, da falta de compromisso com a sociedade.

Essa coragem – de dizer e defender a verdade, o certo – pode ser causa de destruição ainda hoje, em pleno século XXI. Porque a humanidade não evoluiu nada em termos de respeito aos semelhantes.

Entretanto, de nada vale um herói morto. Será chorado pela família e logo esquecido por todos.

Talvez por isso tantos se calam e não têm coragem de expor seus pensamentos, acabando, de certo modo, dominado pelo pensamento comum, torto e muitas vezes criminoso.

O homem moderno tem toda a proteção – contra as intempéries, contra os animais selvagens, contra a violência física etc.

Então precisa de heróis da palavra. Que têm a coragem de falar.

Pena que, a cada dia, menos pessoas se dispõem a assumir esse papel. E também se calam.

Nenhuma semelhança é mera coincidência…

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Isso levou à suspensão das manufaturas para exportação na maioria das regiões da Inglaterra, com exceção dos portos externos; e até nestes, logo foram suspensas, já que todos, por sua vez, tinham a peste. Embora isso fosse sentido em toda a Inglaterra, a paralisação dos negócios da city foi muito pior, com o fim repentino de todo intercâmbio de mercadoria para consumo interno, principalmente daquelas que costumeiramente circulavam através das mãos dos londrinos.   

Todo trabalho manual, na city etc. os artesãos e os mecânicos, como disse antes, ficaram sem trabalho e isso provocou a dispensa e demissão de um número incontável de diaristas e operários de todos tipos, visto que nada se fazia com seus ofícios, a não ser o que se poderia chamar de absolutamente necessário.  

Isso gerou uma multidão de solitários sem recursos em Londres, além de famílias cuja subsistência também dependia do trabalho dos chefes de família. Digo que assim foram reduzidos à extrema miséria e, devo reconhecer para a honra da cidade de Londres, o que será por muitas eras, enquanto isso for algo a ser comentado: a população foi capaz de, por caridade, oferecer provisões para as necessidades de muitos milhares que mais tarde ficaram doentes ou estavam desesperados; assim, pode-se afirmar com segurança que ninguém morreu de fome, pelo menos ninguém que tenha chegado ao conhecimento das autoridades.   

Esta estagnação do nosso comércio manufatureiro no interior colocaria o povo em dificuldades muito maiores, mas se os mestres de ofícios, os tecelões e outros continuassem fazendo suas mercadorias até o esgotamento de seus estoques e forças, acreditando que a epidemia diminuiria logo, em seguida eles teriam uma demanda rápida, proporcional à queda de seus negócios naquele período. Como porém nenhum – a não ser os patrões ricos – podia fazer isso porque muitos eram pobres e incapazes, o comércio de manufaturas da Inglaterra sofreu enormemente e os pobres foram espoliados em toda a Inglaterra pela calamidade só da city de Londres.

…………….

(Um diário do Ano da Peste, Daniel Defoe)

Universo

Um grão de areia. Tudo pode se resumir a um grão de areia.

Um único e pequenino grão de areia viaja por todos os cantos do cosmos. Vejo-o, agora, ao pousar sobre minha mesa. Brilha como o cristal. É duro como a rocha. Mais leve do que uma pluma. Levado pelo vento, logo poderá não estar mais aqui.

Com todo o cuidado e respeito, eu o pego e guardo no fundo da minha mão. Acaricio com delicadeza aquele pequeno viajante. E lhe pergunto: “- de onde vens? Das praias do sul, dos desertos da África? De onde o vento te traz até mim? A qual Universo pertences?”

Ele demora a responder. Está cansado demais para falar. Percebo que vem de muito longe.

Já estava aqui antes do começo e estará depois do fim.

Esse grão de areia já esteve em todos os lugares, mesmo os desconhecidos. Do fundo do mar à poeira das estrelas.

Escondido em uma ostra, deu origem a tão rara pérola, que foi usada para encimar diadema de uma rainha e depois o cetro de um rei, simbolizando o poder absoluto sobre os demais homens. Liberado, foi conhecer os outros mares, e os desertos. Na bagagem dos nômades atravessou mundos. Viu a miséria e a riqueza. Viu o sol nascer na África e também se por no Pacífico.

Navegou nos veleiros, voou nos aviões e foi lançado em foguetes.

As eras se sucediam incessantemente e o pequeno grão viajava o mundo.

Esteve na cabana dos lavradores, nas carroças e nas bagagens em que foi para as vilas e cidades. Entrou nos palácios e nos templos.

Nunca o grão de areia conseguiu parar em um só lugar. A mínima brisa, o vento e os furacões o levavam de um lado para o outro, indefeso e frágil em sua dureza e unidade.

Sabe tudo sobre o amor e sua diferença da paixão. Foi usado por tristes amantes como desculpa para as lágrimas que escorriam pelas faces.

Esteve no berço dos recém-nascidos e conheceu o túmulo dos falecidos.

Vedou olhos de cruéis guerreiros e decidiu batalhas.

Fundiu-se à poeira dos anéis de saturno. Repousou nas crateras lunares.

Sabe as distâncias que separam as pessoas próximas e as milhas e anos luz que separam as nações e os planetas.

Esquentou-se ao calor do sol e gelou na neve das montanhas – o sol não o queima e o frio não o pode congelar. Sua matéria é mais que o calor e o gelo.

Conheceu a música e a poesia dos artistas. Participou das provas em Atenas e das lutas em Roma.

Esteve em todas as guerras e se molhou em todos os sangues.

Mergulhou em todos os rios e mares. Voou por sobre todas as terras.

Nada, nada há que não tenha visto ou conhecido.

Esse tão pequeno grão de areia conhece a alma humana, seus sonhos mais secretos. Entrou na casa de todos os homens. Participou de todos os rituais e presenciou todas as alegrias.

Como um pequeno nada, ignorado por tantos, ele viajou por todos os mundos conhecidos e presumidos.

Ele se assemelha a um pequeno caco de cristal no fundo da palma de minha mão. Parece sorrir para mim.

Então ele fala: “- o que é o Universo? Um todo, um nada, uma soma de muitos? O Universo está em você, porque você é seu próprio Universo, e cada célula sua é um Universo próprio. Cada ser, cada pedra, cada molécula de ar é seu próprio Universo. O que vale para um, vale para todos. O que perturba o individual, transtorna o conjunto. Tudo isso junto forma o grande Universo, que não é nada mais que todos os universos harmonicamente agrupados. Quando há desarmonia, o Universo se abala e se parte. Se se rompe, deixa de ser Universo. Porque a essência do universo é ser uno e indivisível.”

E termina: “- se você me entender, terá decifrado todos os enigmas do mundo. Porque terá de me entender inteiro. Não pode ir me conhecendo aos poucos, não posso ser partido em pedaços. Eu sou um Universo!”