Onde há heróis?

Na vida não existem heróis. Quando muito, alguns atos de coragem. Não apenas coragem de subir num penhasco, de mergulhar no mar, de segurar um cão que ataca uma pessoa. Nem sempre a coragem demanda uma demonstração física. Também há atos de heroísmo de coragem intelectual, de atitude, de postura, de firmeza de caráter. Que se traduzem em se manifestar onde todos se calam. De defender o que acredita ser o certo e o melhor quando todos estão na contramão.

A História nos mostra que pensar fora da manada fez mártires. Pela Cruz e pela espada. Fuzilados. Queimados. Guilhotinados. Assassinados. Esfaqueados. Estranhamente acidentados.

Mas, mesmo mortos, esses heróis sem capa nem espada transformaram o mundo. Pela palavra. Simplesmente tiveram a coragem de expressar seu pensamento divergente daquele dominante. Sem medo de enfrentar quem se considerava poderoso e inatingível.

Muitas vezes a palavra que cala é a mais perigosa. Porque quando o outro não tem contra-argumento para sua afirmação, a tendência é vencer pela força. Que é o argumento do ignorante.

Então se sua palavra cala aquela do seu adversário, prepare-se para o ataque. Desde sempre jornalistas são mortos por serem firmes em suas posições. Às vezes dentro da nossa própria família, como foi o caso do meu bisavô, jornalista João de Moura.

Políticos honestos são eliminados fisicamente diante da impossibilidade de serem vencidos pelo voto popular. Professores que não recuam de sua firme vocação para formar mentes são atacados covardemente.

E, agora, em tempos de internet, onde impera a ignorância travestida de verdades, pelos doutores em nada, especialistas em tudo, está ainda mais difícil. Difícil separar a verdade das notícias falsas. Difícil separar o que é científico, comprovado, das alegações tendenciosas e distorcidas, para servirem a grupos mal-intencionados.

Os opositores são rotulados, ridiculizados, desrespeitados dentro de um ambiente anárquico e inculto.

Da mesma forma, é exatamente esse mesmo caldo boçal, descontrolado, que possibilita a aparição de “heróis”. Basta uma pessoa falar o que a maioria quer ouvir e logo será incensado e blindado. Mesmo que seja um idiota completo e acabado. A que leva a falta de cultura, de escolas organizadas e de educação concreta…

De outra parte, entretanto, vemos surgirem vozes que desafiam toda essa situação. Que dizem as verdades doídas e que muitos preferiam ver escondidas sob o tapete da infâmia, da corrupção, da falta de compromisso com a sociedade.

Essa coragem – de dizer e defender a verdade, o certo – pode ser causa de destruição ainda hoje, em pleno século XXI. Porque a humanidade não evoluiu nada em termos de respeito aos semelhantes.

Entretanto, de nada vale um herói morto. Será chorado pela família e logo esquecido por todos.

Talvez por isso tantos se calam e não têm coragem de expor seus pensamentos, acabando, de certo modo, dominado pelo pensamento comum, torto e muitas vezes criminoso.

O homem moderno tem toda a proteção – contra as intempéries, contra os animais selvagens, contra a violência física etc.

Então precisa de heróis da palavra. Que têm a coragem de falar.

Pena que, a cada dia, menos pessoas se dispõem a assumir esse papel. E também se calam.

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