Texto de Lélia Almeida – Para que serve um velho?

Para que serve um velho? Para muitas pessoas um velho não tem serventia nenhuma e tem mais é que morrer. Assim estão as pessoas nestes tempos estranhos.
Passei um carnaval na casa do meu pai, lá fora, na casa que hoje não existe mais. Onde tinha um jardim, um pátio com árvores frutíferas e uma piscina. Meu pai estava aguando as plantas, vestia uma bermuda, um chapéu de cangaceiro que trouxe de uma viagem ao nordeste e vestia botas de plástico. Tiramos selfies fazendo caretas e rindo, porque ele estava muito engraçado. Depois entramos na piscina, ele com a boia preta grande, ele que nunca foi muito da água e depois nos sentamos pra tomar sol. Ele ia pra praia na semana seguinte e disse que precisava tomar um pouco de sol pra não chegar lá e levar um torrão. Naquele verão os caquis-chocolate caiam do pé ainda muito verdes, desabavam um atrás do outro, uma chuva insólita de caquis-chocolate. Esperávamos que caísse uma quantidade suficiente no chão, juntávamos em baldes e jogávamos num terreno baldio. Fizemos isso várias vezes e entre uma ida e vinda deitávamos nas cadeiras de praia e conversávamos.
As conversas com o meu pai sempre foram assim, nos últimos tempos, erráticas, sem pauta, com muitas lembranças e risadas. Tínhamos um jogo de lembrar os nomes das pessoas de outros tempos, do sobrenome e das ruas onde elas moravam. Era uma espécie de jogo da memória, e assim remontávamos árvores genealógicas inteiras de famílias que nem existiam mais, ruas e casas que também não existiam mais, e que não interessavam mais a ninguém. Histórias simples que eram o tecido das nossas vidas. Recriávamos juntos um tempo e uma cidade que só fazia sentido na nossa memória afetiva. Causos engraçados, histórias de grandes mentirosos, de amores traídos, de tragédias, desastres, de como a cidade foi mudando e as pessoas morrendo. Quando ele fez 80 anos ajudei-o a fazer a lista de convidados e ele me dizia, sabe o fulano? Morreu! E nunca vou esquecer da voz dele dizendo que estavam chamando a turma dele.
Numa das conversas entre um caqui e outro perguntei o que ele achava que tinha sido tão revolucionário e transformador na vida dele que pudesse ser comparado a toda esta tecnologia da internet e tudo o que temos hoje. Ele disse que muitas coisas, mas que era o evento da pílula anticoncepcional, e o tanto que isto tinha mudado a vida das pessoas. Lembrou da mãe dele, a Vó Zizi, jovem viúva, carregando cinco meninos sozinha e depois de como tudo isto mudou na vida das mulheres.
As conversas com o meu pai sempre me deram uma perspectiva de tempo e de história, de onde estou, de onde vim. E para onde vou, nesta outra etapa da vida que vejo ele percorrer com bom humor e muita esperteza. E de que os tempos sempre foram difíceis para as pessoas, de que muita coisa que ele via agora na política tinha visto sempre, que nada era muito novo, na verdade. De que a gente tem uma capacidade imensa de aguentar perdas, dores e dificuldades e que siempre que llovió, paró, que vai passar. E que é por isto que a gente também tem que agradecer e apreciar quando a vida é boa.
Fomos ficando velhos e mais lentos os dois, o sol já estava baixando quando resolvemos guardar as cadeiras e começar os preparativos pra janta. Eu estava me recuperando de uma cirurgia no pé, ele tinha 84 anos, firmei bem os pés no chão, segurei nos dois antebraços dele para que ele levantasse num impulso, ele conseguiu e nos abraçamos rindo, Pensei que não ia dar certo, mas deu!
Continuamos onde sempre estivemos. Ele vai na frente, diz que a velhice é uma merda, mas é muito orgulhoso da sua memória, me conta escalações inteiras do time de basquete da época dele. Minha irmã fez um álbum com as fotos dele dos tempos de atleta. Ele adorou o álbum e me disse, quando eu morrer ninguém vai saber quem são estas pessoas, não interessa a mais ninguém. Não havia nem mágoa, nem ressentimento, nem saudade na voz dele. Era uma constatação.
Meu pai vai na frente, eu vou atrás, como sempre fizemos, ele abre a clareira e ilumina o caminho, me diz quando dá pra caminhar mais rápido, quando é preciso parar e respirar e descansar, meu pai leva a lanterna, a força do espírito, vai na frente, vai contando do tempo e da idade, vai contando dos limites do corpo e do que tem que ser deixado pra trás. Meu pai vai na frente, e sabe de coisas que só nós dois conhecemos, desta vida que tecemos juntos e que é a nossa história possível. Eu confio na vida quando o meu pai está perto e não temo a morte quando vejo ele velho, indo para o final.
Nos telefonamos agora, na quarentena, e cada vez que ouço a voz dele tenho que respirar muito fundo pra que ele não perceba que voltei a ser menina e que estou chorando. Depois de acomodar todos os meus medos de não vê-lo outra vez, retomo a respiração e voltamos a ser bobos e falantes. Ele me disse, gordinha, o que a gente está vivendo nunca foi vivido antes, mas vamos viver né, porque vamos ver coisas que nem sabíamos que podiam existir. Ele perguntou como eu estava e eu disse que estava assustada, ele disse que podíamos ficar assustados juntos então.
Meu pai vai na frente, depois de ter pavimentado o caminho da minha infância e de toda a minha vida.
Eu não sei para que serve um velho. Mas ele, o meu pai, serve pra me lembrar que a vida é imensa, que as raízes são fortes, profundas e que o mundo não é pra amadores. Que o narcisismo e a cultura da eterna juventude são uma doença perversa. Que, talvez, um velho não sirva pra nada mesmo. Mas que não estaríamos aqui sem ele e que vamos ser os velhos dos netos dele e que esta é a única graça de tudo.
E que no fundo não sei muito bem se vale a pena um mundo onde as pessoas tenham esse tipo de dúvida, onde as pessoas não sejam capazes de responder para si mesmas para que serve um velho.

Sobreviver

A Árvore da Vida

Não, eu não morri.

Mesmo que tenha desejado morrer quando te perdi

Ainda que tenha perdido a vontade de continuar a viver,

Eu não morri.

No momento em que todas as forças me faltaram

E eu me entreguei à fatalidade do destino

Como a ave que voa, não por necessidade

Mas pelo simples prazer de voar.

Como a árvore que cresce, não por querer ser grande

Mas apenas por ser seu destino crescer

Eu deixei de lutar. Eu deixei de ser eu.

Mas não morri.

A tenacidade da vida é mais forte que a vontade

E faz com que se continue vivo por fora

Mesmo estando, assim como eu, morta por dentro.

Dia de Poesia – Walter Duarte – Mas…

Fosse a vida só de flores,

viesse quem se queria,

não existiriam dores,

… não haveria poesia

 

Sempre fosse o agora,

e eterna a felicidade,

ninguém mais iria embora,

… não haveria saudade.

 

Ânsia? Nada, nem um pouco,

a alma feliz, completa,

sem vazios ou sonhos loucos,

… não haveria poeta

 

Vida sem fim, permanente,

Chama eterna de calor,

Todos seriam sementes,

… não se morria de amor

 

Se eu nadasse em mar de rosas,

sem os espinhos reversos,

eu seria todo prosa,

… não haveria estes versos

Peste e tempestades

Navios enfrentando Tempestade em alto Mar com ONDAS GIGANTES ...

São trinta dias de isolamento, em razão de um vírus desconhecido e de alto contágio que se alastrou pelo mundo conhecido.

Impossível não pensar em Garcia Marquez.

Impossível não buscar Camus, para reler A Peste.

Como também a necessidade de reler Daniel Defoe, em Um diário do ano da peste.

Tempos difíceis, muita miséria no horizonte, insegurança social e pessoal. E não há como escapar. Todos estamos passando por isso.

Famílias separadas, quem foi surpreendido  distante não pode voltar – sem voos, sem viagens de ônibus intermunicipais, interestaduais… Cada um em sua casa – sorte dos que as têm, isolado, segregado, condenado, por vezes, à fome e privações, porque os empregos se foram junto com o confinamento.

E o jeito é aguentar. Com raiva, sem raiva; com conforto, sem conforto; com fome, sem fome…

Por outro lado, nuvens escuras nos trazem sobressaltos no campo da política. Também total insegurança.

Os ladrões da Pátria, acostumados com a mamata das patas no dinheiro público, desesperados por estarem há mais de um ano sem conseguir desviar verbas, conseguiram, com o coronavírus e o beneplácito da suprema corte, um caminho para continuarem suas práticas.

E o clima não é promissor. Não me surpreenderia se, em meio à turbulência trazida pela epidemia, ainda tenhamos de enfrentar uma revolução.

Já não bastam as tormentas da alma, que cada um traz dentro de si, sofrendo calado, muitas vezes em situações insustentáveis, mas que não há como colocar um ponto final, ainda temos ataques na profissão, na saúde, na estabilidade política…

Lembra-me uma frase atribuída a Churchill: “Se você está atravessando um inferno, continue caminhando”. Sim, um dia tudo passa. Mas só quem caminha por um inferno sabe o que é isso.

Estou assistindo a um documentário, na internet, sobre navios surpreendidos por tempestades violentas – Ships in a storm.

Ondas assustadoramente enormes. Mesmo eu, que amo o mar, tenho vocação de viver embarcada, reconheço que o mar pode se tornar um monstro.

E continuo assistindo. Grandes navios, pequenos barcos de pesca, todos continuam em frente.

Exatamente: em frente. Avante.

Mesmo que tenham mudado temporariamente a rota, não param. Nem podem fugir. Encaram o mar. Colocam a proa de frente para a tempestade. Ainda que altas – altíssimas ondas – cubram toda a estrutura. Mas entram de frente, encarando as ondas da tempestade. E continuam. Assim aprenderam com seus mestres e práticos. E assim fazem. E salvam seus barcos e tripulações.

Um pequeno barco, de vela única, tenta sair da tormenta. Mas é leve. E a marola o coloca de lado para a onda forte. Não resiste e emborca. As pessoas são atiradas longe enquanto o pequeno barco vira até a vela afundar. Isso assusta.

Nesse momento tormentoso e assustador que estamos passando, as lições e a experiência de quem nos precedeu devem ser valorizadas e observadas. Quem já atravessou um inferno sabe que é preciso continuar porque há uma porta de saída do outro lado e sabe onde ela fica.

Quem já conduziu um navio em forte tempestade, e não soçobrou, sabe que o único jeito é encarar, não fugir, e seguir. As ondas nos levantam, nos desequilibram, nos jogam para todos os lados, mas sairemos ilesos no final.

Está difícil, muito difícil, porque não sabemos que doença é essa. Se quem já sarou pode adoecer de novo. Se muitos ou todos morrerão. Se simplesmente o vírus tem prazo de validade e vai sumir da mesma forma que apareceu.

Como não sabemos se nosso país vai atravessar mais essa tentativa de derrubar o Presidente da República. Se balançaremos e continuaremos, como um grande navio, ou naufragaremos como um singelo barco a vela. Que não haja nenhum vergalhão a nossa espera.

A única coisa que podemos fazer, neste momento, é seguir em frente e encarar o que vem por aí…

De amar

 

Naquele Segundo.: AMAR TE FAZ MAIS AMAR 09/01/2019

Seus olhos me atraem e meus olhos procuram os seus

Seus carinhos me cativam e despertam todas as sensações

Sua voz me chama docemente e eu vou até você

Sua boca me cala em um beijo intenso, sem fim

Seus braços me enlaçam, me prendem, acorrentam

Seu corpo me possui com tanta paixão e eu correspondo

Sua sede de vida me encanta, por isso amo tanto você.

E me sinto amada, esperada, desejada e querida.

Paixão, encanto, feitiço, desejo, loucura… não sei…

Meu sentimento não tem rótulo, não precisa de nome

Basta-me que exista. Esteja vivo. Tire meu chão e me dê asas

Eu sinto. Sou feliz. E isso é o que importa: simplesmente

Amar e ser amada. Plenamente. Nada mais. Nada menos.

Ruas

Rua do Professor, Ribeirão Preto | Mapio.net

 

Vejo as ruas desertas de pessoas a pé. Lembro-me de minha infância e adolescência. Não tive “mãetorista”. Apenas em alguns casos éramos levados de automóvel nos lugares. Porque, à  escola, às atividades extracurriculares – conservatório musical, aulas de línguas estrangeiras, cursos que resolvíamos fazer – bem como cinema, compras, casas de amigos, festinhas e tudo o mais, era para ir a pé. Sozinha, com irmãos, com amigos, em grupos, apenas pedíamos autorização e avisávamos que estávamos indo. E sempre hora marcada do retorno, vamos deixar bem claro. E isso era liberdade.

Andávamos. Caminhávamos. Passeávamos. Sempre a pé.

Acho que isso desenvolve um outro sentido, não sei se sétimo, oitavo ou nono. A percepção da rua.

Hoje vivemos em outro mundo. Não há mais rua nesse sentido. Apenas artérias de passagem de carros. Há lugares, em praticamente todas as cidades, em que se veem carros e motocicletas nas ruas. E nenhuma pessoa. Simplesmente as calçadas completamente inúteis e vazias.

Aqui no interior, mesmo em tempos anteriores à peste chinesa, a região onde moro é assim. Na avenida principal, no começo da manhã e final da tarde nós nos deparamos com “atletas” – roupinhas típicas, boné e tênis, fazendo exercício. Mas o resto do dia é um deserto de pessoas, uma cidade de veículos motorizados. Sem população.

Não é meu mundo. Gosto de andar a pé.

Nos anos em que morei no Guarujá, nem levei o carro. Deixei-o em uma garagem da casa de meus pais, em Ribeirão Preto.

Andava tanto lá, que, por brincadeira, adquiri e comecei a usar um aparelhinho que media os passos, e, durante os meses em que fiz uma reforma em um imóvel – fazendo todas as compras a pé – eu andava, em média, vinte quilômetros por dia.

Sem contar a infalível caminhada matinal à beira mar – entre seis e dezoito quilômetros/dia. Dependia mais do tempo disponível para caminhar do que disposição física ou cansaço.

Em São Paulo, também onde prefiro não dirigir nem ter carro, meu local de trabalho distava cerca de um quilômetro minha casa. Que foi cirurgicamente escolhida para me proporcionar a liberdade de andar a pé. Na hora de ir, geralmente, pegava um táxi. Mas voltava a pé. Especialmente no horário de verão, entre 18h30 e 19h00. Caminhava do Paraíso ao longo da Paulista até a Pamplona. E descia até a Lorena.

Em volta tenho tudo o que necessito. Faço tudo sem precisar de carro. Por isso, também, amo ficar por lá.

Sempre amei andar a pé em São Paulo. A beleza de São Paulo não é escancarada, para qualquer um chegar e se encantar. Não, São Paulo é de uma beleza peculiar, um encanto que se mostra aos poucos, só para “os iniciados”.

Quando eu trabalhava em um escritório do centro, no milênio passado, amava aquelas ruas antigas (ainda não havia as nojentas pichações como se veem hoje por todo lado). E era República, Barão, Sete de Abril, Patriarca, Santa Ifigênia… que coisa linda era o viaduto Santa Ifigênia, com seu gradil estilo “belle époque”. As fachadas dos prédios no centro, os canteiros, o Teatro…

Agora tudo é um lixo. A porquice do povo, o descaso da prefeitura, a invasão de estrangeiros de baixa categoria… minha cidade se acabou.

Andava em Paris, Roma, Madrid, e outras capitais que até quatro ou cinco anos possuíam seus centros preservados. Tudo lindo. Tudo encantador.

Depois dos atentados no Bataclan, em Paris, e na Promenade des Anglais, a linda “La Prom”,em Nice, e vendo, ainda, esse aumento desenfreado de “refugiados” porcos e violentos, a degradação dessas cidades também desanimou de frequentá-las. Estão feias. Ponto comum entre a maioria, são as prefeituras de esquerda. Onde era um patrimônio cultural da humanidade, hoje é lixo.

E assim o mundo, que era tão grande, foi se encolhendo.

E, há um mês, o meu mundo se resume a uma casa.

Uma casa se tornou o mundo de quem ainda tem sorte de ter uma casa.

E as ruas, a cada dia mais desertas, só nos dão a dimensão da tristeza de ainda estarmos vivos.