Sobre a preguiça…

É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.  (Cora Coralina)

  Cadeira de madeira vazia e mesa no pátio ao ar livre com bela ...                                                                                 Escrevo por inércia. Estou no escritório por inércia. Se tivesse um pouquinho de força e de vontade, estaria no banho para ir dormir logo. Ainda são 20:00 mas estou muito cansada.

E fico acordada por inércia, porque não consigo sequer sair desse escritório ou da sala e ir para o quarto e dormir.

E o pior é que nunca fui – e não sou – preguiçosa, mas de vez em quando fico assim, como se as pilhas estivessem descarregadas… ou, como diria o nordestino, “… me dá uma lésêêêiraa…”, abrindo no lé, arrastando no sêêê…

Vontade de deitar em uma varanda de frente para o mar e poupar até a respiração. Preguiça completa de verdade..

E fico mais desanimada ainda porque hoje já é 28 de abril de 2020… Muitos  dirão “…mais um ano…” e eu direi “MENOS UM ANO”. Principalmente este, que terminou tão logo passou o carnaval. Mal começou e veio uma chuvarada que paralisava tudo. Mal passou a chuva, veio o carnaval. E, tão logo em seguida, a quarentena que já dura mais de quarenta dias. Será cinquentena, sessentena? será que se acabará um dia e poderemos retomar nossas vidas?

O ano de 2019 foi terrível. Não via a hora de lhe dar adeus. E 2020 está bem pior, veio bichado. Tenho medo do que me espera em 2021…

Parece que o tempo parou, pela inação total – sem viagens minha vida é nada. Mas, a bem da verdade, o ano está passando rápido e sem nenhuma vida.

Quando nos damos conta, já estamos em setembro, dezembro e o ano, que já foi novo, acaba.

A cada ano que se acaba eu tenho plena consciência que é um ano a menos que viverei, e sei que minha conta já está invertida – acumulo mais anos vividos do que o número de anos que terei pela frente para viver.

Mas acho que isso não é importante. Porque o que vale é que foram anos bem vividos.

Quem sabe no final, quando chegar a hora de me levantar e me apresentar para a última partida, eu seja tomada por essa inércia, e o fim seja adiado até minha crise de preguiça passar…

Dia de Poesia – Mia Couto – O beijo e a lágrima

Significado de Lágrima - Dicionário de Símbolos

Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiasmado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

Cascata

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Nascido em uma pequenina fonte,

O pequeno fio d’água se libertou

E seguiu seu caminho de liberdade,

em busca de um mundo desconhecido

sonhando a grande vida que teria.

Juntou-se a outros pequenos e iguais

Tornou-se forte, líder poderoso.

Chegando na ponta de um penhasco

Não temendo a queda, atirou-se

E desceu formando linda cachoeira

Enquanto brilhava na vertiginosa descida

Sentiu-se grande, feliz, realizado

Mas tragado no grande rio que havia

Ao pé da cascata de prata e espumas

Não sobreviveu para realizar

Seus sonhos dourados de grandeza.

Pois seu destino não era ser grande

Mas apenas correr sobre os montes

E morrer em sua gloriosa queda…

39º dia – o tempo e a quarentena

Estamos hoje no trigésimo-nono dia de confinamento, portanto, amanhã serão quarenta dias que a população do país foi posta em isolamento social horizontal. Sem dúvida, uma verdadeira quarentena. Ainda que não tenha atingido 100% dos brasileiros, uma grande parcela dos brasileiros se encontra recolhida em seus lares. Mesmo porque lojas, shoppings, bares, restaurantes, academias etc., se encontram fechados.

Não tenho dados para avaliar se essa política de saúde alcançou a finalidade, de diminuir a incidência de contaminação pelo covid 19, se “achatou a curva”, se teve algum proveito. E não quero esse conhecimento. Estou analisando esse fenômeno do ponto de vista das pessoas confinadas.

E como estão essas pessoas?

A maioria em uma “montanha russa” de emoções.

De início, a maioria não acreditava que isso passaria de dez dias. Portanto, seria fácil acatar a decisão.

Mas não aconteceu. O isolamento virou bandeira política e desafio ao poder federal, e foi sendo prorrogado. O isolamento teve início ainda no verão. Estamos em pleno outono, ainda isolados.

Para a população mais favorecida economicamente ou que continua a receber seus salários, tem despensa e geladeira abastecidas, é servida por delivery quando deseja comida mais diferenciada, o isolamento está sendo período de férias em casa.

Existe, entretanto, o outro lado – todos aqueles que perderam ganhos, perderam empregos, viviam do ganho do dia, estão sem alimentos, sem futuro, e o desespero está batendo.

Mas vejo há traços comuns a todos – jovens, idosos, ricos, pobres… pontos que estão presentes na vida de todos.

Por exemplo, ninguém sabe a data. Ninguém. Nem a hora.

Simplesmente, para todos as pessoas que estão em segregação, o tempo perdeu a importância. Todos os dias são exatamente iguais, e não há mais dia e noite. Interessante se constatar que a maioria mudou inclusive seus hábitos, dormindo muito mais tarde do que o horário de costume e se levantando bem mais tarde.

Não há por que se levantar cedo, a não ser que se queira ter mais tempo de não fazer nada.

Concluo, então, que nossos conceitos de tempo se perderam.

Outro ponto interessante é a falta de interesse, seja lá pelo que for. Pessoas que queriam ficar em casa para realizarem algumas tarefas, não as realizam. Simplesmente, passam o dia em completa inutilidade. Vendo televisão, navegando na internet, sentado olhando para a parede…

Há notícias do aumento no consumo de bebidas alcóolicas. Não duvido. A maioria das pessoas passa muito tempo fora de casa. Chega para jantar, aproveita para um drink ou um vinho e vai dormir. Quando, por qualquer motivo, passa o dia em casa em algum final de semana, geralmente aproveita para comer, beber e dormir.

E agora, todos estão em um verdadeiro fim de semana em casa, portanto a rotina é essa: comer, beber e dormir.

E, fatalmente, o aumento na ingestão de álcool tem gerado aumento na violência doméstica, um círculo vicioso que conhecemos…

Dominados, na verdade, pela preguiça, todos estão se desacostumando de responsabilidades.

Um dia, fatalmente, essa situação vai mudar. Tão de repente como surgiu, o vírus estará dominado. E aí, o que acontecerá?

A realidade do país não será mais a mesma que deixamos do lado de fora da porta de nossa casa quando entramos e trancamos há mais 40 dias…

Quanto do comércio não reabrirá? Quantos empregos não existirão mais? O que acontecerá com a população que “carrega o piano” para os políticos existirem?

Quantos afetos estarão perdidos? Quantas relações rompidas?

Só o tempo dirá, mas, o mais intrigante: o tempo vai voltar? Ou o perdemos para sempre?

Maternidade ou vaidade?

Deus limitou a inteligência do homem, mas não limitou a burrice. (desconheço a autoria)

 

Li a notícia que nesta semana morreu a mulher mais velha do mundo a dar à luz. Morreu com 69 anos de idade, deixando gêmeos de dois anos.

Fica a pergunta: por que teve filhos aos 67 anos, por meios artificiais?

Por ignorância, burrice, vaidade, insensatez, egoísmo, loucura?????

Idade de ser mãe é antes dos trinta anos. Para criar um filho é necessário energia, juventude, boa disposição. Não é fácil acompanhar o ritmo de uma criança.

E a criança necessita da mãe para tudo, por muitos anos, ser humano não é cria de animal que já nasce praticamente pronta para enfrentar o mundo.

A primeira fase da vida é inteiramente dependente da figura materna.

Só a mãe tem paciência suficiente para aguentar uma criança e ainda  a amar de forma intensa e verdadeira, incondicionalmente como é amor de mãe.

Não entendo a razão de uma mulher, no fim da vida,  resolver ter um filho sabendo que esse filho não terá mãe por muito tempo.

Ou seja, em lugar de filho ela tem órfão, porque não estará aí para vê-lo crescer, para responder todos os porquês que ele perguntará, para aninhá-lo no amor quando surgirem seus medos, para curar todas as feridas, pôr gelo em todos os tombos…

Quem amará esse filho? No seu egoísmo não pensa a mulher que privará o filho de ter mãe? De que vale a vaidade de ser mãe de um filho que não terá mãe?

A ciência se desenvolve em laboratórios, entre tubos e microscópios, não em ambiente de vida e calor humano.

E não tem limites no bom senso porque só existe entre frias paredes.

O homem, que Deus dotou de inteligência e bom senso deve – ele próprio – limitar o alcance da ciência em respeito à vida.

Deveríamos observar mais a natureza, imitar os animais, viver mais naturalmente.

Pura insensatez ter um filho que não poderá criar. Sabendo que o filho não terá mãe por muito tempo.

É falta de lucidez, de raciocínio lógico, gerar um filho nessas condições.

Nada há de mais triste na natureza que crias sem mãe. Seja no reino animal que for. Nenhuma criança merece essa falta de respeito.

Que haja alguém que possa de verdade amar essas pobres crianças: que em uma estranha possam encontrar amor de mãe.

(escrito em 17.07.2009)

E a quarentena continua…

Hoje, 23 de abril de 2020, meu 35º dia de isolamento social em razão da quarentena visando controlar a disseminação do covid19.

23 de abril é um dia especial – foi escolhido, no ano de 1995, pela Unesco, para ser o Dia Mundial do Livro. Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Veja (este último, o “príncipe dos escritores do Novo Mundo”, nascido em Cusco, Peru, em 1539 e faleceu em Córdoba, em 23 de abril de 1616).

Leitora persistente, escritora, poeta, não posso deixar de anotar a importância do livro em minha vida. E, portanto, a difusão dessa importante data.

Mas esse dia ainda traz lembranças de outros anos.

Penso em 23 de abril de 2019 – exatamente há um ano eu me aposentei. Depois de mais de trinta anos, saí e fechei para sempre a porta de meu gabinete de Procuradora de Justiça, no Ministério Público do Estado de São Paulo. Carreira da qual me orgulho e na qual ingressei mediante difícil concurso público. Sem dúvida, segui a profissão para a qual era vocacionada. Se nascesse de novo, voltaria a ser Promotora de Justiça.

Mas agora é passado, não volta mais.

E, volto mais no tempo – em 23 de abril de 2019 chegava em Sorrento, na última vez em que lá estive.

Preciso ir a Sorrento, porque meu coração ficou lá desde a primeira vez, foi paixão à primeira vista . Por mais estranho que seja, quando cheguei em Sorrento, não senti que estava “indo” conhecer uma cidade, mas, sim, que estava “voltando” para um lugar onde já vivera.

Aquele golfo, a vista do Vulcão, tudo já estava indelevelmente tatuado em minha mente.

Não sei se é passado. Não sei se voltará.

E chego nesta data presente, de hoje – 35 dias isolada.

Presenciando, com tristeza e até um pouco de desprezo, a histeria irracional de uma população ávida por desgraças coletivas.

Não bastam os infortúnios pessoais e familiares, agora teremos de assumir coletivamente a desgraça da peste chinesa. Cuja letalidade é equiparada à gripe comum.

Tudo bem que nenhum país do mundo tem leitos de UTI e aparelhos de respiração artificial para mais da metade da população simultaneamente. Isso teria um custo desarrazoado e o investimento ficaria obsoleto em pouco tempo, sem uso.

Porque tudo é feito em cálculos atuariais, na análise de dados que possibilita uma estimativa ou expectativa de quantas pessoas poderiam, em tempos de normalidade, estar doentes ao mesmo tempo e necessitar esses cuidados.

Obviamente que isso não se aplica a uma situação extraordinária. Uma pandemia é uma exceção a todas as regras conhecidas de necessidade de cuidados médicos hospitalares.

Por isso o receio de não ser possível prestar atendimento a todos os habitantes do país ao mesmo tempo.

Mas… lá vem o infalível mas…

O vírus não é letal isoladamente.

Portanto, nem todos os infectados ficarão doentes.

Dos que ficarem, a maioria, sadia, se recuperará em pouco tempo sem mesmo necessidade de assistência médica.

Daí que já diminuímos o total que irá atrás de tais cuidados.

Desses, muitos não serão nem mesmo hospitalizados. Dos hospitalizados, uma minoria terá necessidade de UTI. E, poucos de entubação e respirador. Dentre esses, alguns não resistirão.

Portanto, a equação tem um resultado bem inferior àquele propalado pela mídia-urubu-carniça.

Não se justifica o pânico. Nem a histeria coletiva. Recheada de reportagens de terror explícito. Quase nunca correspondente à verdade real.

Não era necessária essa quarentena burra e danosa. Que está levando a ruína a muitos empreendimentos e a miséria a muitos lares brasileiros. Isso não precisava ter acontecido.

Que se fechasse tudo por cinco dias úteis, para serem tomadas as providências de segurança sanitária para o normal funcionamento do país. Isso seria aconselhável e conveniente.

Mas separaram as cotas: motoboys (especialmente os que entregam comida), cozinheiros e ajudantes de cozinha (de lugares com entrega a domicílio), pessoal da saúde, funcionários de supermercados, quitandas e padarias foram declarados, por decreto dos governos, imunes ao vírus.

O restante da população foi condenado à morte pelo vírus, caso saísse de dentro de casa.

Só faltaram os funcionários trancando as casas por fora com cadeados, à semelhança do que ocorreu em Londres durante a peste negra.

Em absoluto não havia necessidade de levar tantos à falência e ao desemprego. Isso foi criminoso. As projeções não se confirmaram. Em abril não tivemos dezenas de milhares de doentes e mortos. Simplesmente, com raríssimas exceções, nos hospitais houve um vácuo – tudo cancelado, cirurgias adiadas, e enfermarias vazias. Vai haver congestionamento nos centros cirúrgicos e CTIs no dia em que suspenderem a quarentena e todos voltarem a procurar seus médicos.

Isso é revoltante.

Inegável que um vírus, inimigo invisível, está infectando pessoas no mundo todo. Vírus que, aliado a comorbidades, idiossincrasia, baixa imunidade, tem resultados sérios em algumas pessoas.

Porém, a cada dia fica mais difícil acreditar na mídia alarmista e criadora de histeria.

Espero que esse confinamento tenha fim. O mais breve possível.

Não teremos de volta nosso mundo de antes do coronavírus. Isso será impossível.

Teremos pobreza, empresas que nunca mais reabrirão. Empregos que não serão recuperados.

Uma população desconfiada de tudo e de todos e cheia de medos que não existiam antes da pandemia.

Acompanhando o estado mental/emocional de meus amigos, percebo que a maioria está em constante tensão, stress aumentado, desconforto físico pela inação, pensamentos depressivos pela falta de convivência e intensa ansiedade pela insegurança com relação ao futuro.

Destruíram a vontade de viver de muitas pessoas. Que, em sua esmagadora maioria, jamais desenvolveriam doença grave ou risco de morte se contaminadas com o vírus. Quebraram a espinha de um país alegre e com população despreocupada. Como se estivéssemos passando por uma guerra.

Que deixará marcas. Crianças impedidas de irem à escola, conviverem com amigos e familiares “para não morrerem”. Porque brincar mata. Abraço de avó mata…

Podiam ter feito tudo de forma pensada e organizada.

Inclusive se nos avisassem antes, que teríamos de ficar confinados por mais de quarenta dias, teríamos a oportunidade de nos prepararmos para isso. Alguns entrariam em casa, cuidando do abastecimento da despensa, para não sair por 40 dias, entrando em hibernação, tal qual um urso.

Outros, convidariam alguns amigos, iriam para uma casa no campo – sítio, chácara, fazenda – e lá ficariam muito bem, obrigado, longe de pessoas indesejadas.

Alguns casais se refugiariam em lugares isolados, de preferência sem alcance de telefone, televisão e internet, e nem saberiam quando fosse dada autorização de retorno no fim de quarentena.

Mas não, pegaram a todos desprevenidos. Por isso tantos descontentes.

Por favor, acabem com essa palhaçada, quero minha vida de volta!