Da música

O que seria da vida sem música? Mas Música de verdade, com M.

Estou assistindo, pela milésima vez, aos concertos do violoncelista Hauser – em Zagreb e em Pula, Croácia, sua terra natal.

Simplesmente encantador. Fascinante.

Você se deixa transportar e consegue ir junto com a melodia.

Orquestras maravilhosas. Músicos dedicados.

Não resta qualquer dúvida que a melhor música do mundo e os melhores profissionais são do leste europeu. Eles nasceram para a música verdadeira.

Logo que acabou a URSS eu fui conhecer o lado de lá da “cortina de ferro”. Lembro-me de uma tarde em Bratislava. Eu estava apaixonadamente encantada com aquele povo. Lindos, gentis, extremamente pobres em sua maioria. O comunismo saqueara e explorara o país e o povo. Quando acabou, quase nada restava aos povos. Mas a vontade de refazer o país era grande e eles lutavam para o reerguerem. E o fizeram, sendo atualmente um país próspero. Mas estive lá em outro tempo: menos de um ano depois do “divórcio de veludo”.

Esse dia, de calma para ficar flanando na linda capital, pude presenciar turmas de crianças nos horários de entrada e saída da escola. Todos uniformizados, andavam pelas ruas e praças, carregando seu material escolar E um instrumento.

O que mais me chamou a atenção foi ver as crianças levando seus instrumentos musicais. Violões, flautas, violinos, celos, praticamente todos portavam um estojo de um instrumento. Ou seja, a música era matéria curricular do ensino fundamental.

Quase todos os grandes compositores imortalizados na arte pura da música erudita nasceram nessa região do continente Europeu. E os povos ainda cultivam a música naquelas paragens.

Basta assistir a um concerto e se entende o valor que dão à música. O público comparece massivamente ao local. Crianças pequenas, adolescente, jovens, adultos, idosos. Todos assistindo com atenção e educação. Valorizando a música como arte e expressão de união. Porque são as mesmas sete notas que compõem todas as melodias conhecidas. Todos os povos do mundo falam a mesma língua quando se trata de música. Há uma única escala, independe da sua representação.

Enquanto flutuo com a angelical música apresentada no concerto, tenho de suportar a modinha que algum vizinho obriga a todos escutarem, na sua festinha aqui no salão na frente de casa, mostrando a falta total de nível da educação que recebeu.

Esse é o lado triste da vida…

 

Dia de poesia – Os versos que te fiz – Florbela Espanca

OS VERSOS QUE TE FIZ

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.

 

Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder…

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

 

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei…

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

(Florbela Espanca)

Ressignificação

calma (s.f.)

é aquilo que me passa a sua voz. é quando o coração acha conforto. é a alma acomodada no próprio corpo. é respirar de um jeito bom. é fruto que se colhe de bons conselhos. é quando a gente olha para a nossa essência, não para um espelho. é se importar de menos com quem quer demais da gente.

é alma com c.

sorriso (s.m.)

é quando a felicidade transborda pelo rosto. é quando eu sei que estamos bem. reflexo do nosso coração quando vemos alguém especial. objeto utilizado para evitar perguntas desnecessárias sobre nossa vida quando estamos mal. o seu é tímido, o meu é desbocado, mas se a gente sorrir junto vira poesia.

é a roupa mais bonita do nosso rosto.

distância (s.f.)

é o que tem entre Brasília e Juiz de Fora. é grande demais para caber em mim. aquilo que inventaram para separar a gente. relativo ao tempo. é o que faz o perto ficar longe. espaço que o avião atravessa para a gente se encontrar. quando criança, media em passos, hoje meço em dias.

é lenha que aumenta o fogo da saudade.

 

(de “o livro dos ressignificados”, de João Doederlein)

Como um barco

 

 

Como se eu fosse o barco no meio do mar

Que navega em círculos e mais círculos

Vendo as luzes do cais ali tão perto

Mas não pode dele se aproximar

 

Cruzei os mares e ancorei em outros portos

Vi outras paisagens e me perdi nas ondas

Fui levada pelo vento e vencida pelo cansaço

Tantos perigos, tantos dragões enfrentei

 

Como se fosse um barco ao sabor do mar

Embalei minhas noites nas calmas ondas

Atravessei dias de fortes tempestades

Vi em mim o sol nascer e também o por-do-sol

 

O mar calmo era sempre o mais perigoso

Os ventos, as rochas, os naufrágios

Tudo era sobressalto, era medo, era difícil

Mas a marola me acalmava e embalava

 

Olho agora esse cais a minha espera

Vejo que existe, é sólido e está aí

Sei que não posso me aproximar, mas tento:

Eu sonho, eu quero, eu preciso atracar

 

O cansaço de tantas travessias vividas

De tantas decepções sofridas e

Tantos amores já mortos ou perdidos

Mostra que você é meu cais, é meu porto

 

Estou presa por grossos fios invisíveis a

Um barco à deriva, sem remo e sem leme

E um vento indizível me impede de ir

Sofro sozinha aqui, entre as ondas e o vento

 

Quantas batalhas enfrentei sem ganhar

Quantas derrotas suportei nesses mares

Mas consegui, de algum jeito, sobreviver

E agora avisto meu cais, meu velho porto

 

À espera de um momento mais acertado

Em que eu possa finalmente me aproximar

Levar meu barco até seu cais tão sonhado

Jogar minhas cordas e em ti descansar

 

Pequena brisa

Pequena brisa que queria ser vento

Soprava forte, soprava alto

Mas nada conseguia derrubar

Nem as folhas das roseiras secas

Buscava toda a força dentro de si

Mas seu sopro, sem calor suficiente

Não bastava para torná-la vento

Então a pequena brisa entendeu

Que precisava crescer para ventar

E crescer implicava em se apaixonar

Amar, perder e então sofrer

Porque se não sofrer não vai crescer

E a pequena brisa, entristecida

Recolheu-se no abrigo da grota

E ali chorou por se sentir tão fraca

Ela, que queria ser tão grande

Chorou tanto que a grota umedeceu

Solidária também chorando a pequenez

Da gentil brisa que ali se abrigava

Dentro da grota úmida e triste

A pequena brisa não percebeu

O quanto crescia em seu sofrimento

Até explodir em si a necessidade

De se lançar no espaço inteiro

E então compreendeu, que finalmente

Era um forte vendaval, que tudo carregava

Transformara-se, assim, no vento que sonhava ser.

Dia de Poesia – Os Ombros Suportam o Mundo – Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos

edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas sem mistificação.