No trânsito

Um milhão de preocupações. Enquanto espero o semáforo ficar favorável, mentalmente faço a lista do que já fiz e do que ainda falta fazer. A fila anda. Dez metros e para tudo de novo. Sinal fecha novamenteo. O dia é curto para tanto afazeres. Preciso ir ao banco, ao correio, ao cartório, à fisioterapia, ao mercado, almoço para fazer… e parada no semáforo, como se estivesse tudo feito a tempo…

Vida moderna. Só se corre. Não importa sua disposição. Sua necessidade. Sua vontade. Seu tempo não é seu. O que importa é dar conta de tudo.

No veículo ao lado, emparelhado com o meu, a garota-motorista canta a plenos pulmões junto com a música que toca em seu carrinho moderno e lindo.

Linda ela também. Além da beleza própria da juventude, a alegria do canto e a liberdade que deve estar sentindo em seguir sua vida dirigindo o próprio carro – sinal que já está começando a dirigir a própria vida – lhe dá um plus em beleza.

Fico encantada vendo sua leveza e sua alegria. Parece se divertir com o engarrafamento. Ou não tem horário para chegar, ou não tem compromissos para cumprir.

Apenas curte o momento. O trânsito parou? Ótimo momento para se cantar, parece pensar.

E canta. E com a mãos segue o ritmo batucando sobre o volante.

Não sofre de passado mal resolvido, não sofre de futuro que não está conseguindo resolver. Apenas vive o presente. E o presente é um baita engarrafamento causado por obras na pista e excesso de veículos circulando.

Ela está certa. Não dá para sair voando. Não se pode passar por cima dos outros. O jeito é curtir o caos.

Ligo minha música, uma hora conseguiremos sair desse trecho congestionado, e, mais contida talvez pelos anos já vividos, canto internamente…  

Abelha ou escaravelho?

Não sou como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor. Sou como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e abafado neste aperto supremo, morre entre os braços da flor que elegeu. (Roger Martin du Gard)

Leio essa frase e começo a pensar sobre seu significado.

Quem é abelha, quem é escaravelho?

Pela leveza, beleza, pela doçura que produz, a abelha parece mais atraente. Pela alegria do voo, pela diversidade de flores com que se relaciona, pelo companheirismo que existe na colmeia – nunca se viu uma abelha abandonada, morando sozinha num favo, morrendo de solidão, aparentemente a vida da abelha é bem mais confortável.

 

Do outro lado temos o feio e pesado escaravelho. Que, logo à primeira vista, assusta. Causa asco e pavor.

Que bicho feio!

Antissocial – prefere se enclausurar e morrer de tristeza, privações e solidão dentro de uma única rosa.

Parece tão simples a escolha: ser abelha é viver feliz, trocar de parceiro para buscar novo néctar na vida sempre que desejar, viver em uma feliz e pacífica comunidade, onde todos se unem ao esforço comum de produzir mel. Que beleza!!!!!

Como a vida seria simples e bonita se fôssemos abelhas!

Mas, na verdade, nós preferimos ser escaravelhos. Nossas escolhas sempre nos levam a essa opção.

Quando nos apaixonamos, ficamos cegos ao mundo. Entramos na nossa paixão, a elegemos como a “nossa rosa” e ali ficamos. Não conseguimos ter discernimento suficiente para perceber quando essa paixão minou, acabou, nada mais nos oferece mas tudo nos suga.

Não nos damos contas das pétalas da paixão agonizante se fechando sobre nós, abafando, estrangulando, tirando nossa capacidade de respirar.

E insistimos em permanecer num relacionamento falido, que tira nossa alegria de viver, que nos faz desistir da vida tentando recuperar um sentimento que não mais existe.

Porque o encanto da paixão só acontece uma vez.

Quando vimos a “nossa rosa” e nos atiramos, e a amamos, e morremos de paixão por ela, era um sentimento vivo, que nos dava a vontade imensa de viver e curtir essa realidade tão maravilhosa.

Mas na hora que a paixão ficou só com o escaravelho, e a rosa apenas o suga e abafa até a morte, deixando de ser flor e se tornando serpente com seu abraço fatal, não compensa insistir em continuar carregando esse espectro do que um dia foi a razão do próprio viver.

E concluo, então, que por mais que queiramos ser abelha, quando a paixão nos cega, na verdade, nos tornamos, por livre e espontânea vontade, o escaravelho que morrerá nos braços de sua rosa.

Dia de poesia – Ser poeta – Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

Felicidade

Tenho certeza que a felicidade está chegando. Há tanto ela se foi, que já é hora de estar voltando. E há de chegar logo aqui.

Todas as portas estarão abertas. Ela entrará sem pedir licença, apenas surgindo aqui da mesma forma que um dia se foi sem se despedir. Vamos brindar dias e dias, noite após noite. Embriagados por todo esse sentimento, dançaremos e cantaremos a alegria da volta da felicidade.

Faz tanto tempo que ela foi embora, não disse que era para sempre nem que demoraria tanto a regressar a nossa casa. E ficamos esperando, a cada dia, a cada hora. E a espera foi tanta que até nos esquecemos como é viver com felicidade. Fomos, aos poucos, nos acostumando a viver sem ela. E nem notamos como nossa vida se acinzentou na tristeza que tomou todos os espaços deixados para trás pela felicidade.

A saudade da felicidade se tornou angústia e depois esquecimento.

Mas agora eu sei que ela está voltando. Já sinto sua vinda, ao longe, porque as luzes estão mais claras, as cores mais nítidas, o coração sobressaltado, derramando adrenalina a cada toque do telefone, a cada alarme de mensagem. Eu sei, tenho certeza, é a felicidade que está voltando.

A tristeza ainda tenta se agarrar a cada pedacinho de mim, como se avisasse que não me deixará jamais. Ela até pode ficar, mas ocupar apenas seu pequeno espaço do meu mundo, porque quando a felicidade chegar, vai inundar meu ser, todos os poros, todas as células e moléculas. E eu serei a própria imagem da felicidade.

A felicidade sempre volta. Basta esperarmos e nos abrirmos para sua chegada.

Da paixão

 

As tempestades não duram a eternidade. Assustam, destroem, mudam a paisagem, mas passam. Nada – nem ninguém – tem o poder de deter o vento. É uma das manifestações da natureza mais assustadora que existe.

Da mais suave e agradável brisa, até as grandes tormentas, furacão, ciclone, tornado, tufão… o homem, em toda sua arrogância, ainda não descobriu como amainar o vento. Não evoluiu nada em relação aos primatas das cavernas que temiam a natureza e não a entendiam. Hoje sabemos tudo sobre a natureza, menos como conviver harmonicamente com ela. Conseguem até prever a intensidade dos ventos, sua trajetória e seu potencial destruidor. Mas não passa disso. E a humanidade continua enfrentando e temendo vendavais.

Mas chega um momento em que o vento se vai. Para onde? Não sei. Como não sei de onde veio tanta fúria, tanto arrebatamento. Ele vai ganhando força. Vai tomando tudo, dominando, carregando, destruindo… de repente, passou! Vamos ver os estragos e tentar recuperar as perdas.

Assim é uma tempestade: surge do nada, de um lindo céu claro, do mais profundo azul. Nuvens brancas e fofas, de algodão, tudo paz. Do nada, do mais completo nada, uma brisa se torna vento. Esse vento se fortalece, alimentado sabe-se lá do quê, e começa a tempestade. Que, por mais assustadora, é, paradoxalmente, fascinante. Nada mais lindo que o vento dobrando árvores, raios marcando o céu, nuvens passando apressadamente para chegarem a lugar nenhum.

Em um momento, tudo se assossega. E volta a calma, o domínio, cada coisa recupera seu lugar, tudo retoma à anterior normalidade, como se nunca tivesse existido essa tormenta.

Assim é a paixão.

Chega como uma brisa. Mas toma força de vento. E venta. E arrebenta reservas, comportas e janelas. E se torna mais forte, como um furacão remexeu todos os cantos de cada ser. Derruba conceitos e telhados. Abala bases e alicerces. Revirando tudo o que havia dentro da alma.

De uma simples palavra, de um gesto banal, um sentimento que é menos que uma brisa, toma o peito de assalto, torna-se um temporal indomável, domina o pensamento, o sentimento, o querer, e faz querer viver.

Mas passa. E faz querer morrer. Faz-se, então, o rescaldo e para ver o que sobrou dentro do peito, o que ainda resiste. Porque tanta ternura se perdeu, que nunca mais poderá ser recuperada.

É hora de se separar cacos de peças recuperáveis. Tentar remontar um bem-querer para ter algo, ainda, a oferecer, ou a perder na próxima tempestade. Que virá. E de novo fará bagunça, misturando sentimentos, destruindo o que parecia forte e resistente. Mas também passará… a capacidade de se apaixonar de novo é admirável.

Toda a dor é esquecida e se fica pronto para o novo arrebatamento, da mesma forma que a natureza se recupera e perde a memória do vento antes da próxima tempestade.

A paixão é a tormenta da alma.

9 de julho

Hoje é nove de julho – data que tem dois significados para mim. Um cívico, de muito de orgulho. E outro de encantamento e paixão eternas

9 de julho. Alguns conhecem essa data pelas ruas e avenidas assim nomeadas em diversas cidades do Estado de São Paulo.

Mas a razão nem todos conhecem. Em 1932 o povo paulista se levantou contra o desmando e a ditadura, exigindo que fosse promulgada uma Constituição para o país. O símbolo dessa revolução armada – M.M.D.C. inicial dos nomes dos mártires do Movimento Constitucionalista de 1932 – refere-se aos quatro primeiro mortos por tropas ligadas ao governo federal, na cidade de São Paulo: Martin, Miragaia, Dráusio e Camargo, cujos corpos repousam no Mausoléu dos Heróis de 32, localizado no Obelisco do Ibirapuera.

O Mausoléu:

O Obelisco:

 

 

A simples leitura de uma frase em homenagem aos mortos, inscrita em uma das faces do Obelisco, causa profunda emoção:

“Viveram pouco para morrer bem
morreram jovens para viver sempre.”

Conheci alguns combatentes. Nossos verdadeiros Heróis!

Quanto à Bandeira que simboliza São Paulo e tanto orgulho nos causa:

De acordo com sites oficiais: A bandeira do estado de São Paulo, juntamente com o brasão e o hino, constituem os símbolos oficiais do estado de São Paulo, no Brasil.[nota 1]

Idealizada pelo filólogo e escritor Júlio Ribeiro em 1888, tinha como objetivo servir de bandeira ao regime republicano, que fora efetivamente proclamado em 15 de novembro do ano seguinte. Para materializar graficamente sua ideia, Júlio Ribeiro convidou seu cunhado Amador Amaral, gráfico e artista plástico que desenvolveu o layout da bandeira paulista.

A bandeira possui treze listras variando entre branco e preto que representam os dias e as noites em que os bandeirantes exploraram o interior do país. O pavilhão possui um retângulo vermelho na horizontal, que representa o sangue derramado pelos bandeirantes, alinhado no topo à esquerda, tendo dentro um círculo de fundo branco e o mapa do Brasil em azul, sendo o azul a cor da pujança. Há também quatro estrelas amarelas na parte interna dos quatro cantos do retângulo.

O pavilhão tornou-se de fato símbolo paulista a partir da Revolução Constitucionalista de 1932, mas que só foi oficializada em 27 de novembro de 1946, sob o Decreto-Lei estadual nº16.349, com base no parágrafo único do Art.195 da Constituição Federal de 1946, que devolveu aos estados e municípios o direito de cultivar símbolos próprios.

 

A Revolução Constitucionalista, data máxima dos Paulistas, engrandeceu nossa Bandeira, deu-lhe a dimensão do orgulho de um povo.

 

 

E o grande poeta paulista – ele, também, um combatente, que entrou para a História como “o poeta da Revolução”, cujos restos mortais estão no Mausoléu do Ibirapuera junto de outros heróis – Guilherme de Almeida, dedicou-lhe o mais belos poema que poderia ser escrito para um símbolo:

NOSSA BANDEIRA

Bandeira da minha terra,

Bandeira das treze listas:

São treze lanças de guerra

Cercando o chão dos paulistas!

 

Prece alternada, responso

Entre a cor branca e a cor preta:

Velas de Martim Afonso,

Sotaina do Padre Anchieta!

 

Bandeira de Bandeirantes,

Branca e rôta de tal sorte,

Que entre os rasgões tremulantes,

Mostrou as sombras da morte.

 

Riscos negros sobre a prata:

São como o rastro sombrio,

Que na água deixara a chata

Das Monções subido o rio.

 

Página branca-pautada

Por Deus numa hora suprema,

Para que, um dia, uma espada

Sobre ela escrevesse um poema:

 

Poema do nosso orgulho

(Eu vibro quando me lembro)

Que vai de nove de julho

A vinte e oito de setembro!

 

Mapa da pátria guerreira

Traçado pela vitória:

Cada lista é uma trincheira;

Cada trincheira é uma glória!

 

Tiras retas, firmes: quando

O inimigo surge à frente,

São barras de aço guardando

Nossa terra e nossa gente.

 

São os dois rápidos brilhos

Do trem de ferro que passa:

Faixa negra dos seus trilhos

Faixa branca da fumaça.

 

Fuligem das oficinas;

Cal que a cidades empoa;

Fumo negro das usinas

Estirado na garoa!

 

Linhas que avançam; há nelas,

Correndo num mesmo fito,

O impulso das paralelas

Que procuram o infinito.

 

Desfile de operários;

É o cafezal alinhado;

São filas de voluntários;

São sulcos do nosso arado!

 

Bandeira que é o nosso espelho!

Bandeira que é a nossa pista!

Que traz, no topo vermelho,

O Coração do Paulista!

São Paulo é minha Pátria, não apenas o Estado onde nasci.

 

 

 

 

 

Por outro lado, também é a data de morte do poeta Vinicius de Moraes. Escritor, poeta, cronista, compositor, dramaturgo, diplomata, ele era tudo e mais um pouco! Hoje são 39 anos de sua morte.

São dele os sonetos mais românticos do século XX escrito em língua portuguesa.

Poemas, canções, Vinicius marcou minha geração, com encontros com universitários, com ideias cativantes, com seu jeito carismático de ser e de viver.

Sou profunda e eternamente apaixonada por sua obra. Leio, releio e volto a ler. Porque Vinicius, chamado Poetinha, foi e sempre será o nosso Grande e Maior Poetinha.

Uma pequena amostra:

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.