Brilhos da noite

Final de tarde. As lâmpadas da praça se acendem. Automaticamente.

Para onde foram os acendedores de lampiões? Será que estão jogados em pátios de materiais obsoletos descartados, juntamente com os lampiões?

Quando o céu perde toda a luminosidade do dia, a lua acende as estrelas – muito, muito antes dos obsoletos e descartados lampiões, a lua já acendia as estrelas. Desde sempre, quando anoitece, a lua vem com um pacote de pirilampos, e os solta no veludo escuro do céu noturno. 

Se estivessem mais perto das destruidoras mãos humanas, já não mais existiriam – nem lua nem estrelas. Teriam sido substituídas pelas aberrações criadas por mentes perversas, que pensam substituir a natureza com plásticos e sintéticos.

As noites já não são as mesmas – não se ouvem corujas nem grilos. Só se ouvem gritos, sirenes e tiros. Vagalumes ou pirilampos? Nem se sabe mais o que é isso. Os pisca-piscas hoje são artificias, neon, led e outras bobagens, que somam montanhas de lixo pelo mundo afora. É tanta luz artificial, que as estrelas não brilham.

Saudosismo? Não. Apenas vontade de ver estrelas brilhando

E disse Fernando Pessoa:

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

 

vida

Pedras runas invertidas

Seja perht ou seja ehwaz,

São o contrário da sorte

Mostram que a vida tem avesso

Se no jogo da bugalha

Conseguir passar as cinco

Não se arrisque mais na vida

Tudo pode dar errado

Mas pular amarelinha

É brincadeira de criança

Quando adulto a diversão

É gastar dinheiro à toa

Crescer é não brincar mais

Crescer é ver a vida perder o encanto

Na verdade o castigo da humanidade

Foi crescer e se tornar adulto na vida

A realidade fica cinzenta

A esperança vai-se esgarçando

Tudo vira um perigo

Nada mais é espontâneo

Quando criança se chora

Até pela bolinha de gude perdida

Quando adulto não se chora

Mesmo que o amor se vá embora

Adulto descobre disfarces

Para não ser censurado

Sorri com a alma chorando

Não mostra a ferida que sangra

Não brinca, não corre, não dança

Disfarça a dor que o destrói

Da mesma forma que as gotas da chuva

Tornam seu pranto invisível

Somos apenas peças

 

 

Às vezes é tão difícil escrever! Não falta vontade nem inspiração, mas não há tempo para ir até o computador.

O tempo é curto, os afazeres são muitos. Problemas a resolver, contas a pagar.

A cada dia parece que as horas encolhem.  A cabeça não descansa, o corpo se cansa.

E um novo amanhecer, um novo anoitecer e nada muda.

Por que temos de dar conta de tanta coisa?

Por que não posso, simplesmente, me sentar na varanda e apenas olhar o céu? sem pensar, sem ler notícias, sem ter absolutamente nada mais para fazer?

Somos peças de uma grande engrenagem chamada realidade. Apenas os dentes das correias e das rodas dentadas. Que, caso falhem ou não se encaixem perfeitamente, tudo se arrebenta. E, na verdade, se não estivermos mais aqui, não faremos falta. Outra peça será colocada para nos substituir, porque, temos de reconhecer, o que importa, é que a máquina funcione perfeitamente, e não os componentes que a fazem funcionar.

Atalho secreto

Somos opostos. Em tudo:

eu sou mar, você é rio;

você é floresta, eu sou cidade;

eu sou sol, você é lua;

você é noite, eu sou dia.

Mas quando nossos olhares se cruzam

nossas mãos se tocam e

nossos corpos se encontram na maciez dos lençóis,

tudo isso desaparece.

Se antes um era prata e outro, ouro,

somos, agora, apenas dois loucos de paixão.

E nos amamos ardentemente,

amalgamando nossas naturezas,

derrubando todas as barreiras

em uma fusão enlouquecida e inseparável.

Nesse hiato de um inesperado eclipse

entre meu sol e sua lua, sua noite e meu dia,

nossos mundos se reduzem a um ponto –

Um único ponto desse vasto universo

onde todas as estrelas vêm brilhar

e invejar esse doido amor

que tudo desmonta, tudo desmente

e nos une e mistura esses mundos,

até chegar o inevitável e triste momento

quando, encantados, seguimos adiante,

cada qual trilhando um caminho próprio.

Mas neste universo em que todas as linhas se tocam,

perpendiculares, paralelas, convergentes,

divergentes, retas ou curvas,

sempre haverá um mágico momento,

em que elas se encontram no finito da vida,

como estradas que em algum ponto se atravessam.

E quando nossos destinos se cruzam,

não há mais céu nem terra

nem há mais claro nem há mais escuro.

Existe, então, esse atalho secreto,

apenas um ponto de amor

a desafiar toda a lógica dos homens

e mostrar a esse mundo descrente

que podemos provocar o destino

e escrever, nós mesmos, nossa trajetória…

Conversa com meu avô – nª 07

 

Olá, vô, não reclama que demorei, o senhor tem visto tudo o que estamos passando e como o tempo não tem rendido nada aqui. Mas se não venho conversar um pouquinho não significa que não tenha muita vontade de vir ou que esqueci do senhor.

Vamos lá, fazer nossas atualizações políticas…

Então, é isso mesmo, o luis da silva continua preso. Quer dizer, continua ocupando dependências de luxo na superintendência da polícia federal de Curitiba, porque não aparece um corajoso para enviá-lo para o sistema, com calça amarela, cabeça raspada e seguindo regras.

O cara está lá numa boa, com namorada, esteira, internet e tudo o mais e ainda dizem que está preso.

Vamos ver se o TRF-4 solta logo a segunda condenação e vai agravando a situação do crápula.

E lá no congresso, vô, que situação mais nojenta! Estamos no dia 01 de julho e aquele bando de parasitas ganhou salários nababescos e não trabalhou um dia sequer em 2019. Apenas ficam tentando atrapalhar um governo que luta para tirar o país do lamaçal da corrupção.

Agora o Presidente da República esteve na reunião do G20 e conseguiu assinar um acordo que vem sendo tentado, costurado e adiado há uns 20 anos. Nenhum presidente conseguiu celebrar esse acordo entre o mercosul e a união europeia.

Pois é, nosso atual Presidente firmou. A médio prazo será uma alavancada excepcional para a economia – do Brasil e dos outros países integrantes do mercosul.

Claro que o senhor não leu nos jornais que isso é positivo, que foi ótimo para o país. A imprensa é encardida, vô, já falei para o senhor que é perda de tempo ler essas porcarias que se autodenominam jornais, mas não passam de exercício panfletário de elogio à esquerda, ao que há de mais atrasado, radical e violento no mundo.

Agora os empresários brasileiros terão de se virar para se desenvolver. Contratar engenheiros (que lotam as vagas de motoristas de uber, por absoluta falta de emprego no país) para colocarem suas empresas no rumo da competitividade a nível mundial. Acabou a reserva de mercado para produtos mal feitos e inadequados. Como diziam os portugueses, vai vigorar o “quem não tem competência, que não se estabeleça”.

Se tivermos produtos de primeira linha fabricados no Brasil, é óbvio que daremos preferência a eles. E eles terão condições de competir lá fora com produtos de outros países. Essa é a economia verdadeira, todos produzindo, gerando empregos e fazendo circular a riqueza. Comprar papel não será mais tão atraente.

É muito perigoso que esse acordo dê certo e tire o país da rota do atraso, por isso incomodou tanto a esquerda, que precisa de pobreza e ignorância para se sustentar.

E ontem, vô, que dia emocionante! O senhor viu as manifestações em todo o país? Um onda verde-e-amarelo tomou as ruas, avenidas e praças. O povo – milhões de pessoas – cantou o Hino Nacional com lágrimas nos olhos, verdadeiros patriotas, que mostraram apoio ao Presidente da República, ao Ministro da Justiça (aquele Juiz de Direito que teve a coragem de dar partida na maior operação de caça a corruptos já vista no mundo, e que agora é Ministro de Justiça, e um jornalista inglês, marido de um deputado federal não eleito pelo RJ, mas que herdou o cargo pela suplência, é, vô, O jornalista é maridO dO deputadO, ou O deputadO é marido dO jornalista, agora é comum, vô, deixa isso prá lá que esse assunto é bananeira que já deu cacho – esse jornalista tentou dar uma de esperto de derrubar o Ministro, mas o plano não deu certo).

As manifestações também pediram uma faxina no Congresso – os presidentes das duas casas são ignóbeis, assim como a maioria dos parlamentares – e ainda no STF. Não dá mais para o país continuar com essa corte desse jeito.

E, de quebra, apoio às reformas legais – lei da previdência e derrubar o estatuto do desarmamento, que sempre foi contra a vontade da população.

Foi bonito, vô, foi muito bonito. Tudo verde-e-amarelo. Muitas bandeiras do Brasil. Ninguém com bandeiras de partidos políticos nem trapo vermelho do sangue dos inocentes. Era o Brasil nas ruas. Foi lindo…

Se vai dar resultado? Volto aqui para contar, me aguarde!

Dia de poesia – Alberto Caeiro

              XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois

Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,

E que para de onde veio volta depois

Quase à noitinha pela mesma estrada.

 

Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas…

A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco…

Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas

E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

(de O Guardador de Rebanhos)