Filosofando com tristeza

A morte não é a maior perda da vida.

A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos…

(Pablo Picasso)

 

 

 

Tema recorrente, a decepção.

Quantas e quantas vezes um coração é capaz de sobreviver a uma decepção?

Qual a pior decepção – no amor, na família, nas amizades…

Há uma decepção pior ou melhor que a outra?

Se tudo for decepção, será possível continuar vivendo mesmo assim?

São infinitas as perguntas.

Mas não tenho as respostas.

Quanto a mim, remendando aqui e acolá esse velho coração tão judiado, tenho conseguido lidar com tantas tristezas e decepções. Sem choro, sem desespero. Com minha fonte inesgotável de defesa para me manter viva e em paz.

E sem perder nem a doçura nem a vontade de ser feliz e fazer o outro feliz.

Como suporte, desenvolvi o mecanismo da morte em vida: quem me decepciona além de um ponto determinado na minha escala de suportar os seres humanos, simplesmente morre para mim.

Morre definitiva e irremediavelmente. Seja amor, seja familiar, seja amigo. Morre uma única vez. Morre em vida.

Ultimamente vi morrer em vida pessoas que muito prezei em minha vida. Mas ultrapassaram todos os pontos da escala de suportabilidade de atos alheios…

Então morreram em mim. Sem flores, sem enterro, sem choro.

Para sempre.

 

(Escrevi esse texto aos 01/06/2015 , mas continua tão atual, parece que escrevi ontem, hoje, essa madrugada… então resolvi postá-lo hoje. Porque a realidade continua sempre igual). 

Duty

Morei em Orlândia entre a infância e começo da adolescência. Praticamente todos que eram de nossa idade estudavam no Instituto de Educação – naquele tempo, escola pública era orgulho – muito estudo, muita responsabilidade, e, como troco, muito conhecimento, cultura, consciência cidadã (ainda não era moda, mas aprendíamos a conviver com os seres humanos). E tínhamos uma boa roda de amigos. Grandes “discussões filosóficas”, muitas serenatas em minha janela, tudo o que tínhamos direito num tempo em que não havia violência, as casas não eram trancadas, as amizades eram sinceras. 

Dentre os amigos, alguns eram mais queridos, e, dentre os amigos prediletos, havia o João Augusto. 

Depois minha família se mudou para Ribeirão Preto, e ele também estava morando lá, para estudar. Nossa amizade ficou mais intensa, pois estávamos mais isolados, em uma cidade maior, onde já não havia a convivência que experimentávamos em Orlândia com outros colegas.

Quantas tardes Duty passou em minha casa, ficando noite adentro, jogando pingue-pongue, fazendo gravações de cenas de filmes em fitas cassete  – e  ele era um sonoplasta genial… jogávamos intermináveis partidas de xadrez, ou ele tocava o violão… novos amigos  vinham chegando, todos nós crescendo, amadurecendo e tendo de tomar decisões quanto ao futuro… 

A linha da vida da mão do Duty era grossa, profunda e curta. Terminava bruscamente, no meio da palma da mão, sem afinar,  nem esgarçar.

Ele brincava dizendo que morreria cedo, porque cairia do cavalo e quebraria o pescoço jogando polo, sua maior paixão; ou sofreria acidente viajando de motocicleta, o que também adorava. De qualquer modo, que morreria repentinamente. 

Algum tempo depois ele se mudou para São Paulo, para terminar o colegial e fazer cursinho. Já não nos encontrávamos muito, porque ele foi tirando Ribeirão Preto de sua vida. 

Sua curta vida. Morreu antes de fazer vinte anos, no triste episódio da Rota 66. Num de repente da vida. 

Cruel, violenta, estúpida morte, que não tem como ser explicada ou aceita. 

Outro dia recebi uma mensagem, já nem me lembro de quem, com uma poesia, cuja autoria lhe é atribuída. Pode ser. Não sei. Emocionei-me, mesmo assim, ao lembrar dessa amizade que nem o tempo nem a morte levaram ao esquecimento.

Como traçado em sua mão, Duty se foi cedo, muito cedo, não pelo cavalo ou pela moto – mas por tiros covardemente desfechados à queima-roupa. 

E para mim, a saudade que nunca morrerá.

Sinto saudades do tempo que não existiu para nós.

Saudades dos teus olhos que não me viram passar

Saudades do carinho que não veio de você.

Do encontro que tivemos e não nos encontramos.

Sinto saudades até das saudades que não sentimos.

Da vida que não vivemos.

Quero ser primavera.

Depois morrer

Só o silêncio é sincero.

Devaneios

 

Saudade igual farol – engana o mar / Imita o sol / Saudade sal e dor que o vento traz (Chico Cesar)

                                         

Quantas vezes se deseja ter o poder de se tornar invisível. 

Nem que seja por algum tempo, apenas para ficar lá, em paz, sem nada nem ninguém perturbar. 

Ou se deseja o poder de voar. Para ir além do possível. Lá, onde ninguém nos encontraria. 

Algumas vezes o mundo ideal é feito apenas de silêncio. Um profundo silêncio, tão denso que pode ser visto ou tão silencioso que pode ser ouvido. O contrário da balbúrdia. 

De vez em quando o ideal é um mundo verde. Como um bosque. Fresco, úmido, onde só se ouve o vento nas folhas. 

Ou então um mundo azul. Um imenso azul, que mistura o céu e o mar, e ficar ali, silenciosamente sendo ninado ao sabor do movimento da água. 

Um pedaço de mim não aceita a convivência, a humanidade, as convenções, os barulhos, a mistura de cores e formas. 

Tenho de lutar para aceitar o outro. Obrigar-me a sorrir, conversar, demonstrar interesse pelo mundo e pelas pessoas. 

Porque não é o meu natural. 

Queria morar numa ilha. De preferência no farol.

                         

Como uma sentinelle d’Iroise. 

Absolutamente sozinha. 

Nunca mais ler jornal, não saber da maldade dos homens, das misérias do mundo. 

Não sei porque sou assim.

Conjugando o verbo amar

Eu te peço perdão por te amar de repente,

Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos. (Vinicius de Moraes)

 

Um dia Mário de Andrade nos brindou com “Amar, Verbo Intransitivo”. 

Deixando para lá o enredo, que não é do agrado geral, fico no título e sobre ele medito: “Amar, verbo intransitivo”. Para Mario de Andrade, eu amo. Ponto final. Eu amo porque amo. Eu amo por amar. Eu amo. Não interessa o que. Se amo alguém, se me amo, se amo o próprio amor. Porque não seria um verbo transitivo. Nem direto nem indireto. Mas um verbo intransitivo, sem qualquer complemento. Eu amo. Apenas.

Não, não é assim. Para mim amar é um verbo transitivo. Quem ama, ama alguém, ou ama algo. Ainda que ame a si próprio. Ou uma coisa desprezível. Mas ama com complemento. Portanto prefiro a outra forma: “amar, verbo transitivo”. 

Falo hoje não do amor, sentimento sublime, que une pais e filhos, que eleva, que apura, que doa, que tudo… Não. Nada disso. Falo do amor sensual. Ou melhor, da paixão quando denominada amor. 

O que seria do mundo sem esse amor-paixão? Já teria acabado há muito tempo. Por tédio, por inércia. Por verdadeira inação. 

Só agimos sob o signo da paixão. 

Vê-se de longe quem é, e quem não é, apaixonado. E não falo de quem está, ou não está, apaixonado. Porque não se trata de “estar”, mas de “ser” apaixonado. Como uma qualidade que a pessoa carrega consigo. 

Os apaixonados se arriscam, se lançam, se atiram, vão mais longe, querem chegar a algum lugar. 

Diferente de quem não ama ou não tem paixão: se deixa ficar, não busca, não sonha, não vai… 

A paixão é o sal e a pimenta do viver. Tempera a existência, dá gosto. Desperta o prazer de viver. 

Quanto mais se é apaixonado, aquela paixão que cega, de adrenalina, que faz acelerar o coração, que tira o fôlego, mais feliz se é. 

Colocar paixão em tudo – no estudo, no serviço, no que se faz por gosto e também em tudo que é feito somente por obrigação – torna a vida mais leve. 

Portanto, ser intensamente apaixonado nos torna melhores humanos, nos leva mais longe do ponto de partida. 

Esse verbo amar do amor-paixão tem de ser conjugado diariamente para que a vida valha a pena ser vivida. 

Mas, para mim, deveria ser modificado um bocadinho: o verbo amar não poderia, jamais, ser conjugado no tempo passado.

Navios na tempestade

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage. (L’Ennemi, Charles Baudelaire)  

 

O mar quase transparente se colore entre verdes e azuis de forma absolutamente inacreditável. O céu monocromático de intenso azul. Ambos pontuados de branco – um com suas espumas, outros com suas nuvens. Brancos etéreos, igualmente feitos de água.

Em súbito de repente o vento chega, invejoso, desmanchando as espumas, esparramando as nuvens. 

O mar, plumbeado, se apressa em recolher e guardar suas cores. As ondas se desgovernam, já não sabem para onde ir, perdem seu ritmo. O azul do céu se desvanece em cinzas. A claridade se esvai… 

Atônitas, as pessoas se assustam. As que estão no mar correm para a praia, as que estão na praia se apressam em ir para o calçadão, e aquelas que nele caminhavam se dirigem para as casas. 

Ouço portas batendo com o vento. Ouço janelas sendo fechadas. A humanidade se recolhe. Medo do mar. Medo do vento… 

Continuo em minha varanda assistindo ao espetáculo da transmutação repentina. 

Na linha do horizonte, onde agora céu e mar se confundem, a única alteração são as luzes que se acendem, em pleno dia escurecido, nas dezenas de navios fundeados, esperando sua vez de entrar no canal. 

Não saem correndo, não pulam, não saltam. Continuam ali, imóveis, no vai-e-vem das marolas agora furiosas. 

 

Nenhum se apavora. Nenhum tenta fugir. Todos sabem que a tempestade vai passar. E, quando acabar, tudo voltará a ser como antes – mar calmo, céu limpo e azul, sol brilhando. 

Essa certeza os mantém calmos. Esperam os melhores momentos que sabem que virão. 

Comparo esses navios, tão grandes em si, tão pequenos na imensidão do mar, com as pessoas que fugiram, assustadas com a tormenta. 

Tão cheios de si, tão arrogantes, se sentem tão importantes. Mas diante da menor demonstração da força da natureza, saem correndo, tentando se abrigar, se esconder… 

Devemos ser, nas horas agitadas das procelas do destino, como os navios na tempestade: não tomam decisões, não se abalam, não se agitam. 

Confiam cada qual em sua âncora, que os mantêm fundeados, e, calmamente, esperam o fim da tormenta. 

Que nossa fé seja nossa âncora e nos faça confiar o suficiente para que, como Pedro, também possamos andar sobre as águas…

                                                    

 

 

 

 

 

 

 

A verdadeira estória do cravo e a rosa

– Demorou, hein? Se eu não encontrasse essa sacada para ficar embaixo estaria completamente molhado da chuva, faz quase uma hora que estou aqui esperando!  

– Desculpe-me, mas o compromisso atrasou, os convidados demoraram a sair e não podíamos desfazer a ornamentação… 

– É, esqueci que lugar de gente chique não termina nunca na hora marcada como os enterros, sempre tem mais um champagne, um foie gras…

 – Vai começar de novo? Já estou ficando cheia dessa sua conversa todas as vezes que nos encontramos. Nada posso fazer se sou uma rosa que tem compromissos tão sofisticados. É meu trabalho. 

– Ah, sim, esqueci que você é de um roseiral especial, onde ervas daninhas e outros afins nem podem chegar perto, por isso temos que nos encontrar nas esquinas… 

– Hoje você está atacado. Por que? Está com medo que eu pergunte onde você esteve ontem? E anteontem? Eu já sei…

– Ah, é? E onde eu estive?  

– Em um buquê, com margaridas, cravinas, prímulas… to sabendo de tudo…E anteontem em  uma coroa, com margaridas, flores do campo e sua ex, aquela insuportável dália …

– Quem te contou? A prímula rosa? Vou acabar com a raça dela… 

– Não foi ela. Foi o crisântemo. 

– Só podia ser. Fofoqueiro invejoso. E vive arrastando as folhas para você. Pensa que eu não percebo… 

– Nem fofoqueiro nem invejoso. Pelo visto é verdade. 

– Invejoso sim, ele quer envenenar você comigo, para ficar com você. Diz que é um absurdo uma rosa tão fina como você namorar um reles cravo como eu. 

– Não tem nada a ver. Você está procurando desculpas para brigar comigo. 

– Bem chega de conversa e vamos que estão nos esperando para o novo canteiro. 

– Sinto muito mas não poderei ir. 

– NÃO???? Você vai nem que seja à força, ou está com vergonha de ser vista comigo? 

Pegou-a pelos espinhos e sacudiu-a com violência. 

– Pare, me largue, você está me machucando, olhe o que fez com minhas pétalas, estão despedaçadas…

 – Ai, olhe minhas pétalas, olhe minha beleza, minha classe, meu perfume… você só pensa em você, estou cheio….

 Ele a soltou e ela caiu. A rosa gemeu.

 – Some de minha vista, seu nojento, porco chauvinista, egoísta, você só pensa em você e em seu complexo de inferioridade, Não tenho culpa se você não passa de um cravo sem eira nem beira, nem sei como fui me apaixonar por você. 

– Para, que você está indo muito longe, isso me machuca… 

– Machuca, é? Vai lá ver se as cravinas e a dália não curam sua feridinha. Para mim está tudo acabado. Fim. Ponto final. Você me despetalou inteira e tenho um coquetel para ir agora.

 – Vai pro seu coquetel e aproveita para ir pro meio do inferno também. Garanto que saio mais ferido que você desta conversa idiota. 

Virou-se e foi embora para um lado, enquanto a rosa, chorosa, tomava outro caminho. E foi assim que 🎼🎵O cravo brigou com a rosa 🎵/ 🎶🎶Debaixo de uma sacada, 🎵/ 🎶O cravo saiu  ferido, 🎶/ 🎵🎶E a rosa despedaçada🎶🎶🎵