Duty

Morei em Orlândia entre a infância e começo da adolescência. Praticamente todos que eram de nossa idade estudavam no Instituto de Educação – naquele tempo, escola pública era orgulho – muito estudo, muita responsabilidade, e, como troco, muito conhecimento, cultura, consciência cidadã (ainda não era moda, mas aprendíamos a conviver com os seres humanos). E tínhamos uma boa roda de amigos. Grandes “discussões filosóficas”, muitas serenatas em minha janela, tudo o que tínhamos direito num tempo em que não havia violência, as casas não eram trancadas, as amizades eram sinceras. 

Dentre os amigos, alguns eram mais queridos, e, dentre os amigos prediletos, havia o João Augusto. 

Depois minha família se mudou para Ribeirão Preto, e ele também estava morando lá, para estudar. Nossa amizade ficou mais intensa, pois estávamos mais isolados, em uma cidade maior, onde já não havia a convivência que experimentávamos em Orlândia com outros colegas.

Quantas tardes Duty passou em minha casa, ficando noite adentro, jogando pingue-pongue, fazendo gravações de cenas de filmes em fitas cassete  – e  ele era um sonoplasta genial… jogávamos intermináveis partidas de xadrez, ou ele tocava o violão… novos amigos  vinham chegando, todos nós crescendo, amadurecendo e tendo de tomar decisões quanto ao futuro… 

A linha da vida da mão do Duty era grossa, profunda e curta. Terminava bruscamente, no meio da palma da mão, sem afinar,  nem esgarçar.

Ele brincava dizendo que morreria cedo, porque cairia do cavalo e quebraria o pescoço jogando polo, sua maior paixão; ou sofreria acidente viajando de motocicleta, o que também adorava. De qualquer modo, que morreria repentinamente. 

Algum tempo depois ele se mudou para São Paulo, para terminar o colegial e fazer cursinho. Já não nos encontrávamos muito, porque ele foi tirando Ribeirão Preto de sua vida. 

Sua curta vida. Morreu antes de fazer vinte anos, no triste episódio da Rota 66. Num de repente da vida. 

Cruel, violenta, estúpida morte, que não tem como ser explicada ou aceita. 

Outro dia recebi uma mensagem, já nem me lembro de quem, com uma poesia, cuja autoria lhe é atribuída. Pode ser. Não sei. Emocionei-me, mesmo assim, ao lembrar dessa amizade que nem o tempo nem a morte levaram ao esquecimento.

Como traçado em sua mão, Duty se foi cedo, muito cedo, não pelo cavalo ou pela moto – mas por tiros covardemente desfechados à queima-roupa. 

E para mim, a saudade que nunca morrerá.

Sinto saudades do tempo que não existiu para nós.

Saudades dos teus olhos que não me viram passar

Saudades do carinho que não veio de você.

Do encontro que tivemos e não nos encontramos.

Sinto saudades até das saudades que não sentimos.

Da vida que não vivemos.

Quero ser primavera.

Depois morrer

Só o silêncio é sincero.

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