Dia de poesia – Cecília Meireles – Lua adversa

Quais são as fases da lua, e como elas influenciam na Terra?

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

140º dia de isolamento

Há pouco para se comentar, para se dizer. Mas nenhuma perspectiva de melhora.   

Um vírus – novo – está espalhado pelo país e pelo mundo.

A única medida foi mandar toda a população ficar em casa, lavar as mãos e se lambuzar de álcool gel. “É para o nosso bem”.   

Depois de 140 dias confinada nesta casa, sem explicações racionais, ouvindo de uns que a substância X é a solução para conter o avanço da doença, outros dizendo que não tem efeito, já não acredito em nada e em ninguém. Impossível que continuem tantas contradições sobre causa e tratamento.     

Soube de poucos conhecidos que contraíram  covid – dá para contar nos dedos das mãos e ainda sobram alguns. E, o mais interessante – ou talvez o termo adequado seja assustador – é que cada pessoa apresentou uma doença diferente, sintomas diversos, nenhum foi hospitalizado, muito menos para UTI ou respirador artificial. Pessoas cujas variavam de 30 a 80 anos.   

Mas um amigo, idoso, que necessitou se submeter a uma cirurgia neurológica de emergência, contraiu infecção hospitalar e seu óbito foi declarado como sendo covid. Resumindo: meu único conhecido que morreu de covid NÃO teve covid.   

E, por todo esse tempo, o comércio e os serviços em geral interditados. A cidade morrendo.   

Os pedidos de ajuda, para alimentação da multidão que hoje passa fome, não param de chegar. Desemprego, miséria e fome aumentando vertiginosamente. Mas os políticos olham para os dados manipulados das curvas do covid, com as mãos coçando pelas verbas públicas.

Nos hospitais da rede particular é possível receber as medicações preventivas. O que é negado nos estabelecimentos públicos, sob o argumento que a ciência ainda não se manifestou quanto à eficácia de um medicamento utilizado há mais de setenta anos no país e sem efeitos colaterais relevantes.

Mas uma vacina recém-desenvolvida pode ser aplicada desde já, mesmo sem qualquer aval científico.

Definitivamente, esse país não é sério nem para amadores.

Anoitece

Fases da Lua #moon #night #Lua-cheia | Lindas paisagens ...

Quando o dia se esvai, tudo é silêncio,

e a noite, suave, traz a lua e seu encanto,

na hora em que nada mais se espera,

penso em tudo enquanto penso em nada;

eu me recolho no vazio de minha alma,

para deixar fluir toda essa ternura

e sonhar que não há tristezas na vida

e ter a certeza de que estamos juntos.

Que vontade eu sinto de você,

que saudade eu sinto de nós dois;

venha me tocar do jeito que só você me tocou,

venha me falar as palavras que só você já falou,

venha, meu amor, ser meu ninho e serei seu aconchego,

Venha me amar da forma que nunca ninguém me amou.

Dia de poesia – Álvares de Azevedo – Lembranças de morrer



Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei. que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores.
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida

20º domingo de quarentena

Night magic | Cenário anime, Fundo de animação, Cenário para vídeos

Ando nas ruas, agora tão vazias de vida, nessa cidade entristecida. Alguns poucos carros, e mesmo assim tão apressados. Por que tanta pressa?

A cidade fechou há mais de quatro meses, o país se desmancha, não há motivo para correr. Estamos todos morrendo.    

Onde estão as crianças que brincavam nos parquinhos? Os idosos sentados nos bancos das praças? Os atletas correndo nas pistas?    

Onde estão todos?    

Por medo de morrer, enfurnaram-se nas casas, que permanecem fechadas. Enterraram-se vivos, famílias divididas, amantes separados,  encontros cancelados. Por medo da doença, evitam o contato com todos os outros seres humanos. E, acaso alguém é obrigado a sair, esconde o rosto o sorriso e alegria atrás de uma máscara horrorosa. Não há mais sorrisos.    

E, mesmo com todas essas medidas, as pessoas continuam a ficar doentes. E muitas morrem. O vírus foi uma bênção para os doentes: há mais de quatro meses que não se morre mais de doenças crônicas, neoplasias, problemas cardíacos, nada mais. Só do novo vírus.    

Vamos viver, minha gente!!!!! Abram as janelas e as portas, saiam ao sol, celebrem a vida enquanto a temos! Porque todos morreremos. Nem antes nem depois, mas só no exato momento que nos foi planejado morrer.     O medo nos mata em vida.      A morte virá nos buscar, estejamos em casa, com a janela aberta fechada. Estejamos nas ruas, nos bares, nos cinemas. Onde estivermos, seremos encontrados. Dona Ceifeira não falha.     E, na minha opinião, o melhor que temos a fazer, é viver enquanto não morremos. Para isso estamos nessa Terra adoentada pelo medo de morrer.      

Tenho saudade da alegria da vida. De ouvir risadas nos mercados. Das lojas abertas. Da cidade movimentada. Das pessoas se cumprimentando com sorrisos e beijos. Das cafeterias simpáticas e com o infalível perfume do café no ar. Dos bares lotados no final do dia, com risadas e copos brindando.    

Tenho saudade de viver.

Morte no funk

Num primeiro momento ele se preocupou com a notícia.

Afinal, também era funkeiro e não pretendia parar de compor nem de cantar. 

Sete funkeiros foram assassinados de forma parecida, em poucos meses, e a polícia não conseguia desvendar a autoria dos crimes. 

O primeiro ele nem conhecia, assim como outros três.

Ainda que trilhassem os mesmos caminhos, ele desconhecia a existência de muitos. Para ser sincero, nem apreciava esse gênero musical. Mas descobriu que dava dinheiro, muito dinheiro. E era bonito, novo, corpo esculpido nos treinos de luta, fazia sucesso com as mulheres. 

Sonhava ser piloto de avião desde menino. Dedicava-se aos estudos, sempre com boas notas, bem visto pelos professores. Mas um dia, tudo mudou. O pai – que sempre fora tão amoroso, vivia para a família, de repente começara a chegar embriagado, agredia a mãe, batia nos filhos, perdeu o emprego. 

A vida foi complicando, veio a ordem de despejo, e além da casa, também precisou sair da escola.

Da casa para o cortiço, do cortiço para a favela, que prefere dizer comunidade. Seus sonhos se desfizeram na dura realidade da fome nunca bem satisfeita. Depois da terceira agressão, quando teve os dois braços e alguns dentes quebrados, decidiu mudar de atitude. Subiu até o alto, onde nunca fora antes, conheceu o chefão do pedaço e falou que queria aprender a lutar. E descobriu que era bom de briga. Primeiro capoeira, depois o boxe e nunca mais apanhou. Bateu muito. Inclusive em alguns policiais que ousaram subir o morro sem o batalhão. Entregou drogas, buscou armas, ganhou os primeiros trocados. 

Até descobrir o funk. Não precisava saber música, não precisava saber português, não precisava saber dançar.

Era só falar as palavras de ordem, insuflar o morro contra a ordem, contra o sistema, contra a polícia.

Depois de cantar de graça em alguns bailes funks foi ficando conhecido, as meninas o seguiam, e o dinheiro começou a entrar como água que arrebenta as comportas e corre solta. 

Dois meses fazendo dez shows por semana e comprou casa de alvenaria para a mãe, lá em baixo, com telhado de verdade.

Comprou carro, comprou correntes e anéis e muita roupa de bacana, escolhida a dedo num shopping de mauricinhos. 

Agora, um ano e meio depois, já era quase rico. Saíram da casa – ele e a mãe, pois o irmão desaparecera há meses, provavelmente morrera em alguma quebrada da vida – e agora moravam em um apartamento no Irajá. 

E então começaram os assassinatos. 

Dos sete mortos conhecia três, dos quais era muito amigo de dois – MC Sarado e Mc Capeta. 

Foi um choque quando MC Sarado foi fuzilado ao sair de uma casa noturna no Jacarepaguá com a namorada, atingido por um único tiro, na altura do coração, disparado sabe-se de lá de onde. 

Foi ao velório, e MC Capeta contou que o amigo recebera um enigmático telefonema, onde disseram apenas “antes de começar a cantar a terceira música do show amanhã, diga EU ACHO O FUNK NOJENTO E TAMBÉM TENHO NOJO DE QUEM VAI A SHOWS DE FUNK”. 

Claro que Sarado não falou isso, fez o show e foi com a namorada para a boate, e morreu na saída. Souberam que os outros assassinados receberam o mesmo telefonema, com a mesma mensagem, mas nenhum cumpriu a ordem. 

Uns quinze dias depois desse fato, Capeta ligou e disse que recebera telefonema com a mesma mensagem, estava preocupado.

Contratou quatro seguranças e depois do show ia  direto para casa, uma verdadeira fortaleza no alto do morro, inatingível. Perguntou se queria ir também. Por não ter show nessa noite, foi ao show de MC Capeta e depois pretendia ir para a casa dele também, onde fariam uma festinha com algumas fãs. 

Não chegou lá. Corajosamente Capeta passou da segunda para a terceira música sem falar a mensagem. Não chegou no fim da canção. Um atirador de elite estourou-lhe os miolos com arma do mesmo calibre que matou os outros funkeiros, em pleno palco. Ele estava ali no fundo, viu o amigo cair de repente, e não deu tempo nem de socorrer. Já caiu morto, a bala entrou pela têmpora, colocada a dedo no lugar fatal.  Estava começando a sentir medo. 

Ontem, quando atendeu o celular, foi sua vez de ouvir a mesma mensagem.  Não sabia se cancelava o show, se ignorava a ordem ou se deveria obedecer.  Falou com seu empresário. Que achou melhor obedecer. 

Começou o show, se sentia onipotente quando subia no palco e a galera delirava, olhou para o público. Quase seis mil pessoas. Seria impossível ser atingido. Cantou a segunda música programada e passou direto para a terceira. 

Sorriu vitorioso, transgredira a ordem, nele ninguém ia mandar. 

Virou-se para acenar para o baterista. Sentiu um soco no estômago e algo quente, muito quente o atravessou. Caiu no palco, microfone ainda na mão. Não houve tempo para o socorro.

Morreu enquanto ainda ecoavam os acordes da última frase…

(11.07.2013)