Envelhecer

Um Espelho Sem Reflexo – O Sábio da Lua Cheia

Chega um momento inesperado

Em que nada do que já foi ainda é

A vida se transforma na frente de nossos olhos

E então duvidamos de nossas mais fortes convicções.

Restos de noites, rastros de estrelas

Sem sul, sem norte, não há rosa dos ventos

O arco-íris já não tem fim nem tem começo

A água já não mata mais a sede

O sol não mais aquece nossa pele

Ao mesmo tempo em que nada nos falta

Temos a certeza de que nada nos basta

Tudo aquilo o que, aos poucos, a vida nos deu em gotas,

Depois nos tirou, de uma só vez, às colheradas

Já não conseguimos sequer saber o que sentimos

Se é melhor a cinza realidade do hoje

Ou o dourado de quando seguíamos

A luz do encanto de uma paixão louca

Cores e formas se misturam na memória

Velhas dores já não conseguem incomodar

Como um sussurro de leve brisa

Antigas paixões ardentes afloram

E logo em seguida desaparecem

Como reflexos na superfície de um lago

Já não nos conhecemos mais

A cada dia o espelho nos apresenta um novo eu

Mais velho, mais baço, olhos mais tristes e apagados

E procuramos onde foi que nos perdemos

Onde está a juventude, a alegria, a vida integral?

Como um pássaro abatido em pleno voo

Fomos lançados nesse limbo da velhice

Sem percebermos que não éramos mais jovens

Passamos por décadas que agora desaparecem

Nos vãos do passado ou desvãos da memória

Quem somos nós?

Quem são essas pessoas que vemos nos espelhos?

Onde foi que nos perdemos de nós mesmos?

A alma ainda é leve, apaixonada, encantada

Mas a realidade é pesada, fria e escurecida

Já não encontramos nosso lugar nesse mundo

Vivemos essa vida que não é a nossa vida

Em um mundo de outra realidade

Aos poucos nos apartamos uns dos outros

E passamos a buscar, ao mesmo tempo

Que tememos ou desejamos não querendo

O inevitável encontro com a implacável Ceifeira

Que é hoje nossa única certeza de futuro

Que nos levará para novo mundo desconhecido

Embora esse aqui também já não seja o nosso

Um dia seguiremos, entre lágrimas de alívio

Para cumprir o inexorável destino

Não veremos as flores que nos serão enviadas

Não sentiremos se verdadeiro o pranto que nos segue

Nada mais nos importará nesse momento

Que haverá de coroar nosso envelhecimento

(Imagem – banco de imagens da internet)

Um ano depois. Igual? Não, pior!

E a quarentena continua…

Hoje, 23 de abril de 2020, meu 35º dia de isolamento social em razão da quarentena visando controlar a disseminação do covid19.

23 de abril é um dia especial – foi escolhido, no ano de 1995, pela Unesco, para ser o Dia Mundial do Livro – aniversário de morte dos escritores Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Veja (este último, o “príncipe dos escritores do Novo Mundo”, nascido em Cusco, Peru, em 1539 e faleceu em Córdoba, em 23 de abril de 1616).

Leitora persistente, escritora, poeta, não posso deixar de anotar a importância do livro em minha vida. E, portanto, a difusão dessa importante data.

Mas esse dia ainda traz lembranças de outros anos.

Penso em 23 de abril de 2019 – exatamente há um ano eu me aposentei. Depois de mais de trinta anos, saí e fechei para sempre a porta de meu gabinete de Procuradora de Justiça, no Ministério Público do Estado de São Paulo. Carreira da qual me orgulho e na qual ingressei mediante difícil concurso público. Sem dúvida, segui a profissão para a qual era vocacionada. Se nascesse de novo, voltaria a ser Promotora de Justiça.

Mas agora é passado, não volta mais.

E, volto mais no tempo – em 23 de abril de 2019 chegava em Sorrento, na última vez em que lá estive.

Preciso ir a Sorrento, porque meu coração ficou lá desde a primeira vez que a vi, foi paixão à primeira vista.

Por mais estranho que seja, quando cheguei, pela primeira vez nesta vida, em Sorrento, não senti que estava “indo” conhecer uma cidade, mas, sim, que estava “voltando” para um lugar onde já vivera.

Aquele golfo, a vista do Vulcão, tudo já estava indelevelmente tatuado em minha mente.

Não sei se é passado. Não sei se voltarei ou voltará.

E chego nesta data presente, de hoje – 35 dias isolada.

Presenciando, com tristeza e até um pouco de desprezo, a histeria irracional de uma população ávida por desgraças coletivas.

Não bastam os infortúnios pessoais e familiares, agora teremos de assumir coletivamente a desgraça da peste chinesa. Cuja letalidade é equiparada à gripe comum.

Tudo bem que nenhum país do mundo tem leitos de UTI e aparelhos de respiração artificial para mais da metade da população simultaneamente. Isso teria um custo desarrazoado e o investimento ficaria obsoleto em pouco tempo, sem uso.

Porque tudo é feito em cálculos atuariais, na análise de dados que possibilita uma estimativa ou expectativa de quantas pessoas poderiam, em tempos de normalidade, estar doentes ao mesmo tempo e necessitar esses cuidados.

Obviamente que isso não se aplica a uma situação extraordinária. Uma pandemia é uma exceção a todas as regras conhecidas de necessidade de cuidados médicos hospitalares.

Por isso o receio de não ser possível prestar atendimento a todos os habitantes do país ao mesmo tempo.

Mas… lá vem o infalível mas…

O vírus não é letal isoladamente.

Portanto, nem todos os infectados ficarão doentes.

Dos que ficarem, a maioria, sadia, se recuperará em pouco tempo sem mesmo necessidade de assistência médica.

Daí que já diminuímos o total que irá atrás de tais cuidados.

Desses, muitos não serão nem mesmo hospitalizados.

Dos hospitalizados, uma minoria terá necessidade de UTI. E, poucos de intubação e respirador. Dentre esses, alguns não resistirão.

Portanto, a equação tem um resultado bem inferior àquele propalado pela mídia-urubu-carniça.

Não se justifica o pânico. Nem a histeria coletiva. Recheada de reportagens de terror explícito. Quase nunca correspondente à verdade real.

Não era necessária essa quarentena burra e danosa. Que está levando a ruína a muitos empreendimentos e a miséria a muitos lares brasileiros. Isso não precisava ter acontecido.

Que se fechasse tudo por cinco dias úteis, para serem tomadas as providências de segurança sanitária para o normal funcionamento do país. Isso seria aconselhável e conveniente.

Mas separaram as cotas: motoboys (especialmente os que entregam comida), cozinheiros e ajudantes de cozinha (de lugares com entrega a domicílio), pessoal da saúde, funcionários de supermercados, quitandas e padarias, limpeza pública, segurança pública, foram declarados, por decreto dos governos, imunes ao vírus.

O restante da população foi condenado à morte pelo vírus, caso saísse de dentro de casa.

Só faltaram os funcionários das prefeituras trancando as casas por fora com cadeados, à semelhança do que ocorreu em Londres durante a peste negra.

Em absoluto, não havia necessidade de levar tantos à falência e ao desemprego. Isso foi criminoso.

As projeções não se confirmaram. Em abril não tivemos dezenas de milhares de doentes e mortos. Simplesmente, com raríssimas exceções, nos hospitais houve um vácuo – tudo cancelado, cirurgias adiadas, e enfermarias vazias.

Vai haver congestionamento nos centros cirúrgicos e CTIs no dia em que suspenderem a quarentena e todos voltarem a procurar seus médicos.

Isso é revoltante.

Inegável que um vírus, inimigo invisível, está infectando pessoas no mundo todo. Vírus que, aliado a comorbidades, idiossincrasia, baixa imunidade, tem resultados sérios em algumas pessoas.

Porém, a cada dia fica mais difícil acreditar na mídia alarmista e criadora de histeria.

Espero que esse confinamento tenha fim. O mais breve possível.

Não teremos de volta nosso mundo de antes do coronavírus. Isso será impossível.

Teremos pobreza, empresas que nunca mais reabrirão. Empregos que não serão recuperados.

Uma população desconfiada de tudo e de todos e cheia de medos que não existiam antes da pandemia.

Acompanhando o estado mental/emocional de meus amigos, percebo que a maioria está em constante tensão, stress aumentado, desconforto físico pela inação, pensamentos depressivos pela falta de convivência e intensa ansiedade pela insegurança com relação ao futuro.

Destruíram a vontade de viver de muitas pessoas. Que, em sua esmagadora maioria, jamais desenvolveriam doença grave ou risco de morte se contaminadas com o vírus.

Quebraram a espinha de um país alegre e com população despreocupada.

Como se estivéssemos passando por uma guerra.

Que deixará marcas.

Crianças impedidas de irem à escola, conviverem com amigos e familiares “para não morrerem”. Porque brincar mata. Abraço de avó mata…

Podiam ter feito tudo de forma pensada e organizada.

Inclusive se nos avisassem antes, que teríamos de ficar confinados por mais de quarenta dias, teríamos a oportunidade de nos prepararmos para isso. Alguns entrariam em casa, cuidando do abastecimento da despensa, para não sair por 40 dias, entrando em hibernação, tal qual um urso.

Outros, convidariam alguns amigos, iriam para uma casa no campo – sítio, chácara, fazenda – e lá ficariam muito bem, obrigado, longe de pessoas indesejadas.

Alguns casais se refugiariam em lugares isolados, de preferência sem alcance de telefone, televisão e internet, e nem saberiam quando fosse dada autorização de retorno no fim de quarentena.

Mas não, pegaram a todos desprevenidos. Por isso tantos descontentes.

Por favor, acabem com essa palhaçada, quero minha vida de volta!

Encontro

Sentia-se cansado, muito cansado. Andara o dia todo, tinha fome, tinha sede. E não o encontrara, embora tenha estado em todos os lugares que lhe disseram onde ele poderia estar. Sua busca terminava aqui. Há meses vagava pelas estradas poeirentas e as pequenas cidades. Agora desistiu.

Viu uma sombra acolhedora sob uma grande e centenária oliveira.

Com todo cuidado para não perder nenhuma gota, tomou os últimos goles de água do velho cantil, companheiro de batalhas e de tantos caminhos.  Comeu algumas tâmaras que lhe restavam. Deitou-se naquela sombra, e tentou dormir para empreender a caminhada da viagem de volta. Frustrado, triste, mas não adiantava continuar. Nunca desistira de um objetivo em toda sua vida, não queria voltar sem o encontrar e o tocar. Mas não conseguiria encontrá-lo. Era melhor desistir e voltar. Os ânimos estavam acirrados, os soldados irritados e agressivos, não queria se meter em mais confusões. Já as tivera bastante na juventude. Estava velho. Queria morrer em casa e em paz.

Adormeceu. Teve sonhos estranhos. Estava em uma multidão, ou uma batalha, todos se empurravam, gritavam histericamente. Ele não entendia o que acontecia. Ao longe, um homem lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse, mas não conseguia vencer a turba.

De repente, estava à beira de um grande lago, muitos barcos passavam longe. Em um deles, um homem lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse, mas não dispunha de nenhum meio para vencer a água.

Então se viu em um grande campo de trigo maduro, difícil de caminhar. Do nada, um fogo tomou conta do trigo e ele queria fugir, mas ao longe, um homem lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse, mas não tinha como vencer o fogo.

Ouviu muitas vozes, acordou assustado, e, no meio da colina, viu um turbilhão de pessoas descendo a encosta, ladeando um homem que seguia em um burrico. Confuso, não entendia onde estava, ficou olhando em volta.

Do meio do povo, o homem no burrico lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse. Com as pernas bambas do cansaço e da confusão mental, aproximou-se do Homem, e Ele lhe deu a mão e lhe perguntou: “Era por mim que procuravas, meu filho?”

Com lágrimas nos olhos, tocou, enfim, na mão de Jesus.

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Quadro – natureza morta

Há um copo sobre a mesa.

Não é um copo de fino cristal. Nem um copo para bebidas especiais.

Apenas um copo.

Simplesmente aquela vasilha de forma cilíndrica para auxiliar na ingestão de líquidos.

Há uma mesa.

A mesa não está posta. Não ostenta toalha de cambraia de linho bordada à mão, nem porcelanas inglesas ou portuguesas. Não há elegantes guardanapos bordados nem talheres de prata.

Só a tosca madeira nua, castigada pelo tempo, trazendo marcas de queimados e molhados, que mostram o uso diário durante décadas.

Há um silêncio.

Não o silêncio respeitoso do momento de meditação durante a missa. Nem aquele que impera nos velórios.

Nem o silêncio da expectativa dos primeiros acordes de um concerto. Nem o silêncio do medo ao enfrentar uma situação de perigo.

Apenas um silêncio.

Surdo. Pesado. Asfixiante.

E há penumbra.

Não a penumbra das alcovas que abriga os corpos em brasa dos que se amam.

Nem a penumbra que antecede o amanhecer.

Mas uma penumbra dolorida das janelas que permaneceram fechadas com as cortinas cerradas.

Há, na penumbra sufocante, um silêncio cortante, com um simples copo sobre a velha a mesa.

Foi tudo o que restou depois de anos de morte, tristeza, desolação e isolamento.

Texto de Wladimir Viveiro

Me perguntaram qual é o oposto da morte.

Em um primeiro momento pensei em responder que era a vida.

Mas, depois me ative que o oposto da morte é o nascimento.

Vida, é apenas o intervalo entre um e outro.

Vida é aquela viagem que todos iniciamos quando nascemos.

Mas, não sabemos quando chegaremos ao nosso destino.

Portanto, o melhor da vida são os momentos (as paisagens) que desfrutamos em nosso itinerário.

A nós, cabe escolher dormir durante a viagem, se ocupar com nossos celulares e notebooks, apreciar cada nascer e pôr do sol, escolher as melhores companhias, desfrutar do calor, da chuva, do frio, dormir bem aconchegado o tempo suficiente para repor as energias, ser feliz, mesmo que nesse trajeto haja buracos, desníveis e desvios.

Vivamos a vida da melhor forma possível, pois nossa viagem, em algum momento, chegará ao fim.