Texto de Caio Fernando de Abreu – Remar

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também. Tá me entendendo? Eu sei que sim.

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.

(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Morrer de amar

Girl Dying Of Loneliness - NEW Paint By Number - Numeral Paint

Quando eu morrer dirão: “Coitada, morreu de amor”…

Há amor, muito amor não correspondido envolvido. Há paixão. Há saudade e muita, muita solidão.

Mas…

Ninguém morre de solidão. Solidão faz bem. O que mata não é a própria solidão, mas a ausência do outro…

E a saudade entristece, faz adoecer, doer, sangrar, mas a saudade não mata. O que mata é a falta brutal que o outro faz na nossa vida.

Nem a paixão mata. A paixão move o mundo, motiva a vida, faz querer viver para ter mais e mais do outro que já se foi. Mas não mata. Paixão é vida.

E o amor? O amor também não mata.

O amor é aquela mistura bem temperada de amizade, companheirismo, parceria e paixão. Tudo que desperta a intensa vontade de viver muito mais do que nos é permitido temporalmente.

Amor constrói. Amor edifica. Amor eleva.

Somente o amor  vence a própria morte e continua vivo.

Mas amor não vence o abandono, a canalhice, o tanto faz.

Amor não vence a humilhação, o desprezo, o descaso.

O amor definha e se desfaz diante do silêncio do ser amado.

Amar sozinho, amar por dois, isso mata.

E isso, sim, pode fazer querer morrer.

Não o amor.

Então, quando eu morrer, não deixem que digam “Coitada, morreu de amor…”

Porque eu não terei morrido de amor.

Corrijam, esclareçam, que eu amei muito, muito mais do que deveria e poderia, mas que eu não morri de amor.

A bem da verdade, afirmem “Coitada, ela não morreu de amor. Ela morreu de amar!”

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Pablo Neruda – Parto

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Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Do teu coração me diz adeus uma criança. E eu lhe digo adeus.

(Imagem: banco de imagens Google)

Memória do blog – Mágoas

Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água… (Chico Buarque)

Una gota en el mar - Psicología Católica Integral

Mágoas e mais mágoas… quantas mágoas trazemos na alma, de tantas desatenções, de tantas decepções…

Com quantas mágoas se faz uma tristeza?

Difícil fazer de conta que não magoa, fazer de conta que não sente nada… o pote vai enchendo e a qualquer momento transbordará.

Por mais delicado que alguém seja, nada impede que o outro o magoe profundamente, por egoísmo, por vaidade, para se mostrar superior, em razão de complexo de inferioridade.

E o coração corta e sangra a cada mágoa. E vai ficando cheio de cicatrizes. Alguns corações são tão magoados que se protegem com uma couraça. Mas estouram da mesma forma, através de terríveis somatizações, porque é impossível não transbordar.

E se temos medicamentos à vontade para as dores do corpo, nenhum existe para a maior dor da alma – a mágoa.

Algumas pessoas colecionam cristais, outras, soldadinhos de chumbo. Eu coleciono mágoas.

Tenho de todos os tipos, cores e tamanhos. Causadas por tantas e tão diferentes pessoas e ações.

Vivo me policiando para não magoar quem convive comigo.

Engulo alguns desaforos, enfrento decepções, mas procuro não magoar. O inverso não ocorre. Às vezes tenho a impressão que as pessoas se dedicam a me magoar. Pouco se importam com minha dor. Não conhecem minha alma.

Mas meu coração, tal como o pote da canção, está à beira de transbordar…

(Imagem: banco de imagens do Google)

E o coração corta e sangra a cada mágoa. E vai ficando cheio de cicatrizes. Alguns são tão magoados que se protegem por uma couraça. Mas estouram da mesma forma, através de terríveis somatizações, porque é impossível não transbordar.

E se temos medicamentos à vontade para as dores do corpo, nenhuma existe para a dor da alma – a mágoa.

Algumas pessoas colecionam cristais, outras, soldadinhos de chumbo. Eu coleciono mágoas. Tenho de todos os tipos, cores e tamanhos. Causadas por tantas e tão diferentes pessoas e ações.

Vivo me policiando para não magoar quem convive comigo. Engulo alguns desaforos, enfrento decepções, mas procuro não magoar. O inverso não ocorre. Às vezes tenho a impressão que as pessoas se dedicam a me magoar. Pouco se importam com minha dor. Não conhecem minha alma.

Poesia da casa – Minhas verdades

Mulher Furacão" / "Hurricane Woman" | This picture has resu… | Flickr

Eu quero me desconstruir diante de você

Mostrar um lado desconhecido e insuspeito

De pensamentos estranhos e encobertos

Guardados num canto sombrio da alma

Então você saberá quem eu sou na verdade

Porque sempre lhe foi revelado meu melhor

Diante de você eu despi minhas vaidades

Revelei minha luz, entreguei meu sorriso

Você conheceu minha bondade, minha parte gentil

E nunca sequer supôs existir essa outra face

Não soube que posso ser mesquinha e maldosa

Que posso destruir e também sei odiar

Por trás de um sorriso e uma amabilidade

Você não percebeu que poderia haver fúria,

exasperação, horror, desprezo, raiva e rancor 

Que no meio de tantos sentimentos também

Existiram outros tantos ressentimentos

Quero que agora veja como sou real

E não sonhe mais com essa perfeição idealizada

Veja meus dois lados, conheça minhas verdades.

E se não puder aceitar, então me desame…

(RP,28.06.2019)

(Imagem: banco de imagens do Google)