Última chuva do verão

“… É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira…

É um belo horizonte, é uma febre terça
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração…”
(Antonio Carlos Jobim)

Chove. Anoiteceu chovendo muito, intensamente.

É a última chuva do verão, que amanhã se irá para voltar em dezembro.

Escuto a chuva. Adoro chuva. Adoro ver chover. Adoro ouvir e ver a chuva.

Sem raios, sem trovões, apenas água. Água linda, que cai limpando o ar e purificando a Terra. Bênção divina.

Verei outras chuvas?

Verei outros verões?

Quem sabe, ou pode afirmar?

Esse foi um triste verão, sem cores, sem sol, sem alegria.

Se houve cores, se houve sol, se houve alegria, não percebi.

Saindo de uma peste para entrar numa guerra, só para dizer o que se passa lá fora.

E a bagunça que reina aqui dentro impede ver qualquer sinal de um típico verão.

Mesmo que não mais esteja aqui, tenho certeza que em dezembro o verão estará de volta. E no próximo ano, neste dia, uma linda chuva virá para cumprir a sina das “águas de março fechando o verão”.

(Imagem: foto de Maria Alice)

Memória – O traste da paixão

Não te espero, só porque te quero. Te quero, como sei que eu nunca quis alguém assim. Não te espero, só porque te quero. É porque te quero só pra mim… Te quero na minha vida, na minha paixão. Te espero, em todos os momentos e não só na solidão.(Celi Luzzi)

Ah, a paixão… a velha e boa paixão…

Chega de repente, nem se sonhava que estava a caminho. Pega de surpresa e se espalha. A paixão toma todo o corpo, ocupa todos os espaços. Torna-se obsessão, ideia fixa. Já não se sente mais necessidade de comer, de dormir, de conviver. Basta a existência, a atenção e a companhia do ser que despertou toda essa torrente de emoções.

Segue-se como encantado, com o sonho invencível de consumar a paixão, a necessidade de saber onde o outro está, o que faz, o que pensa…

De vez em quando a paixão é recíproca – aí é a pura maravilha, porque quando correspondida, a vida se torna colorida, sinos tocam sem cessar, anjos cantam dia e noite, tudo é encantamento.

Geralmente, no entanto, a paixão não é via de duas mãos – enquanto um está intensamente apaixonado, o outro só está passando o tempo, esperando que alguém mais conveniente apareça. E finge paixão.

E promete, e faz sonhar, deixa o apaixonado nas nuvens. Até o dia em que aparece o que esperava – mesmo que seja um traste imprestável – e deixa o apaixonado falando sozinho, até este perceber que a paixão era via de uma só mão.

E, pelo traste pelo qual foi substituído, o apaixonado acaba se dando conta do traste imprestável pelo qual se apaixonara…

(Imagem: banco de imagens Google)

Sem focinheira – até que enfim!!!!!!!!!!!

Amanhã completaremos dois anos de pesadelo. Dois anos do dia que nos tiraram o futuro. Dois anos que nos obrigaram a ficar em casa, ir à falência, perder o emprego, morrer de fome, usar álcool gel (eca, coisa pegajosa e nojenta) e usar máscaras. Roubaram nossos sorrisos. Nossa vontade de conviver.

Amanhã.

Um dia nos permitiram sair de casa. Mas não nos devolveram os empregos que se acabaram para sempre. Não reabriram a empresas que não aguentaram o tempo de lockdown.

Um dia pararam de enfiar o asqueroso álcool gel nas nossas mãos em todos os lugares que tentamos entrar.

E hoje – HOJE – faltando um dia para os dois anos, exatamente 729 dias depois de declarada a pandemia, fomos alforriados no nosso Estado.

NÃO MAIS SOMOS OBRIGADOS A USAR MÁSCARAS!!!!!!!!!!! A partir de hoje, de agora, deste momento, SEM FOCINHEIRA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Os donos de fábricas de batom (aqueles que não faliram) devem estar felizes. Porque se os donos de fábrica de máscaras foram os que mais lucraram com essa besteirada (depois, claro, dos grandes laboratórios e das redes de farmácias) foram dos donos de fábricas de batom os maiores prejuízos.

ALFORRIA GERAL – LIVRES DAS MÁSCARAS! ALELUIA!

(Imagens: fotos de Maria Alice)

Il y avait un jardin qu’on ne trouve plus

C'est une chanson pour les enfants
Qui naissent et qui vivent entre l'acier
Et le bitume entre le béton et l'asphalte
Et qui ne sauront peut-être jamais
Que la terre était un jardin



Il y avait un jardin qu'on appelait la terre
Il brillait au soleil comme un fruit défendu
Non ce n'était pas le paradis ni l'enfer
Ni rien de déjà vu ou déjà entendu

Il y avait un jardin une maison des arbres
Avec un lit de mousse pour y faire l'amour
Et un petit ruisseau roulant sans une vague
Venait le rafraîchir et poursuivait son cours.

Il y avait un jardin grand comme une vallée
On pouvait s'y nourrir à toutes les saisons
Sur la terre brûlante ou sur l'herbe gelée
Et découvrir des fleurs qui n'avaient pas de nom.

Il y avait un jardin qu'on appelait la terre
Il était assez grand pour des milliers d'enfants
Il était habité jadis par nos grands-pères
Qui le tenaient eux-mêmes de leurs grands-parents.

Où est-il ce jardin où nous aurions pu naître
Où nous aurions pu vivre insouciants et nus,
Où est cette maison toutes portes ouvertes
Que je cherche encore et que je ne trouve plus.

Dia da Poesia – quando a poesia vem em forma de canção

Oh! tristeza me desculpe, 
Estou de malas prontas,
Hoje, a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar...


Vamos indo de carona,
Na garupa leve, de um vento macio,
Que vem caminhando,
Desde muito longe,
Lá do fim do mar...


Vamos visitar a estrela,
Da manhã raiada,
Que pensei perdida,
Pela madrugada,
Mas que vai escondida,
Querendo brincar...


Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara 
traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar


Olha quantas aves brancas,
Minha poesia, dançam nossa valsa,
Pelo céu, que o dia,
Fez todo bordado de raios de sol...


Oh! poesia, me ajude,
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias,
Pelos campos verdes, que você batiza,
De jardins do céu...


Mas, pode ficar tranqüila,
Minha poesia, pois nós voltaremos,
Numa estrela guia, num clarão de lua,
Quando serenar...


Ou talvez, até quem sabe,
Nós só voltaremos, num cavalo baio,
No alazão da noite, cujo nome é raio,
Raio de luar...

(Paulo Cesar Pinheiro e João de Aquino)