A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Meu coração, bandeira içada
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono, cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração, a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno,
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinge...
Meu coração, algema partida...
Nasceu em Barra de São João, no Estado do Rio de Janeiro, no dia 4 de janeiro de 1839
Desejo
Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só’ por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;
Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;
Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;
E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;
E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria…
— A vida, o céu, a razão!
Como pode alguém obter prazer
Sabendo que está destruindo
Quem deveria defender
E se divirta sorrindo?
Como podem pronunciar frases
Que contradizem suas atitudes
E cruelmente serem capazes
De ao horror chamar virtudes?
Como podem alguns senhores
Que até fingem morrer de amores
Por quem ajudam a matar;
Não se arrepender em algum momento
Nem imaginar que o sofrimento
Também o pode alcançar?!
Órfã de pai e de mãe aos cinco anos de idade, Lara Fallabrino Sanz Chibelli de Lemos foi criada pela avó em Caxias do Sul. Pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ela se diplomou em História e Geografia (1945), em Pedagogia (1951) e em Jornalismo e Comunicação Social (1958). Lemos ainda se graduou em Direito, pela Universidade Candido Mendes no ano de 1975. Além disso, especializou-se em literatura inglesa na Southern Methodist University, nos Estados Unidos.
A estreia de Lara de Lemos como escritora se deu em 1955, na Revista do Globo, para a qual escreveu contos, entre os quais “Homem no bar” e “Mulher só”. Em 1958, Lemos passou a colaborar para o Correio do Povo, mais tarde, para muitas outras publicações, tais como Última Hora, Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa. Participante das causas políticas da época, ela escreveu, ao lado de Paulo Cesar Pereio o Hino da Legalidade, em 1961, defendendo a posse de João Goulart. Contudo, foi obrigada a interromper sua carreira jornalística por causa do regime militar, tendo ela própria e sua família sido presos.
Tendo se mudado para o Rio de Janeiro, Lemos trabalhou para o Ministério da Educação, como inspetora de Ensino Superior e técnica em Assuntos Educacionais. Lecionou História Geral no ensino público do Rio Grande do Sul e foi professora-assistente de Economia Política na Universidade Candido Mendes.
Por muitos anos, Lara de Lemos residiu em Nova Friburgo. (Fonte: Wikipédia)
Só
Como se nunca,
terrena e submissa,
recolhesse do amor
o fruto sazonado.
Como se os abraços
não fossem para
o homem e suas dores
acalanto e regaço
Como se não houvesse
riso e pranto
noite escura e dia
a canção e os mortos
Só. Como se o muro
surgisse inexplicável
e eu tivesse nascido
do outro lado.
Matura idade
Já não receio
meu avesso de medos.
Distingo as coisas
em sua proposta exata
e sei – cada ser
possui justa medida.
Já não almejo
o que me foi negado.
Prossigo a caminhada
colhendo o que
me coube, consoante
o chão lavrado.