Dia de poesia – Álvaro de Campos – Meu coração, bandeira içada (Fernando Pessoa)

Meu coração, bandeira içada
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono, cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração, a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno,
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinge...
Meu coração, algema partida...

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Karla Thayse – Quero te dar chuva de flores

Quero te dar chuva de flores pela manhã.

E quando quiseres podes vir colher sorrisos direto do quintal da minha alma.

Nunca há de te faltar afeto.

E se murchar tua alegria, podes vir buscar uma muda no meu jardim para que a tua floresça outra vez.

Se te faltar o vento, eu te sopro carinho.

E se te faltarem as cores do dia, a gente pinta tudinho com tons de felicidade.

Lá do alto, não te deixarei olhar para baixo e mesmo que escorregues de uma nuvem molhada, eu não te soltarei a mão, não te deixarei cair.

Amizade é isso, teto firme no temporal, água para a sede no deserto, riso para enxugar a lágrima que cai.

(Imagem: foto de Maria Alice)

A Casimiro de Abreu, no seu aniversário

Nasceu em Barra de São João, no Estado do Rio de Janeiro, no dia 4 de janeiro de 1839

Desejo
Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só’ por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria…
— A vida, o céu, a razão!

Dia de poesia – Martin Santos – Como podem?

Como pode alguém obter prazer
Sabendo que está destruindo
Quem deveria defender
E se divirta sorrindo?

Como podem pronunciar frases
Que contradizem suas atitudes
E cruelmente serem capazes
De ao horror chamar virtudes?

Como podem alguns senhores
Que até fingem morrer de amores
Por quem ajudam a matar;
Não se arrepender em algum momento
Nem imaginar que o sofrimento
Também o pode alcançar?!

(imagem: banco de imagem Google)

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida – 12 – Lara de Lemos

Órfã de pai e de mãe aos cinco anos de idade, Lara Fallabrino Sanz Chibelli de Lemos foi criada pela avó em Caxias do Sul. Pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ela se diplomou em História e Geografia (1945), em Pedagogia (1951) e em Jornalismo e Comunicação Social (1958). Lemos ainda se graduou em Direito, pela Universidade Candido Mendes no ano de 1975. Além disso, especializou-se em literatura inglesa na Southern Methodist University, nos Estados Unidos.

A estreia de Lara de Lemos como escritora se deu em 1955, na Revista do Globo, para a qual escreveu contos, entre os quais “Homem no bar” e “Mulher só”. Em 1958, Lemos passou a colaborar para o Correio do Povo, mais tarde, para muitas outras publicações, tais como Última Hora, Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa. Participante das causas políticas da época, ela escreveu, ao lado de Paulo Cesar Pereio o Hino da Legalidade, em 1961, defendendo a posse de João Goulart. Contudo, foi obrigada a interromper sua carreira jornalística por causa do regime militar, tendo ela própria e sua família sido presos.

Tendo se mudado para o Rio de Janeiro, Lemos trabalhou para o Ministério da Educação, como inspetora de Ensino Superior e técnica em Assuntos Educacionais. Lecionou História Geral no ensino público do Rio Grande do Sul e foi professora-assistente de Economia Política na Universidade Candido Mendes.

Por muitos anos, Lara de Lemos residiu em Nova Friburgo. (Fonte: Wikipédia)

Como se nunca, 
terrena e submissa, 
recolhesse do amor 
o fruto sazonado.

Como se os abraços 
não fossem para 
o homem e suas dores 
acalanto e regaço

Como se não houvesse 
riso e pranto 
noite escura e dia 
a canção e os mortos

Só. Como se o muro 
surgisse inexplicável 
e eu tivesse nascido 
do outro lado.

Matura idade

Já não receio 
meu avesso de medos. 

Distingo as coisas 
em sua proposta exata 
e sei – cada ser 
possui justa medida. 

Já não almejo 
o que me foi negado. 

Prossigo a caminhada 
colhendo o que 
me coube, consoante 
o chão lavrado.

Dia de renovar a Esperança…

Tudo o que quero para mim e desejo àqueles que amo: que a Esperança esteja presente em todos os dias do ano.

 

       Prece da Esperança

 Que a Esperança afaste a Hostilidade.

Que a Esperança afaste o Ciúme.

Que a Esperança substitua a Ausência.

Que a Esperança substitua o Medo.

Que a Esperança substitua o Abandono.

Que a Esperança substitua a Tristeza.

Que a Esperança substitua a Saudade.

Que a Esperança aniquile a Raiva.

Que a Esperança aniquile a Frustração.

Que a Esperança aniquile a Aversão.

Que a Esperança se faça Confiança.

Que a Esperança se faça Surpresa.

Que a Esperança traga Alegria.

Que a Esperança traga Afeto.

Que a Esperança traga Paz

Que a Esperança traga Conforto.

Que a Esperança traga o Amor.

Que a Esperança alimente a Paixão…