O “Eterno Doutor”

Inconfundível em campo: muito alto, mais que a média dos outros jogadores e muito magro. Magérrimo. Com o diferencial de, na década de 70, ter-se profissionalizado no futebol quando era estudante de medicina. Sem nunca abandonar o curso. O que gerou um incidente curioso, quando, nos idos de 77, o novo treinador, Vieira, declarou em alto e bom som que jogador que não treinasse não jogaria. Era impossível conciliar os últimos anos de Medicina na USP, os plantões, os estudos e as obrigações com os treinos durante a semana.

Mas ele era genial. A alma do time. Então continuou jogando – e brilhando – mesmo sem treinar.

Esse era o Sócrates. De bem com a vida, acessível aos torcedores, no estádio, na rua, no clube, na mesa do bar, o Doutor era sempre abordado e era um homem simples,  simpático com todos.

No campo, fazia a diferença. Sua inteligência e rapidez de raciocínio o tornavam único. E, com maestria, seus passes de calcanhar deixavam o adversário confuso e dificultava a marcação.

Ficou famoso. O time do interior – Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto, time tradicional, antigo, fundado em 1918, não conseguiu segurar sua estrela muito tempo.

O Timão – Corinthians (ou Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910) o levou em 1978 para se tornar sua estrela máxima na época.

Sócrates, agora já formado, dedicava-se ao futebol e ao novo clube. Tornou-se ídolo. Foi eleito entre os melhores jogadores do mundo. Integrou a seleção brasileira.

Quem o via em campo se encantava com seu jogo. Eu o vi, desde o início de sua carreira, pelo Botafogo. E depois o vi jogar pelo Corinthians. O “Magrão”, o “Doutor”.

Seu tempo passou.

Depois de rápidas incursões em outros times, inclusive o Fiorentina, na Itália, Doutor Sócrates se aposentou como jogador, em 1989, e foi clinicar em Ribeirão Preto.

A saúde o traiu. Partiu aos 57 anos de idade. Muito cedo para um atleta. Cedo demais para um ídolo de sua grandeza.

Declarou, antes de morrer, que gostaria de morrer em um domingo, no qual o Corinthians fosse campeão.

E sua prece foi ouvida. Morreu aos 04.12.2011, dia em que o glorioso Corinthians Paulista foi campeão brasileiro no Pacaembu, em jogo contra o arquirrival Palmeiras.

Seu coração sempre dividido entre os times do Botafogo de Ribeirão e o Corinthians.

Ontem, foi dia que seria seu aniversário, em que completaria 68 anos de idade. E, pelo Campeonato Paulista, na Arena Eurobike (o tradicional “Estádio Santa Cruz”, onde Sócrates começou a carreira) jogaram Botafogo X Corinthians.

As duas torcidas e seus times homenagearam Sócrates, pelo seu dia. O gesto do braço erguido com que ele comemorava os gols que marcava, o minuto de silêncio, e amor e reconhecimento eternos de ambas as torcidas. Temos certeza que, de onde estiver, o Magrão estava no meio de seus torcedores, das duas torcidas. Ele não perderia esse jogo por nada. Sócrates, o eterno doutor.

Memória do blog – De outras saudades

Não gosto de passarinho. Não gosto de violão. Não gosto de nada que põe saudades na gente.(Guimarães Rosa)

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Como não meditar ao ler essa frase de Guimarães Rosa? Ao primeiro momento, choca – “Não gosto de passarinho”. Como assim? Existiria um único ser humano em toda a história da humanidade que não gostasse de passarinho? Não imagino que isso possa ser possível.      

E ele continua: “Não gosto de violão”. Bem, quanto aos instrumentos e seus sons, cada qual tem sua preferência. Pode ser momentânea, pode ser permanente, mas sempre se gosta mais de um, o som de algum é mais agradável.      

Então ele completa: “Não gosto de nada que põe saudades na gente”.     Ah, agora faz sentido.

Quando a passarada canta ao alvorecer, traz de volta lembranças de tantos outros dias amanhecendo, que se foram, que se queria reter entre os braços, nas mãos, ou nos olhos, mas só se pode reter na lembrança.    

E o violão, ao anoitecer, quando as cordas choram canções de amores perdidos, despertam em todos outras emoções causadas por suas próprias perdas.     

Tudo isso dói.    

Então concluo que Guimarães Rosa gostava, sim, de passarinhos e violão. Mas sofria com a saudade que esses lhe traziam de volta e o peito doía na saudade do que perdeu.     

Carregamos nossas saudades tão bem guardadas, tão escondidas, mas um som, uma música, um rua, uma praça, uma quase-nada as desperta e elas tomam força, nos invadem e nos fazem sofrer até a última gota. Temos de assumir nossas saudades e as lágrimas que elas nos causam. Se temos saudade, tivemos alegrias, amores, paixões, momentos que valeram a pena. Mesmo doendo, elas dão o prazer de trazer à lembrança a felicidade que se foi.    

Ele, Guimarães Rosa, amava passarinhos e violão. Tanto que despertava na alma as saudades mais doloridas.

Poesia da casa – Não solte da minha mão

Por isso eu peço: segure para sempre minha mão
Quando eu atravessei vales sombrios
E também estive em mares revoltos
Eu, muitas vezes, tive tanto medo

Precisava de você então a meu lado.
Porque não tinha forças para ir sozinha
Mas, de mãos dadas com você, tudo isso
Eu superei, e segui o caminho certo

Eram pedras, eram espinhos e eram flores
A cada trecho do caminho, uma surpresa
Guiada por suas mãos firmes e amigas
Eu ia confiante, feliz e sem receios

Agora você ameaça partir, tudo tão de repente
Deixando-me aqui, sem rumo e sem norte
Sem estar preparada para então seguir sozinha
Por favor, eu imploro: não solte nunca da minha mão.

(Imagem: imagem de iStock)

Poesia da casa – Um barquinho de papel

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Ligeiro desce meu barco

embalado pelo amor

na corredeira da paixão.

Segue seu curso tão livre

ébrio de felicidade,

desejo, atração, tudo intenso.

E ele corre ligeiro

rumo aos braços do meu amado,

buscando esse outro barco,

vai sempre firme, ansioso

e não se cansa nem desiste

em busca de seu destino.

Agora volta meu barco

contra toda a correnteza

tentando superar a tristeza

de apenas ter encontrado

um barco vazio de afeto

que não lhe tinha apego.

Vagaroso, vai sem querer

seguir em seu triste trajeto,

meu pobre barco desfeito.

Não era de boa madeira

igual a esse amor que morreu

em uma triste madrugada:

era um barco de papel

era apenas um falso amor

desfez-se na noite dos tempos

levado pela enxurrada,

era um barquinho de papel,

era um amor de mentirinha

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de Poesia – Guilherme de Almeida – Nós

Turismo na terceira idade em Alagoas -
Quando as folhas caírem nos caminhos,

ao sentimentalismo do sol poente,

nós dois iremos vagarosamente,

de braços dados, como dois velhinhos,

 

e que dirá de nós toda essa gente,

quando passarmos mudos e juntinhos?

- "Como se amaram esses coitadinhos!

como ela vai, como ele vai contente!"

 

E por onde eu passar e tu passares,

hão de seguir-nos todos os olhares

e debruçar-se as flores nos barrancos...

 

E por nós, na tristeza do sol posto,

hão de falar as rugas do meu rosto

hão de falar os teus cabelos brancos.

(Imagem: banco de imagens Google)