
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Poesia da casa – Versos para ti

Um dia hei de me cansar e me irei
E a ti, eu te deixarei para sempre
Quem te amará quando eu desistir de te amar?
Quem olhará nos teus olhos com tanto amor
Como sempre viste nos meus?
E ficará a teu lado em todos teus dias
E te esperará todas as noites e madrugadas?
Quem haverá de segurar tuas mãos nos momentos de dor
E nunca te dirá – mais tarde, pois agora ocupo-me de mim?
Quem te enviará versos falando
De uma paixão ardente que abrasa a vida
Rompe o tempo e apaga a distância?
Quem mais te fará os versos que eu te fiz?
Tudo é nada
Era a lama da barranca que nunca se secava ao sol
Era o barro da beira do rio que nunca voltava à água
Era o mato verde que sempre se renovava na chuva
Era a mata intensa que distribuía verde para todos ao redor
Como a pétala de luz que se soltou de um olhar apaixonado
E qual uma estrela cintilou no ar até explodir em nova chama
Era a luz do sol trazendo calor para os corações frios
Era a luz da lua refletindo a tristeza do sol na noite quieta
A vida vive entre ondas, oscilando como oscilam as marés
E a calma que se enxerga pode esconder fortes correntes
A natureza guarda em si uma paz intensa e calada
Mas que pode se modificar a qualquer momento, sem aviso
Descem as águas com fortes estrondos em gritos de rios
E ressoam no infinito os trovões anunciando novas chuvas
E a cada novo dia nada mais é como sempre foi antes do hoje
Porque os olhos veem novas luzes, nada se repete, tudo se cria
E o vento, tão quieto, quase sempre invisível
Em seu momento chega e refaz tudo o que um dia existiu
Não há definitivo nem concreto nem acabado em uma vida
Porque até a própria vida não é definitiva, e se acaba
E tudo, na verdade, foi feito da lama da barranca
Que a água desfaz e se mistura na correnteza do rio
E chega ao mar sem memória do que um dia quis ser
Poesia da casa – Se acaso pretende voltar

Não tranque as portas. Não levante muros.
Não destrua as pontes. Não apague caminhos.
Deixe seus sinais nos lugares por onde passar
Deixe sempre suas lembranças nas pessoas
Conserve suas trilhas abertas e os atalhos limpos
Porque um dia você foi. Fechou a porta e partiu.
Atravessou tantas pontes, cruzou algumas fronteiras
Passou por tantos lugares impensados
Encontrou muitas pessoas desconhecidas
Seguiu por trilhas surpreendentes, atalhos perigosos Mas você foi. Deixou tudo para um dia ir.
Nada o atraiu. Nada o chamou. Nada o prendeu.
E poderá, por isso, um dia querer voltar.
E, num ímpeto, em sentido contrário caminhará
Buscando o inverso das trilhas, a bifurcação dos atalhos
Revendo aquelas mesma pessoas pelas quais passou
E passará as mesmas fronteiras, terá as mesmas pontes
Voltando pelo mesmo exato caminho da ida
Até encontrar aquela mesma porta por onde já saiu.
Nem precisa bater, se você não a trancou quando se foi
Bastará empurrá-la, e entrar, quando voltar.
Dia de Poesia – Pablo Neruda – Parto

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
…Do teu coração me diz adeus uma criança. E eu lhe digo adeus.
Texto de Antonio Maria – Café com leite
É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.
Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros! Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com quem empresta as chaves.
Para os chamados “grandes homens”, a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher, que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada, e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.
Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do dever cumprido.
No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga… tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.