Copos vazios

Colocou os dois copos sobre o granito frio da pia. Não conseguiu se afastar, ficou ali, como em transe, olhando para os copos vazios.

Delicadamente correu os dedos pelas bordas. E sentiu o cheiro do fim da bebida que ainda havia no fundo do copo.

Dentro de si também ainda havia o perfume do que se fora, de tudo o que sonhara, de um passado que agora estava definitivamente terminado. Quando o viu chegar não conseguiu conter uma alegria dentro do peito, acreditando que tudo voltaria a ser como antes. Não havia razão para se separarem. Mesmo ele estando errado, ela já o perdoara. Era mais importante mantê-lo em sua vida.

Conversaram muito. Ele admitiu que errara, que não devia ter se comportando como um moleque inconsequente, a ponto de destruir uma relação tão bonita. Estava visivelmente arrependido. Ela via crescer sua sensação que voltariam a ficar juntos.

Porém, a conversa tomou outro rumo.

E ele disse que nesses dias separados, pensara muito em tudo o que aconteceu, o que esperava ou não da vida, que na verdade repensara toda sua vida. E tomara uma decisão definitiva.

Estava indo embora.

Resolvera aceitar uma proposta que já pairava em sua vida há algumas semanas.

Portanto, viera apenas para se despedir porque não queria ir embora como quem foge. Não estava fugindo. Apenas recomeçando.

Terminou o whisky, deu-lhe um abraço e se foi.

Restaram na sala um coração cheio de dor e dois copos vazios…

Dia de poesia – Miguel Torga – Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

De saudades e esperanças

Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades ou de esperanças. (Camilo Castelo Branco)

                         

Desafio do dia: interpretar essa frase, gravada acima, do grande escritor e poeta português, dirigida aos poetas.

Já registro, de início, que concordo, em parte, com o poeta lusitano.

Quem tem alma vazia de emoções ou cheia de materialismo, jamais conseguirá compor um único verso de uma estrofe.

Saudades e esperanças – exatamente o que alimenta a alma dos poetas.

Mas daí surge a dúvida: por que Camilo Castelo Branco diz “saudades ou esperanças”?

Ter saudades é incompatível com ter esperanças? Por que não saudades E esperanças?

Nesse particular eu discordo do talentoso escritor.

Sou poeta.

E minha alma é plena de saudades e de esperanças.

Porque ter só saudades, sem ter esperanças, fatalmente levará à desesperança. Que é mais que o simples desespero que causou o trágico fim do poeta português.

Isso porque a saudade nos isola, tira a realidade, deixa-nos sós, à beira do precipício.

A saudade, composta apenas de ausência, é o maior tormento de uma alma.

É o nada ao qual nos apegamos para não morrermos de desespero. Quando não resta mais nada, vem a saudade ocupar os espaços abandonados em nosso ser.

E se formos apenas saudade, não teremos outro futuro senão mergulhar no escuro vazio à nossa frente.

Mas, se ao lado da saudade, mantivermos a chama da esperança, tudo muda.

Porque a esperança é o oxigênio que mantém acesa a última vela no escuro do coração.

A função da esperança é manter vivas as brasas sob as cinzas da saudade; alimentar a vontade de viver.

Esperança é o fio que nos prende à vida e impede que nos lancemos no precipício do desespero, do abandono, da saudade.

Somente a esperança nos faz sobreviver à derrocada da solidão e da saudade.

Ouso, então, Poeta, por mais que respeite seu legado – por minha experiência de escrever, eu também, meus versos, e trazer a alma inundada de saudades e algumas esperança – corrigir sua frase: “Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades E de esperanças”.

Dia de Poesia – Roberto Ferrari – Apaixonados

Somos dois loucos apaixonados
Vivendo em nosso mundo de amor,
Longe dos percalços da vida…
Como se fôssemos para o nosso paraíso
Onde o cantar dos pássaros e o murmurinho da cascata nos fazem companhia.
Beijos e carícias
Tomados de amor.
Nada importa,
O que importa é essa vontade
De ficarmos juntos,
Onde só o tempo nos persegue,
E nosso único refugio são as estrelas e a lua
Testemunham nossa paixão;
Paixão que aflora em nossa pele
E só temos ouvidos para as juras de amor,
E pensamentos de ficarmos eternamente juntos
Nesse paraíso encantado,
Onde as ondas da paixão
Vem e ficam,
Porque somos dois loucos…
APAIXONADOS!!!
Amo-te para todo sempre!!!

Dia de Poesia – Miguel Torga – Poema Melancólico a não sei que Mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos

Destes anos de vida que passaram;

Nos meus versos ficaram

Imagens que são máscaras anónimas

Do teu rosto proibido;

A fome insatisfeita que senti

Era de ti,

Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,

Conto as desilusões no rol do coração,

Recordo o pesadelo dos desejos,

Olho o deserto humano desolado,

E pergunto porquê, por que razão

Nas dunas do teu peito o vento passa

Sem tropeçar na graça

Do mais leve sinal da minha mão… 

 

Inferno

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate

Diz o grande poeta Dante Aligheri que esta frase está na entrada do inferno – “Abandone toda a esperança vós que entrais aqui”. Não sei se o inferno tem entrada, muito menos se na entrada tem placa. Nem pretendo conferir.

Mas não nego que essa frase é instigante.

Sou movida a esperança. Esperança + perseverança = minha caraterística mais forte.

Poucas vezes desisti de algo. E não é bem desistir. Sou enxadrista. Às vezes chegamos em um ponto que a única saída é deitar o rei. Mas antes todas as tentativas foram feitas, todas as estratégias aplicadas.

Aí diz o Poeta: abandonai toda a esperança… Por que? Talvez porque ele pense que o inferno só tem a porta de entrada. Talvez porque ele vivia em algum inferno e não via saída.

O inferno não é no subsolo da vida nem da morte. O inferno é aqui.

Há pessoas que se especializam em tornar a vida dos outros um inferno particular. E há pessoas que permitem que outras tornem sua vida um inferno.

Aí tem mesmo de abandonar toda esperança se não tiver coragem para romper esse círculo vicioso de dominação.

Mas quem não desiste sabe que até no inferno há de ter uma porta de saída. Uma forma de se livrar das correntes que o prendem lá.

Esse inferno, que acontece nesta vida, e acredito ser o pior de todos, tem sim, uma porta de saída.

E uma palavra mágica que abre essa porta: “BASTA”. É só dizê-la. E não desistir antes e perder a esperança.