Ressignificação

calma (s.f.)

é aquilo que me passa a sua voz. é quando o coração acha conforto. é a alma acomodada no próprio corpo. é respirar de um jeito bom. é fruto que se colhe de bons conselhos. é quando a gente olha para a nossa essência, não para um espelho. é se importar de menos com quem quer demais da gente.

é alma com c.

sorriso (s.m.)

é quando a felicidade transborda pelo rosto. é quando eu sei que estamos bem. reflexo do nosso coração quando vemos alguém especial. objeto utilizado para evitar perguntas desnecessárias sobre nossa vida quando estamos mal. o seu é tímido, o meu é desbocado, mas se a gente sorrir junto vira poesia.

é a roupa mais bonita do nosso rosto.

distância (s.f.)

é o que tem entre Brasília e Juiz de Fora. é grande demais para caber em mim. aquilo que inventaram para separar a gente. relativo ao tempo. é o que faz o perto ficar longe. espaço que o avião atravessa para a gente se encontrar. quando criança, media em passos, hoje meço em dias.

é lenha que aumenta o fogo da saudade.

 

(de “o livro dos ressignificados”, de João Doederlein)

Como um barco

 

 

Como se eu fosse o barco no meio do mar

Que navega em círculos e mais círculos

Vendo as luzes do cais ali tão perto

Mas não pode dele se aproximar

 

Cruzei os mares e ancorei em outros portos

Vi outras paisagens e me perdi nas ondas

Fui levada pelo vento e vencida pelo cansaço

Tantos perigos, tantos dragões enfrentei

 

Como se fosse um barco ao sabor do mar

Embalei minhas noites nas calmas ondas

Atravessei dias de fortes tempestades

Vi em mim o sol nascer e também o por-do-sol

 

O mar calmo era sempre o mais perigoso

Os ventos, as rochas, os naufrágios

Tudo era sobressalto, era medo, era difícil

Mas a marola me acalmava e embalava

 

Olho agora esse cais a minha espera

Vejo que existe, é sólido e está aí

Sei que não posso me aproximar, mas tento:

Eu sonho, eu quero, eu preciso atracar

 

O cansaço de tantas travessias vividas

De tantas decepções sofridas e

Tantos amores já mortos ou perdidos

Mostra que você é meu cais, é meu porto

 

Estou presa por grossos fios invisíveis a

Um barco à deriva, sem remo e sem leme

E um vento indizível me impede de ir

Sofro sozinha aqui, entre as ondas e o vento

 

Quantas batalhas enfrentei sem ganhar

Quantas derrotas suportei nesses mares

Mas consegui, de algum jeito, sobreviver

E agora avisto meu cais, meu velho porto

 

À espera de um momento mais acertado

Em que eu possa finalmente me aproximar

Levar meu barco até seu cais tão sonhado

Jogar minhas cordas e em ti descansar

 

Pequena brisa

Pequena brisa que queria ser vento

Soprava forte, soprava alto

Mas nada conseguia derrubar

Nem as folhas das roseiras secas

Buscava toda a força dentro de si

Mas seu sopro, sem calor suficiente

Não bastava para torná-la vento

Então a pequena brisa entendeu

Que precisava crescer para ventar

E crescer implicava em se apaixonar

Amar, perder e então sofrer

Porque se não sofrer não vai crescer

E a pequena brisa, entristecida

Recolheu-se no abrigo da grota

E ali chorou por se sentir tão fraca

Ela, que queria ser tão grande

Chorou tanto que a grota umedeceu

Solidária também chorando a pequenez

Da gentil brisa que ali se abrigava

Dentro da grota úmida e triste

A pequena brisa não percebeu

O quanto crescia em seu sofrimento

Até explodir em si a necessidade

De se lançar no espaço inteiro

E então compreendeu, que finalmente

Era um forte vendaval, que tudo carregava

Transformara-se, assim, no vento que sonhava ser.

Dia de Poesia – Os Ombros Suportam o Mundo – Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos

edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas sem mistificação.

No trânsito

Um milhão de preocupações. Enquanto espero o semáforo ficar favorável, mentalmente faço a lista do que já fiz e do que ainda falta fazer. A fila anda. Dez metros e para tudo de novo. Sinal fecha novamenteo. O dia é curto para tanto afazeres. Preciso ir ao banco, ao correio, ao cartório, à fisioterapia, ao mercado, almoço para fazer… e parada no semáforo, como se estivesse tudo feito a tempo…

Vida moderna. Só se corre. Não importa sua disposição. Sua necessidade. Sua vontade. Seu tempo não é seu. O que importa é dar conta de tudo.

No veículo ao lado, emparelhado com o meu, a garota-motorista canta a plenos pulmões junto com a música que toca em seu carrinho moderno e lindo.

Linda ela também. Além da beleza própria da juventude, a alegria do canto e a liberdade que deve estar sentindo em seguir sua vida dirigindo o próprio carro – sinal que já está começando a dirigir a própria vida – lhe dá um plus em beleza.

Fico encantada vendo sua leveza e sua alegria. Parece se divertir com o engarrafamento. Ou não tem horário para chegar, ou não tem compromissos para cumprir.

Apenas curte o momento. O trânsito parou? Ótimo momento para se cantar, parece pensar.

E canta. E com a mãos segue o ritmo batucando sobre o volante.

Não sofre de passado mal resolvido, não sofre de futuro que não está conseguindo resolver. Apenas vive o presente. E o presente é um baita engarrafamento causado por obras na pista e excesso de veículos circulando.

Ela está certa. Não dá para sair voando. Não se pode passar por cima dos outros. O jeito é curtir o caos.

Ligo minha música, uma hora conseguiremos sair desse trecho congestionado, e, mais contida talvez pelos anos já vividos, canto internamente…  

Abelha ou escaravelho?

Não sou como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor. Sou como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e abafado neste aperto supremo, morre entre os braços da flor que elegeu. (Roger Martin du Gard)

Leio essa frase e começo a pensar sobre seu significado.

Quem é abelha, quem é escaravelho?

Pela leveza, beleza, pela doçura que produz, a abelha parece mais atraente. Pela alegria do voo, pela diversidade de flores com que se relaciona, pelo companheirismo que existe na colmeia – nunca se viu uma abelha abandonada, morando sozinha num favo, morrendo de solidão, aparentemente a vida da abelha é bem mais confortável.

 

Do outro lado temos o feio e pesado escaravelho. Que, logo à primeira vista, assusta. Causa asco e pavor.

Que bicho feio!

Antissocial – prefere se enclausurar e morrer de tristeza, privações e solidão dentro de uma única rosa.

Parece tão simples a escolha: ser abelha é viver feliz, trocar de parceiro para buscar novo néctar na vida sempre que desejar, viver em uma feliz e pacífica comunidade, onde todos se unem ao esforço comum de produzir mel. Que beleza!!!!!

Como a vida seria simples e bonita se fôssemos abelhas!

Mas, na verdade, nós preferimos ser escaravelhos. Nossas escolhas sempre nos levam a essa opção.

Quando nos apaixonamos, ficamos cegos ao mundo. Entramos na nossa paixão, a elegemos como a “nossa rosa” e ali ficamos. Não conseguimos ter discernimento suficiente para perceber quando essa paixão minou, acabou, nada mais nos oferece mas tudo nos suga.

Não nos damos contas das pétalas da paixão agonizante se fechando sobre nós, abafando, estrangulando, tirando nossa capacidade de respirar.

E insistimos em permanecer num relacionamento falido, que tira nossa alegria de viver, que nos faz desistir da vida tentando recuperar um sentimento que não mais existe.

Porque o encanto da paixão só acontece uma vez.

Quando vimos a “nossa rosa” e nos atiramos, e a amamos, e morremos de paixão por ela, era um sentimento vivo, que nos dava a vontade imensa de viver e curtir essa realidade tão maravilhosa.

Mas na hora que a paixão ficou só com o escaravelho, e a rosa apenas o suga e abafa até a morte, deixando de ser flor e se tornando serpente com seu abraço fatal, não compensa insistir em continuar carregando esse espectro do que um dia foi a razão do próprio viver.

E concluo, então, que por mais que queiramos ser abelha, quando a paixão nos cega, na verdade, nos tornamos, por livre e espontânea vontade, o escaravelho que morrerá nos braços de sua rosa.