Metamorfose

Vivia encolhida, sem luz, sem ar. Presa na armadilha que o destino lhe preparara. A insegurança a dominava, limitada ao escuro da existência sem futuro, sem alegrias.

Mas, em seu âmago, crescia um sentimento novo: uma paixão ardente, descontrolada, que, naquelas condições, não podia ser vivida.

Subitamente sentiu que era hora de romper com tudo que a limitava. Porém, enfrentar o desconhecido poderia significar sua morte. Não podia ter certeza se sobreviveria.

                                            

De certa forma, morreu ali mesmo, porque, ao romper o casulo que a prendia, a pesada lagarta, feia e disforme, perdeu sua existência, no exato instante em que, colorida, leve e cheia de alegria, a linda borboleta alçou seu primeiro voo.

No dia em que nos separamos

No dia em que nos separamos o sol brilhava

E pássaros inundavam o ar com seu canto delicado.

Naquela noite a lua, insensível, surgiu radiante

E reinou soberana liderando o séquito de estrelas brilhantes.

E as flores da noite se abriram e perfumaram os caminhos.

As aves, amantes, aos pares se recolheram aos ninhos,

E o vento soprou mansinho, apenas leve brisa a acalentar as folhas.

Nada, nem ninguém, viu meu desespero, tanto sofrimento;

Lágrimas escondidas misturadas ao sangue corriam em minhas veias,

Não houve dentro de mim qualquer alegria, qualquer alívio ou bálsamo

Somente a dor aguda de mais uma separação, que me inundava toda

E ocupava os lugares onde até então era só alegria, e sorriso, e êxtase.

Amanheceu um novo dia. A natureza não se abala com a dor alheia.

Como se tudo estivesse bem, o sol brilhou novamente.

Dia de Poesia – Alberto Caeiro – Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.

Meu coração

“Se for caminhar no coração do outro, recomendo que vá descalço. Coração é solo sagrado”

Hoje li essa mensagem. E fiquei pensando.

De que é feito meu coração? Não esse órgão que mecanicamente pulsa e bombeia o sangue, tudo fisiologicamente explicável e controlável.

Falo do centro da minha paixão, o que pulsa e bombeia sentimentos, emoções. Tudo o que me tira o chão, me eleva ao céu, me mostra o inferno, me faz sentir, me traz alegria, me faz triste, descarrega toda essa adrenalina, desperta o desejo, faz querer viver – ou morrer…

Pergunto, novamente: de que é feito meu coração?

Meu sofrido coração é um caminho encantado. Nem todos que por aqui passaram mereciam caminhar nesse solo sagrado.

Ele é pavimentado de nuvens de carinho. Fontes inesgotáveis de ternura o mantêm aquecido. E os pés que o percorrem são abençoados e acolhidos no amor.

Mas é muito sensível. Sempre pronto a sangrar, ao menor descaso. Como uma taça prestes a entornar, tudo o machuca e transborda.

A cada dia que passa mais ele se torna vulnerável. As desilusões o tornaram assim. Sofrido. Dilacerado. E, o pior de tudo, é que ele está se fechando. Já não quer outros pés aqui caminhando, aqui buscando luz e calor, para depois se ir subitamente, deixando-o vazio de amor e preenchido de velhas marcas de pegadas.

Porque quem se foi não se preocupou se estava deixando suas pegadas para sempre fixadas nesse piso de nuvens e amor.

E agora esse velho coração se confunde, doído e marcado, por tantas ingratidões que o atravessaram.

Quando caminhei pelos alheios corações talvez também tenha sido ingrata e saído sem me despedir, deixado marcas entristecidas da falta de carinho. Não foi intencional.

Mas acho que agora será difícil que voltem a caminhar nesse meu coração. Porque ele, cheio de amargura, se fecha para novos pés. Ainda que doces, leves e amorosos. Os caminhos se esgotaram.

Da música

O que seria da vida sem música? Mas Música de verdade, com M.

Estou assistindo, pela milésima vez, aos concertos do violoncelista Hauser – em Zagreb e em Pula, Croácia, sua terra natal.

Simplesmente encantador. Fascinante.

Você se deixa transportar e consegue ir junto com a melodia.

Orquestras maravilhosas. Músicos dedicados.

Não resta qualquer dúvida que a melhor música do mundo e os melhores profissionais são do leste europeu. Eles nasceram para a música verdadeira.

Logo que acabou a URSS eu fui conhecer o lado de lá da “cortina de ferro”. Lembro-me de uma tarde em Bratislava. Eu estava apaixonadamente encantada com aquele povo. Lindos, gentis, extremamente pobres em sua maioria. O comunismo saqueara e explorara o país e o povo. Quando acabou, quase nada restava aos povos. Mas a vontade de refazer o país era grande e eles lutavam para o reerguerem. E o fizeram, sendo atualmente um país próspero. Mas estive lá em outro tempo: menos de um ano depois do “divórcio de veludo”.

Esse dia, de calma para ficar flanando na linda capital, pude presenciar turmas de crianças nos horários de entrada e saída da escola. Todos uniformizados, andavam pelas ruas e praças, carregando seu material escolar E um instrumento.

O que mais me chamou a atenção foi ver as crianças levando seus instrumentos musicais. Violões, flautas, violinos, celos, praticamente todos portavam um estojo de um instrumento. Ou seja, a música era matéria curricular do ensino fundamental.

Quase todos os grandes compositores imortalizados na arte pura da música erudita nasceram nessa região do continente Europeu. E os povos ainda cultivam a música naquelas paragens.

Basta assistir a um concerto e se entende o valor que dão à música. O público comparece massivamente ao local. Crianças pequenas, adolescente, jovens, adultos, idosos. Todos assistindo com atenção e educação. Valorizando a música como arte e expressão de união. Porque são as mesmas sete notas que compõem todas as melodias conhecidas. Todos os povos do mundo falam a mesma língua quando se trata de música. Há uma única escala, independe da sua representação.

Enquanto flutuo com a angelical música apresentada no concerto, tenho de suportar a modinha que algum vizinho obriga a todos escutarem, na sua festinha aqui no salão na frente de casa, mostrando a falta total de nível da educação que recebeu.

Esse é o lado triste da vida…

 

Dia de poesia – Os versos que te fiz – Florbela Espanca

OS VERSOS QUE TE FIZ

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.

 

Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder…

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

 

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei…

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

(Florbela Espanca)