Diante de mim, a escuridão. A voragem
Que não tem cimo e que nem sequer tem margem
Lá estava, sombria, imensa; nada nela mexia.
Perdido no mundo infinito eu me sentia.
Ao longe, através da sombra, impenetrável véu,
Entrevia-se Deus, pálida estrela no céu.
Clamei: – Ó alma, alma minha! eu precisava,
Para atravessar o abismo cujo fim não vislumbrava,
E para durante a noite até Deus eu ascender,
De construir uma ponte e em mil arcos a estender.
Quem o conseguirá? Ninguém!ó dor! tormento!
Chora! – Um fantasma branco ergueu-se no momento
Em que à sombra um olhar de temor eu deitava.
A forma de uma lágrima esse fantasma mostrava;
Tinha uma fronte de virgem e duas mãos de criança;
Lembrava um lírio que toda a brancura alcança;
As suas duas mãos juntas acendiam uma luz.
Apontou o abismo onde tudo a pó se reduz,
Tão fundo que nem o eco aí segue a sua lei,
E disse-me: – Se quiseres, a ponte construirei.
Para o desconhecido ergui meus olhos do chão.
-Como te chamas? perguntei. Respondeu: – A oração.
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
É assim que é
O que é mais bonito – ver a montanha da planície ou escalar a montanha e ver a planície lá do alto?
Acredito que a montanha vista da planície é a visão mais linda que se pode ter da montanha. Mas escalar a montanha dará como prêmio, a vista da planície e do horizonte.
São ângulos completamente diferentes. Não é possível comparar.
Deitar na grama e olhar o céu, o leve movimento das nuvens, fitar o azul profundo. Não é a mesma visão que se tem de quando se está “no céu” – as nuvens são diferentes. A Terra não é de uma só cor.
Quando um olha para o mar, vê o mesmo mar que o outro está olhando? Ou enquanto um olha as espumas, o outro só vê a linha que o separa do céu?
Assim é a vida. O que um vê não é o que o outro vê. Mesmo que estejam, lado a lado, olhando para o mesmo objeto.
A experiência, as dores, os amores, as frustrações e as alegrias de cada um o faz ver tudo de forma personalizada. Cada um vê o que olha e não pode enxergar o que o outro vê.
Por isso tão difícil a convivência.
Não se pode esperar receber o que se dá – seja amor, seja atenção, seja carinho. E nunca se sabe o que o outro espera.
Coisas indizíveis, que se quer sejam dadas por mera adivinhação.
E a quebra das expectativas aumenta a cada dia.
As pontes se vão na torrente das pequenas desilusões, que, unidas, fazem caudaloso rio.
As portas se fecham.
E a distância se impõe.
Como a nuvem que se dissipa lenta e quase imperceptivelmente, a paixão se esvai. E um dia se percebe que todo aquele tsunami de sentimentos desapareceu, ficou só o fundo azul do céu, que já escurece no prenúncio da noite existencial.
Em busca de ser feliz
Era tanta tristeza, que um dia a vida me falou: “é hora de ser feliz! Venha!!!!!”
E fomos em busca da felicidade.
“Para se sentir feliz, em primeiro lugar é preciso ter paz”, disse ela. Escalamos montanhas, atravessamos desertos e vimos o sol nascer na África.
Vimos o sol se pôr no Oceano Pacífico.
Vimos a lua entre as montanhas dos Andes.
Ficamos no branco eterno do Mont Blanc.
No silêncio do voo do Condor.
E encontramos a paz.
Com o coração em paz era hora de continuar a busca pela felicidade.
“Para se sentir feliz, também é preciso ter os olhos preenchidos de beleza”, ela disse.
Fomos para a praia ao amanhecer. Caminhamos na areia ainda úmida. Quando o sol se levantou e aqueceu a imensidão de água, ali mergulhamos e nos deixamos levar pelo mar, doce amigo tão salgado.
Os olhos se enchiam das maravilhas daquele mar sem fim. Era hora de partir e ver a natureza pura, as cores da terra e das matas, e “l’aurora di bianco vestita”.
“Para ser feliz é preciso ouvir a música da natureza”, ela falou.
Fomos para floresta. O barulho dos animais noturnos, o chilrear dos grilos e os gritos das corujas, a algazarra dos animais do final da noite e então o canto dos pássaros no alvorecer. A alma estava em paz…
“Para ser feliz é preciso dançar”, ouvi então.
E fomos para a Grécia onde dançamos o hasapiko, percorremos toda a costa do Mediterrâneo, entramos na Itália, aprendemos as danças napolitanas, fomos para o norte, dançar com os cossacos e depois à Baviera aprender a dançar holzhacke.
Chegamos às Américas, aprendemos dançar rumba, samba, tango, salsa, bolero e mambo…
E enquanto dançávamos, cantávamos, ríamos e nos divertíamos.
E foi tanta alegria, nessa busca da felicidade, que eu me esqueci porque estava triste.
Como eu te amo
Eu te amo
sem orgulho
sem esperança
Como o mar ama a montanha
sem jamais a alcançar
e, por suas ondas, incessantemente,
tenta chegar a seus pés
Eu te amo
Com desvario
Com insanidade
Como a lua ama o sol
Sem jamais encontrá-lo
E sem temer o abraço fatal
Que os fundiria irremediavelmente
Eu te amo
Sem vaidade
Sem egoísmo
Com um amor que não tem brio
que sufoca a dignidade
e se basta a si mesmo
Eu te amo
Com loucura
Com paixão
Nesse doce devaneio
Que é apenas insanidade
Esse constante delírio
De inquieta alucinação
Hoje é dia de poesia -Miguel Carlos Vitaliano – Café da manhã
Nesse “dia de poesia” trago um poema do Miguel Carlos, meu querido amigo Carlucho, do livro “Outro livro”, 2006:
Migalhas de vida esparramados na mesa
Cacos de um destino a rasgar a toalha
Lágrimas de dor umedecem o ambiente
E um ar impregnado de ausência
faz perceber a saudade no ar.
De um lado uma cadeira apara
o corpo do poeta
Do outro, outra cadeira
apara o nada.
A fome de amor invade a alma.
Pesa na penumbra da manhã cinzenta
um olhar de adeus, um aceno de mão.
E um insuportável vazio
toma conta da mesa posta.
Fim
Não sei se as palavras já não bastam
Ou se elas não mais são necessárias
O silêncio trouxe a distância
Que mantém separadas as paralelas
Essas linhas que tanto se querem
Mas só se encontrarão no infinito.
Onde fica esse infinito? Não se sabe
A paixão, tão ardente, mina em lágrimas
Que teimam em brotar nos olhos
De quem se viu em outros olhos
Ardem as mãos no vazio
Da falta das outras mãos tão queridas
O nada se impõe e domina
A vida se esvai nos fiapos
De um passado distante
De um amor mal-resolvido
De uma paixão não vivida