Tempos de peste

Acordou no meio da noite, ao ouvir o barulho de passos. Devia ser o filho chegando. Sentiu frio ao se levantar da cama. Vestiu um roupão e saiu do quarto. A casa continuava escura.

Os caminhos eram tão familiares que nem precisava acender as luzes. Foi até o quarto do filho. Vazio.

Desceu a escada, onde havia a lâmpada automática, e entrou na sala escura. Copa escura. Cozinha com as luzes apagadas. A casa era a própria escuridão.

De quem seriam os passos ouvidos?

Voltou para a sala. Agora não queria mais dormir.

Deitou-se no sofá. Cochilou. Acordou ouvindo passos. E gritos.

Eram os meninos chegando da escola. Animados, corados, suados da correria pela calçada. Jogaram as malinhas num canto e correram para a copa.

“Mãe, tô com fome”.

– Sai da mesa, filho. Vai lavar as mãos, o rosto e se pentear. Abotoa a camisa que aqui não é casa de soldado. E você, tira esse boné para se sentar à mesa. Já lavou as mãos? E você, senta direito, parece que não tem ossos no corpo”

Então, todos prontos, sentaram-se à mesa para o almoço.

O dia estava frio. Muito frio. Ela pensou em ir até o quarto pegar uma blusa mais grossa, mas achou que iria se esquentar quando começasse a arrumar a cozinha, limpar chão, voltar ao serviço de todo dia.

Ouviu sua própria voz dando todas as ordens aos meninos.

E eles obedeciam. Às vezes resmungando, mas obedeciam. Sentavam-se, rezavam, e comiam. Era um momento íntimo entre mãe e filhos. O pai só estava à mesa na hora do jantar. Quando os interrogava sobre o dia, a escola, os colegas, o que aprenderam, do que brincaram. E então o pai contava histórias, de seu próprio pai, de seu avô e de tantas pessoas da família, que parecia pertencer a alguma família de romances, tantos eram os personagens.

E os meninos riam. E perguntavam. E participavam.

Eram uma família.

Com amor e orgulho ela olhava para os três filhos. Meninos de ouro. Ela sabia que seriam homens sérios. Bons. Trabalhadores.

O silêncio foi cortado por barulho de passos.

Ela acordou assustada. Era madrugada, ainda, estava deitada na sala escura. Gelada de frio. E não havia ninguém em casa.

Percebeu que sonhara.

Isso era saudade. Do marido, dos filhos, da vida que um dia tivera. Da casa cheia, bagunçada e barulhenta. Porque era uma casa viva.

Agora tudo ficava na penumbra. Nada saía do lugar, porque ela ficava quase sempre na cama, sem vontade de se levantar. Ninguém mexia em nada, ninguém usava nada.

Lembrou-se da angústia que sentiu na época da peste chinesa. O marido chegou gripado do trabalho. Depois de dois dias começou a passar muito mal. Necessitou ser hospitalizado. Não resistiu. E eles foram postos em isolamento. Souberam que havia uma peste dizimando a população.

Os gêmeos, asmáticos, morreram duas semanas depois da morte do pai.

Eles, que antes eram cinco, em menos de quinze dias se tornaram dois. Duas almas penadas andando pela casa, atônitos, assustados, sem entender o que estava acontecendo.

Cadê nossa família? Perguntavam um ao outro, aflitos, e se abraçavam chorando.

Foram meses e meses, que se transformaram em anos de isolamento. Vizinhos traziam alimentos e deixavam na escadinha da entrada. Ninguém podia se aproximar de ninguém. As notícias mais terríveis chegavam de todos os lados. Muitas pessoas morrendo. Em algumas casas do quarteirão onde moravam, simplesmente as luzes pararam de se acender, e o mato cresceu abafando as rosas dos jardins. A família morrera. Ninguém comprava propriedades. Ninguém visitava familiares. Os telefones se tornaram, depois de alguns meses, objetos inúteis, porque não havia mais a quem ligar.

Pela internet ainda se comunicavam. Depois, foram parando de se encontrar virtualmente. E o aparelho foi deixado sem carga, porque só era usado para avisos do governo, mandando ficar em casa.

Sua vida era dormir, rezar e chorar.

O filho se tornou um rapaz triste. Apático.

A casa envelheceu entristecida.

Não sabia quanto tempo ficou proibida de sair.

E, no dia em que o carro de som passou na rua avisando a população que finalmente podiam voltar à vida, já não havia mais vida para voltar.

A cidade era um deserto. Muitos que não morreram da peste, morreram de fome ou se mataram, porque não podiam sair, não podiam trabalhar, perderam o controle sobre as próprias emoções.

Ela saía algumas vezes, mas não se sentia viva.

Outras pessoas foram chegando, ocupando as casas vazias, reabrindo o comércio.

O filho saiu um dia, pela manhã. E não voltou. Ela esperou. E esperou. E ainda esperava.

Já nem sabia há quantos anos.

E ouvia seus passos. Ele andava pela casa. E ela o procurava, mas não o encontrava. Só podia ouvir seus passos.

Herói de verdade

Escrevi esse texto em 27 de março de 2011, quando testemunhei todo o desenrolar da ação. Conversei com o nadador que salvou o garoto, enquanto esperávamos o resgate. Ele foi levado, exausto e ferido, para o hospital. Vi que os verdadeiros heróis são anônimos. Mas com um senso de humanidade e solidariedade acima da média. 

 

Ilha Pompeba, Guaruja | Ou Ilha do Tony, em homenagem a surf… | Flickr

Caminhava na linha do mar esta manhã quando foram ouvidos gritos de socorro. Todos que estão na praia param, para tentar avistar quem pede ajuda, e logo se vê um garoto que pede socorro, sendo arrastado pela correnteza, para os lados da ilha Pompeba. 

Não há guarda-vidas por perto, estamos na baixa estação, o pessoal extra já foi dispensado. Começa o ajuntamento de pessoas, que entre apavoradas e fascinadas assistem o mar levando o garoto. Será que pensam que isso é filme holliwoodiano e que no fim tudo sempre acaba bem? 

Um banhista começa a nadar em direção ao garoto. Não dá para ver se o alcançou. Ambos somem atrás das altas ondas. Em mais ou menos um minuto a um minuto e meio, alguns guarda-vidas chegam correndo, entram no mar, vão para o local onde por vezes apontam que os dois sumiram. 

De repente parece que ambos estão quase na ilha. Lugar muito perigoso. O mar hoje está bem agitado. Claríssimo, verdíssimo, ondas de espuma muito branca, mas com uma correnteza forte, puxando bastante.

 Cinco guarda-vidas munidos de boias estão próximos dos dois – o banhista não soltou o garoto – e tentam tirá-los da correnteza com auxílio ainda de dois anjos surfistas com suas pranchas. Naquele local há umas armadilhas – você não tem como sair do lugar, a correnteza impede qualquer tentativa de se distanciar da ilha ou ir em direção à praia. Há três ou quatro semanas assisti, aqui de minha sacada, a retirada de uma garota morta, encontrada pelos mergulhadores – vinte anos de idade, viera passar o final de semana aqui com o namorado. Não viveu para voltar para casa. 

Finalmente chega o bote – sei que não demoraram, mas o desespero de ver a luta inútil do banhista que segura o garoto, dois surfistas com suas pranchas e cinco guarda-vidas com suas boias faz parecer que se passou muito mais tempo. 

O bote dá duas ou três voltas, consegue vencer marola e onda altas, passa dos que tentam salvar e finalmente se aproxima dos dois. 

Habilmente são içados para o interior seguro do bote, que vêm para a praia e os traz em segurança. Vivos. 

O garoto está bem, um pouco assustado. O herói anônimo que não hesitou em se lançar contra a correnteza para impedir que o mar levasse o incauto banhista, traz as costas feridas, os braços lanhados, de onde o sangue escorre e as mãos cheias de espinhos – para impedir que o menino fosse lançado contra as pedras da ilha, segurava-o de lado e com a outra mão tentava se afastar das pedras – com pontas e espinhos, que o feriam a cada tentativa – mas não impediram que mantivesse o garoto junto de si até serem salvos. 

Emocionante a atitude deste nadador – não conhecia o menino, apenas afirmou que ao ouvir os gritos de socorro e avistar o garoto sendo arrastado, não parou para pensar no perigo, mas lançou-se em sua direção, para mantê-lo na tona até que o socorro viesse. 

Sem dúvida, um ser humano de primeira linha. Que Deus o abençoe!

Isolamento não é egoísmo

Moradores de rua enganam estômago com água e esperam horas no sol ...

Hoje entramos no 23º dia de isolamento. Para quem continua com seu rico dinheirinho no banco, a despensa e a geladeira bem abastecidas, é ótimo. E, principalmente, se tiver uma esposa ou mãe fazendo todo o serviço de casa. Que férias!!!!!!!!!

Não é o sentimento de quem está na outra ponta da canoa social. Com as prateleiras do pequeno armário já esvaziadas, a geladeira guardando apenas ar frio, o dinheiro ganho diariamente com o suor do rosto sem entrar, os filhos com fome, o futuro apagado… que sentimentos passam na alma dessas pessoas?

Aumentam geometricamente os pedidos de ajuda pela internet.

Grupos se formam para arrecadar dinheiro ou produtos.

Ainda que já tenhamos o hábito de ajudar entidades e instituições, agora a situação é emergencial. Nossos irmãos estão literalmente passando fome.

Os freis franciscanos, em São Paulo, forneciam 400 refeições/dia. Nessas últimas semanas essa fila aumentou para 2.500 refeições/dia. Eles não têm como fazer frente a essa multidão faminta. Frei Davi pede socorro.

Nós nos unimos e ajudamos. Dia a dia aumentamos a conta de quantas refeições podemos fornecer. Muitos ajudam. Graças a Deus nem todos os humanos são recheados de egoísmo e conseguem entender que a fome é a mais cruel tortura.

Outro grupo se forma para arrecadar fundos e fornecer cestas básicas para as famílias paupérrimas de crianças que eram atendidas em uma creche que está fechada. E as crianças sem as refeições diárias.

E vamos ajudando. Pedindo a todos que também colaborem.

Uma refeição custa R$ 8,00. Será possível que nosso igual não possa dispor de 8, 16 ou 24 reais/dia e dar comida a quem tem fome?

Ainda que nossos ganhos também diminuam em razão dessa crise, tenho certeza que ainda estamos melhores que esses desvalidos. Vamos dividir um pouco. Se tanto nos foi dado, talvez agora seja a hora de dividirmos um pouco.

Vamos ser mais humanos. Ou só sabemos fazer campanhas quando a mídia nos destaca, dia da criança, Natal dos pobres etc.? Não sabemos fazer caridade à moda de Cristo? Que sua mão esquerda não saiba o que doou sua mão direita?

E a compaixão – a capacidade de se colocar no lugar do próximo e entender o que ele sente – onde fica?

Será que o isolamento despertou o egoísmo? Se estamos em casa, por que não aproveitarmos para pensar nos outros, que talvez não tenham em suas casas nosso conforto, nossa “largueza”.

Tricotar cachecóis para distribuir quando começar o inverno. Fazer sapatinhos e casaquinhos para recém-nascidos e entregar em uma maternidade pública?

Não tem esses dons?

Grave textos, contos, livros e envie para entidades que atendem pessoas cegas.

Nem isso?

Faça pães e deixe em pontos públicos quando sair para ir ao mercado ou ao médico.

Conserte, recupere antigos brinquedos para doar. Faça brinquedos de pedaços de madeira, de garrafas plásticas. Faça móbiles para berços com botões, tampas de garrafas. Mas faça. Qualquer coisa. Ficar sentado olhando para a parede só porque estamos em quarentena não é certo.

Não acredito que haja uma pessoa tão inútil nesse mundo, que não possa ajudar com dinheiro, com as mãos, com a voz, com nada de si.

Um dia irá prestar contas de sua vida. E nada terá a apresentar ao Pai, a não ser sua total inutilidade.

Por mais maçante que seja esse período de isolamento, não podemos deixar morrer em nós o pouco de humanidade que nos resta nesse mundo egoísta e desumano.

Isolamento, vida e música

 

Em tempos de isolamento social, quantas pessoas estão absolutamente sozinhas em suas residências? Quantas estão separadas das pessoas que mais amam? Qual a verdadeira finalidade desse “confinamento humano”?

São tantas as questões, mas hoje não quero falar de doenças, de vírus, de tristezas.

Hoje quero celebrar a vida.

Quando celebramos a vida, dificilmente o fazemos em solidão. Mas com outra – ou outras – pessoa.

E qual o primeiro gesto desse ato? Exatamente, o nosso velho e conhecido abraço.

O abraço é exatamente aquele instante mágico quando duas pessoas se tocam, corações batendo junto e trocam e emoção do encontro. Em todos os níveis – desde se abraçar o filho que acaba de nascer até o grande amor de sua vida que desperta todos seus instintos.

E, se vamos celebrar com muitas pessoas, deixamos aberta a porta de nossa casa e vamos recebendo os abraços.

Um amigo chega trazendo um abraço e um vinho. Outro chega trazendo um abraço e pães feitos por ele no maior carinho. E assim continuamos até encerrarmos nossa festa de celebração da vida.

E se nossa vida fosse uma música? Qual música seria essa? Que abre a porta e nos deixa recebendo os amigos, um a um, e seus preciosos abraços, até a grande festa que ali acontecerá?

Sem dúvida alguma, seria o Bolero de Ravel.

Timidamente uma percussão será a abertura da porta. Que assim permanecerá até a saída do último convidado, depois de encerrada a recepção.

E todos irão chegando e entrando, num encontro mágico de sons, de convergências rítmicas, grupos que se formam, que se desfazem e se refazem entre outras pessoas.

Assim é o Bolero: aberta a porta, chega a Flauta transversal. Com sua delicadeza. Invocando a natureza. Com o Flautin e seu som suave.

E vêm as Clarinetas, que chegam quase junto com o Fagote e contra-fagote.

Quando os sons já estão montados, já temos uma melodia se formando, entram o Oboé, e o Sax tenor. Aí entra o Sax soprano e o sopranino. E a melodia cresce. E a festa vai se animando.

Com a chegada da Trompa, dos Sopros de madeira e do Trombone e da Tuba temos uma alegria contagiante em curso.

A percussão cresce. Aparece. O coração de todos e de cada um bate no ritmo do pulsar dos sons. Os celos se fazem ouvir.

Aí, no ápice da alegria, entram os timbales e os violinos. E a festa se completa. E se prolonga. Nossa animação parece não ter fim.

Até que a festa, como tudo o que existe, chega a seu fim. Encerra-se. A mágica se acaba. Vem o mesmo silêncio que a precedeu. E tudo volta a ser como era.

Exatamente como a vida. Nascemos quando abrimos nossa porta para a vida. E vamos nos encontrando, nos abraçando, festejando, até o momento final, que voltamos, sozinhos, para o mundo desconhecido e tudo volta a ser como era antes de nossa passagem.

Mas a diferença é que quando nascemos não temos memórias. Nós as construímos ao longo da vida, somando os sons dos diferentes instrumento e pessoas que nos tocaram e que nós tocamos durante a trajetória. Memórias dos abraços, das alegrias, das angústias. Até o derradeiro momento em que nos despedimos de tudo, em plena festa.

Acredito que Ravel celebrou apenas a vida através de sua música. Com sua riquíssima melodia, explorando o timbre, o alcance, a capacidade sonora de cada instrumento. Apenas a vida. E isso – a vida – é tudo que temos realmente de nosso, que nos é dado ao nascer e devolvemos ao morrer.

Mas não encontro, nessa obra magnífica, nenhuma pausa significativa. Nem um instante sequer de silêncio. Uma melodia pulsante desde a chegada da flauta.

Tantos abraços, tantos encontros. Até o final.

Então insisto – esse isolamento social e qualquer outra tentativa de “confinar” o ser humano é negar-lhe o abraço do outro, o encontro. É a negação da própria vida.

20º dia

O que é quarentena? - Brasil Escola

Estou começando a ficar preocupada com a quarentena.

Não com o coronavírus nem com a possibilidade de eventualmente contrair o bicho e ficar doente (nem morrer, porque, como sempre falo, de tiro, faca, pancada ou vírus, um dia terei de morrer).

Mas preocupada com as pessoas em quarentena.

Tenho conversado com diversas pessoas, das mais variadas idades, ocupações e posições. E verificado a disposição emocional de todos.

Tenho uma certa prática de entender distúrbios emocionais.

E vejo que a quarentena, por volta do vigésimo dia, começa a perturbar muitas pessoas. Talvez não só a quarentena, mas também a enxurrada de más notícias, idiotas metidos a jornalistas disseminando pânico e mentiras. Todos com saúde, mas com muito medo de morrer. Como se dona Ceifeira estivesse atrás da porta, esperando para dar o golpe.

E a cada dia mais notícias ainda mais alarmantes. Sem qualquer conexão com a realidade.

Por exemplo: o tal greenwald anunciou, através de seu intercept, há algumas semanas, que hoje, no dia 06 de abril, 5.571 (número dado com precisão cirúrgica, sem fonte) – cinco mil, quinhentos e setenta e um – mortos por coronavírus no Brasil.

Tentou ser o Orwell da modernidade. Falhou. Hoje é 06 de abril. Não temos 10% de sua porca projeção.

E gritaram, gritaram: FIQUEM EM CASA! ABRIL SERÁ TERRÍVEL. TEREMOS O PICO DE DOENTES E MORTOS.

E abril avança no tempo, há doentes, há alguns mortos, há curas… ou seja, tudo como em março.

Da porta para fora das casas. Porque, dentro da casa e de muitos dos isolados compulsórios, a coisa desanda dia-a-dia.

Todos os idosos em casa. Até dois meses atrás, eram incentivados a passeios, viagens,  academias, com a mentira de que viviam “na melhor idade”. E eu, também idosa, sempre me perguntava: melhor idade para que? Para ficar doente, para morrer? Porque a melhor idade eu a tive há trinta anos atrás, jovem, independente emocional e economicamente, no auge do sentimento de imortalidade.

Da mesma forma que nunca embarquei nessa ideia de melhor idade, agora não aceito do rótulo de pré-morta-pela-peste-chinesa. Fico em casa. Como sempre fiquei. Ainda que não concorde com a obrigatoriedade, e não me deixo contagiar pelo clima pessimista e alarmista do já-morreu.

Mas meus amigos, queridos, amados, próximos no coração, ainda que distantes geograficamente, não estão suportando essa solidão inusitada e compulsória.

Enquanto eu sempre fui solitária, 24 anos trabalhando em home office, sempre dentro do escritório de casa, mais de 10, 12 horas/dia, todos os outros andavam. Saíam para trabalhar, para passear, para bater rua, para ir a lugar nenhum. Mas ninguém dentro de casa.

Durante muito tempo eu morei em uma cidade que não me agradava. Para suportar, construí meu mundo – piscina, academia, sauna, sala de jogos, viveiro de pássaros, horta, pomar e jardim. Muros que mais pareciam paredes de tão altos. Muito verde e muito silêncio. E ali enfrentei mais de dez anos com os portões fechados pelo desprazer de morar na cidade, mas feliz com a minha casa. Não morava naquela cidade, morava na MINHA CASA.

Portanto, reafirmo que não tenho a menor dificuldade de ficar em casa, até gosto.

Mas sou da linha de Voltaire para tudo. Mesmo preferindo ficar em casa, defendo o direito de quem prefere passear.

Por isso, acompanho com preocupação a situação dos amigos – não daqueles que simplesmente ignoram a quarentena. Reclamam da situação, mas furam por qualquer motivo. Frequentam reuniões, saem para caminhar…

O que me preocupa de verdade são os que estão cumprindo rigorosamente o isolamento, ainda que muito contrariados.

Alguns trabalhando no sistema home office, mas em completo pânico, com a ideia de que todos os contaminados morrerão. Que a peste chinesa é pior que a gripe espanhola.

Alarmados de forma descontrolada. De máscaras dentro de casa. Dispensaram todos os funcionários e não abrem a porta.

Outros, o que é ainda pior, sem necessitar trabalhar, passam o dia na internet ou na TV vendo as notícias mais escalafobéticas e ficam apavorados com medo de morrer. Se as notícias correspondessem à realidade eu nem estaria mais escrevendo, pois não teria mais leitores. Todos estariam mortos de peste chinesa.

E penso que essas pessoas, atormentadas pelo medo, pela idade, pela solidão, não conseguirão voltar ao que eram antes. Porque uma situação de medo continuada não faz bem a ninguém.

A pressão de que estão à beira da morte, embora com saúde e se sentindo bem, deixará marcas.

Populações e grupos já foram submetidos a isolamento por medo. Sabemos as consequências psicológicas que restaram.

O homem nasceu para a liberdade. Tudo que lhe é imposto de forma tão violenta e constritiva, lanhará sua alma para sempre. Porque perder a liberdade é pior que perder a própria vida: vê-se o fim da vida ainda em vida.

Eu resisto. Não uso máscara enquanto não for obrigatório. Mesmo porque, se desse resultado o uso, não haveria necessidade de fechamento de comércio e proibição de outras atividades. As coisas não estão bem explicadas. Se preciso vou ao banco, à quitanda, atendo minha mãe e quem precisar. Se for para morrer de peste, será sem me preocupar com a peste, dando a ela a exata dimensão e o exato valor que possui em minha vida: nenhum.

Na quarentena

Continuamos em quarentena – 17º dia. Fazendo derrapar a esperança de tudo voltar ao normal na próxima semana, eis que vem a notícia que o período de isolamento foi estendido por mais quinze dias.

Embora dentro de casa tudo continue irritantemente igual, sei que o mundo não está tão calmo. A falta de trabalho leva à falta de dinheiro – especialmente os que ganham por dia – faxineiras, jardineiros, pipoqueiros, sorveteiros e tantos outros trabalhadores que são invisíveis para os olhos dos poderosos. Mas existem, são reais, têm filhos para alimentar, aluguel e outras contas para pagar. E, se trabalhavam duro e diariamente, antes da epidemia, é porque não se sujeitam a esmolas oficiais, não são parasitas. São trabalhadores.

Algo que não se entende: motoboys pegam coronavírus, mas se trabalharem no iFood estão imunes.

Cozinheiros e garçons pegam coronavírus, mas se trabalharem em sistema delivery, estão isentos.

As contas não batem. Os ângulos não fecham a figura geométrica que deveria ser a necessidade de isolamento social, por mais estapafúrdia que fosse. Mas não dá. Há algo de podre, de muito podre, por trás de tudo isso.

Tornaram o Presidente da República refém da situação – se ele baixa um decreto liberando geral e realmente há um agravamento na questão da saúde, ele será linchado. Mesmo que sua intenção seja apenas permitir aos trabalhadores que exerçam suas funções, que ganhem seu dinheiro, que salvem seus negócios.

Deixando para os governadores resolverem, como são todos animais sujos de oposição à faxina de corruptos e aproveitadores que vem sendo praticada pelo Governo Federal, temos a extensão do período de isolamento a cada semana que chegamos ao fim de um período pré-determinado.

Cientes da fome que estão plantando. Talvez seja a intenção – colher a falência do estado e jogar na conta do Presidente da República. Porque o povo é o que menos importa. Só serve para voto.

Enquanto esses personagens de A revolução dos bichos se fartam nas lagostas que o povo lhes financia, a vida fora da corte está a cada dia mais difícil.

Se havíamos recuperado nosso orgulho cívico, patriótico e estávamos começando a nos permitirmos voltar a sonhar com algum futuro factível, essa epidemia jogou tudo ralo abaixo.

Não sei quando nem como isso irá terminar, só sei que meu treinamento de lençol está a cada dia mais intenso – logo não me levantarei mais da cama…