Dia de poesia – J. G. de Araújo Jorge – Nossa cama

Olho nossa cama. Palco vazio
sem o drama, sem a comédia, 
do nosso amor.

A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou...

(Meu Deus! Quem poderia ler aquelas ânsias, 
aqueles gemidos,
aqueles carinhos
que a mão do tempo raspou
como nos velhos pergaminhos?...)

A nossa cama
imensa, como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca
tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,

– oceano, que teve ondas e gritos encapelados,
e nele nos debatemos tanta vez como náufragos
a morrer... e a renascer...

Olho a nossa cama, palco vazio
em nosso quarto – teatro fechado –
que não se reabrirá nunca mais...

Nossa cama, apenas cama
nada mais que cama
alva cama, em sua solidão
em seu alvor...

Nossa cama:
– campa (sem inscrição)
do nosso amor. 

(Imagem: foto do acervo de Maria Alice)


A caixinha de música

Abaixou-se, pegou a delicada caixinha no chão. Quando se levantou, lágrimas corriam de seus olhos. “Por que você fez isso?” perguntou. A caixinha entortara com a pancada contra a parede – a cabeça e um braço da bailarina quebraram e estavam no chão. Recolhidos com cuidado, foram carinhosamente guardados no interior revestido de delicado veludo vermelho.

Havia uma grande dor em seus olhos, uma tristeza que mostrava intensa mágoa. Não conseguia disfarçar o que sentia.

Ele pegou a caixinha de suas mãos, saiu do quarto e fechou a porta.

Ela voltou a se deitar. E chorou. Chorou sozinha, chorou abafado, até as lágrimas secarem e adormecer ainda soluçando. Ela estava já dormindo, desistira de esperar que ele chegasse da farra, por que ele viera na madrugada perturbar seu sono e quebrar sua caixinha de música?

Lembrou-se, então, de quando a teve nas mãos pela primeira vez, há pouco mais de dois anos atrás. Algo que sempre desejara, sempre esperara, enfim, estava ali, a seu alcance.

Quantas noites, já no escuro, dava corda e ficava ouvindo a suave melodia até adormecer. Quantas noites não conseguira mais dormir sem ouvir a musiquinha, como se a caixinha tivesse se tornado um vício? Era seu calmante, seu sonífero, seu ansiolítico, o que havia de mais eficaz…

Aquela caixinha embalara seu sono e amparara seus sonhos todas as noites. Agora ele a quebrara. Sem nenhum motivo. Ela não reclamava de sua conduta irregular, de sua irresponsabilidade. Ela o amava e o aceitava incondicionalmente, ele era assim e era assim que ela o amara sempre. Mas ele gostava de provocar, sempre queria discutir. Era um egoísta, não se importava com ela.

Dias depois, encontrou a caixinha sobre a cama. Ele a refizera. Tirou os riscos do verniz externo. Remontara com perfeição a bailarina. Não podia negar o quanto ele era habilidoso quando queria ser.

Sentindo um sopro quente de alegria no coração, deitou-se e deu corda. A música não tocou. A bailarina não dançou. A pancada danificara irremediavelmente o mecanismo.

Ainda que à primeira vista a caixinha estivesse perfeita por fora, seu coração fora para sempre danificado por aquela atitude estúpida, nunca mais seria a mesma, e ela sabia que noites insones a fariam ter saudade dessa caixinha. Mesmo que ele trouxesse outra para substituí-la, não seria igual, porque os sonhos que sonhara com aquela música nunca mais viriam.

Lágrimas lhe vieram aos olhos, porque, uma vez trincada, essa emoção não voltaria mais, mostrando que a saudade já chegara…

Imagem: banco de imagens Google)

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 11 – Adélia Prado

Adélia Luzia Prado de Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935), mas conhecida como Adélia Prado, é uma poetisa, professora, filósofa e contista brasileira ligada ao Modernismo.

Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único. Em 1976,enviou o manuscrito de Bagagem para Affonso Romano de Sant’Anna, que assinava uma coluna de crítica literária no Jornal do Brasil. Admirado, acabou por repassar os manuscritos a Carlos Drummond de Andrade, que incentivou a publicação do livro pela Editora Imago em artigo do mesmo periódico.

Professora por formação, ela exerceu o magistério durante 24 anos, até que a carreira de escritora se tornou a atividade central. Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa. (Fonte: Antologia da Poesia Brasileira Contemporânea – Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1986)

A soleira

O que farei com este meu corpo inóspito 
já que não respondes nem me abres a porta? 
Tem pena de mim. 
Não compreendo nada. Só vos desejo 
e meu desejo é como se eu miasse por vós. 
A florinha do mentrasto é tão sem galas 
que minha carne se eriça, erotizada. 
Existis, ó Deus, porque a beleza existe, 
esta que vi primeiro com meus olhos mortais. 
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado 
o livro em que Jó fez imprimir suas dores, 
amaldiçoando o dia do seu nascimento? 
Porque não o meu, que o abençoo 
e acho o degredo bom, 
os penedos belos, 
as poucas flores, dádivas?

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

No dia de Natal

Novamente é Natal.

A mesma tristeza, a mesma solidão.

A humanidade continua horrível – guerras, traições, abandono, desamor.

Mas é novamente Natal.

Por pior que seja a realidade, a humanidade continua fingindo felicidade.

Porque novamente é Natal.

Muito se gastou em comidas e presentes.

Pessoas que se detestam confraternizaram.

A hipocrisia imperou. Venceu de novo.

Pois novamente é Natal.

Só não se lembraram da missa nem das orações de Natal.

Apenas quase todos se esqueceram o sentido do Natal…

Aquele menininho que nasceu na manjedoura, fora de seu lar e de sua cidade, seus pais longe de suas famílias e de seu povo, aquele menininho que veio para mudar o mundo, para dividir o tempo em Ante e Depois de seu nascimento, ele continua pobrezinho, exilado e esquecido, mais de dois mil anos depois, sem lugar no coração dos homens.

Mas sorria. Suas dores não contam para ninguém.

Afinal, novamente é Natal.