O caderno da vida

O que está escrito no caderno da sua vida?

No dia em que você nasceu, recebeu um caderno com as folhas em branco e uma caneta, que deveria ser usada para nele escrever. Mas só poderia escrever o dia presente.

A cada dia, deve-se, com a caneta do livre-arbítrio e as ações diárias, escrever uma página. Ao final, estará pronto o relato da sua vida, que deverá ser levado de volta quando for para sua solitária viagem sem retorno.

Não é possível voltar e corrigir nada nas folhas dos dias passados, e, da mesma forma, uma trava impede de se ir adiante e até mesmo de se ver quantas folhas existem no caderno da vida.

O que se escreveu, está escrito para sempre. O que se realizou, está realizado.

É permitido reler, à vontade, todas as folhas passadas. Ver os erros, os acertos, as tristezas, as alegrias, as vontades satisfeitas e os desejos pendentes.

Muitas vezes, na iminência de repetir um erro, reler uma página leva a mudar a vontade e a ação. Mas aquele erro passado, esse não há como apagar nem mudar.

E a releitura do passado traz conforto emocional, saudades, lembranças.

Disso é feita a vida – o conforto de ter a certeza da solidez dessa vida, as saudades de tantas pessoas que passaram por todos e cada um, e se perderam em cadernos alheios, e as lembranças de coisas, situações, cidades, tudo aquilo que se viveu buscando apenas ser feliz.

Quando se percebe, a parte preenchida já é bem mais volumosa que a parte reservada ao futuro. É preciso aceitar a passagem do tempo, saber que há muitos mais ontens do que amanhãs.

E não se pode escapar dessa realidade: só restam algumas poucas páginas para escrever. Então se começa a tentar escrever mais devagar, fazer cada página render, mais critério nas vontades, nas ações, nos desejos.

Até que um dia um vento qualquer abre o caderno em uma folha de um passado distante e que nunca passou de verdade, e a saudade obriga deixar tudo e buscar esse passado, não importando mais quantas folhas ainda restam, desde que se resgate aquele momento. E se tenha, então, a melhor parte da vida para escrever.

Dia de poesia – Fernando Pessoa por Alberto Caeiro – O pastor amoroso

Quando eu não te tinha

Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo…

Agora amo a Natureza

Como um monge calmo à Virgem Maria,

Religiosamente, a meu modo, como dantes,

Mas de outra maneira mais comovida e próxima…

Vejo melhor os rios quando vou contigo

Pelos campos até à beira dos rios;

Sentado a teu lado reparando nas nuvens

Reparo nelas melhor  –

Tu não me tiraste a Natureza…

Tu mudaste a Natureza…

Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim.

Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,

Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,

Por tu me escolheres para te ter e te amar,

Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente

Sobre todas as cousas

Não me arrependo do que fui outrora

Porque ainda o sou

A minha noventena

É incrível, quase inacreditável, hoje completo noventa dias de isolamento. Quarentena, ou melhor, noventena.

Até agora me pergunto como isso pode estar acontecendo… seria mesmo necessário toda essa quebradeira? Tanto desemprego, fome, desespero? Os números não confirmam essa necessidade, só demonstram que o pânico e a histeria incentivados pela mídia podre resultou em uma situação insustentável. É a pobreza, a miséria, chegando a galope.

E o povo, ah, pobre povo, ignorante e desinformado, só sabe o que está na folha e no jornal funeral.

Muito triste ver um povo acarneirado por anos de desmandos, conivente com a corrupção, que aplaude os ignaros e endeusa bandidos, sendo capturado para domesticação como se todos fossem porcos selvagens.

E, porcos que são, serão conduzidos para serem enterrados no buraco que ora cavam. E recebendo informações que pessoas foram contaminadas absolutamente isoladas dentro de casa. Onde está a verdade?

Assim, tristemente e sem convicção de que precisamos ficar em casa, enfrento esse 90º dia de isolamento. Sem voar, sem viver…

Distante de amigos, pessoas queridas, amadas, presa numa jaula invisível, sendo impedida de viver. Estou aqui, saudável, respirando, cumprindo todas as obrigações que me são impostas.

Mas viva, ah, isso eu não estou. Não sei viver confinada. Não nasci para ficar presa.

Quando irão devolver minhas asas?

A arte de viver juntos – autor desconhecido


Conta uma lenda dos índios Sioux que, certa vez, Touro Bravo e Nuvem Azul chegaram de mãos dadas à tenda do velho feiticeiro da tribo e pediram:
– Nós nos amamos e vamos nos casar. Mas nos amamos tanto que queremos um conselho que nos garanta ficar sempre juntos, que nos assegure estar um ao lado do outro até a morte. Há algo que possamos fazer?
E o velho emocionado ao vê-los tão jovens tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse-lhes:
– Há o que possa ser feito, ainda que sejam tarefas muito difíceis. Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte da aldeia apenas com uma rede, caçar o falcão mais vigoroso e trazê-lo aqui, com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu, Touro Bravo, deves escalar a montanha do trono; lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias. Somente com uma rede deverás apanhá-la, trazendo-a para mim viva!
Os jovens se abraçaram com ternura e logo partiram para cumprir a missão.
No dia estabelecido, na frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves. O velho tirou-as dos sacos e constatou que eram verdadeiramente formosos exemplares dos animais que ele tinha pedido.
– E agora, o que faremos? – os jovens perguntaram.
– Peguem as aves e amarrem uma à outra pelos pés com essas fitas de couro. Quando estiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres.
Eles fizeram o que lhes foi ordenado e soltaram os pássaros.
A águia e o falcão tentaram voar, mas conseguiram apenas saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela impossibilidade do vôo, as aves arremessaram-se uma contra a outra, bicando-se até se machucar.
Então, o velho disse:
– Jamais se esqueçam do que estão vendo, esse é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão. Se viverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar um ao outro. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, mas jamais amarrados. Libere a pessoa que você ama para que ela possa voar com as próprias asas. Essa é uma verdade no casamento e também nas relações familiares, de amizade e profissionais.
Moral da história: Respeite o direito das pessoas de voar rumo ao sonho delas. A lição principal é saber que somente livres as pessoas são capazes de amar. É uma questão de escolha.

De cadernos

Sou eternamente apaixonada por cadernos. Desde aquele primeiro caderninho do curso primário, com capa verde e o Hino Nacional, posso vê-lo ainda, de tão nítido em minha memória, e as tantas dezenas, talvez centena, pela vida afora, todos os cursos, conservatório, faculdade, e, mesmo hoje, os cadernos que ainda uso, pois tenho o hábito de escrever a lápis em caderno e depois digitar os textos.

Por isso, há cadernos esparramados em minhas casas, bolsa, carro, porque a inspiração não manda aviso nem marca hora de me visitar…

Essa canção sempre me emocionou. Uma poesia, uma música, um encantamento…

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o be-a-bá.
Em todos os desenhos coloridos vou estar:
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel.
Sou eu que vou ser seu colega,
Seus problemas ajudar a resolver.
Te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver.
Serei de você confidente fiel,
Se seu pranto molhar meu papel.
Sou eu que vou ser seu amigo,
Vou lhe dar abrigo, se você quiser.
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel.
O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado, se lhe dá prazer.
A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer.
Só peço a você um favor, se puder:
Não me esqueça num canto qualquer.

Vida – com ou sem sentido?

Silhueta Mulher Pôr Do Sol - Foto gratuita no Pixabay

De todas as questões filosóficas já postas, a mais intrigante e menos respondida é aquela que indaga qual o sentido da vida.   

Não pretendo discorrer aqui sobre teses filosóficas, sobre Platão nem Aristóteles. Mas volta e meia me pego meditando sobre isso.   

Qual o sentido da vida? Por e para que vivemos? Entre nascer e morrer, qual nossa missão? Ou nascemos apenas para esperar a morte?    

Tudo que pensamos ter, não nos pertence.    

Nem bens, nem sentimentos, muito menos pessoas.    

Bens – aí compreendidos imóveis, dinheiro, joias, tudo de valor econômico – por mais que acreditemos ser donos, são totalmente passageiros. Hoje os temos, amanhã os perdemos. Tudo o que vem, vai. Nascemos absolutamente sem nada e quando morrermos nada levaremos. E o que em certo momento está em nosso poder, troca de mãos com incrível facilidade.    

Sentimentos, então, são ainda mais voláteis.    

A amizade, o amor, a paixão, a confiança, a lealdade… nada nos pertence. Não os temos nem os podemos dar. Quando muito, prometemos e tentamos cumprir a promessa. Mas não somos proprietários de nenhum desses sentimentos. Como também dos opostos, ódio, nojo, desprezo, indiferença…    

E as pessoas? Ah, as pessoas – tal como nós – são volúveis, muito volúveis. Proferem palavras levianas, por vezes ferinas, e nos deixam tal ou pior do que da forma que nos encontraram: solitários, carentes e sofredores.    

Apenas dispomos de tudo isso – bens, sentimentos e pessoas – durante alguns períodos da vida. Então nada disso – ter, sentir, conviver – integra o sentido de viver.    

É preciso buscar mais fundo, é mais abstrato que tudo isso.    

Quando estamos motivados, por um sentimento de animação, seja por um projeto pessoal, uma atividade nova, uma paixão florescendo, não pensamos muito na vida, porque o importante é o instante presente, desfrutar do prazer momentâneo.    

De vez em quando, entretanto, perdemos o fio desse sentimento, e então nos vemos desmotivados e começamos a meditar sobre o que estamos fazendo na vida, da vida e com a vida. E quase sempre a resposta não nos agrada.    

Talvez porque seja recorrente pensar que o sentido da vida é ser feliz.    

Pronto. Respondida a pergunta. Resolvida a questão. O sentido da vida é apenas ser feliz.

Ficou mais fácil?

Não, complicou.

Porque agora surge a segunda maior questão: O que é ser feliz?

Em que consiste a felicidade?

Há vidas felizes?    

O jardim do vizinho é mais bonito, mais florido, a grama mais verde do que o nosso. Isso visto de longe e do alto de nossa janela. Porque nunca adentramos no jardim do vizinho para verificar se é realmente assim ou apenas aparenta ser assim.

E a felicidade dos outros também é apenas vista de fora. A ninguém é dado penetrar na alma alheia e ver sua cor, quantas cicatrizes ali existem, o quanto ela já sangrou.    

Casais felizes? Ou bons fingidores?    

Vidas felizes? Ou com alguns momentos felizes?    

Não sei. Não posso dizer pelos outros, só tenho como saber de mim.    

Acredito que quem chegou mais perto de definir a felicidade foi o poeta Vicente de Carvalho:  “…    Essa felicidade que supomos,   

 Árvore milagrosa que sonhamos,    

Toda arreada de dourados pomos,    

Existe, sim; mas nós não a alcançamos    

Porque está sempre apenas onde a pomos    

E nunca a pomos onde nós estamos.”    

Atire a primeira flor quem é real, intensa e completamente feliz.    

Conclui-se que ser feliz não é nem pode ser o sentido da vida. Buscar a felicidade plena é o mesmo que procurar o Santo Graal.    

Não, não é ser feliz…    

Voltamos ao começo – qual o sentido da vida?    

E surge nova questão: por que buscar o sentido da vida? E se a vida simplesmente não tiver sentido?    

Talvez a vida não seja para ser esquadrinhada, esmiuçada. Talvez a vida seja apenas para ser vivida, sem pensar muito.    

Para não se chegar à conclusão mais óbvia: a vida é o período entre o nascimento e a morte.

Viver é nascer e esperar morrer.

Nada mais.