Tributo a Olga Savary (Belém do Pará, 21.05.1933, Teresópolis, 15.05.2020)

Nos últimos dias a arte brasileira sofreu perdas irreparáveis. O vírus resolveu ceifar nossos poetas Sérgio Sant’Anna, Marcus Vinicius Quiroga e, ontem a poeta e escritora Olga Savarys. Palavras forte, pensamento ordenado, sensualidade dosada, sua poesia traduz a alma feminina sem rodeios. Ela é eterna. Ela se eternizou em sua poesia.

 

Caiçuçáua

Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:

tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios

com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.

Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.

O futuro e os sonhos

Conhecer o futuro. Saber o que há por vir. Em geral as pessoas tentam adivinhar, buscam modos de desvendar, através de videntes, leitores de areia, conchas, mãos, borra de café…

Mas a ninguém é dado saber o que o tempo e a vida nos reservam.

Vivemos às escuras, de olhos vendados com relação à nossa própria sorte.

Se pudéssemos saber tudo o nos espera, a vida seria bem sem graça. Nenhuma surpresa. Tudo no respectivo quadradinho. Já estaríamos preparados para as alegrias, as lágrimas, as dores, as perdas. Mas, por outro lado, não nos seria dado sonhar. Porque os sonhos preenchem exatamente o vazio do não saber o que será de nós.

Então sonhamos.

Crianças, sonhamos com brinquedos, brincadeiras, natais e casa de vó.

Adolescentes, sonhamos com boas notas, grandes amores, liberdade.

Jovens, sonhamos com a faculdade e com a vida adulta.

Sempre sonhamos um passo à frente do que vivemos.

E os sonhos, muitas vezes, nos ajudam a manter a sanidade, a vontade de continuar vivendo. Porque, de certa forma, sonhos e esperança, voltados para o futuro, são nosso sustento na caminhada até o encontro final.

 Quem começaria um namoro, sabendo que logo sofrerá por essa paixão?

Quem se casaria, sabendo que o casamento não demoraria a naufragar?

Quem faria um curso universitário com a certeza de não seguir aquela carreira?

E tantas outras situações que nos surpreendem positiva ou negativamente seriam conhecidas antecipadamente. As boas surpresas não existiriam porque deixariam de ser surpresa. E para não conhecermos os fracassos, o quanto deixaríamos de viver… nunca conseguiríamos amadurecer. Porque umas pancadinhas de vez em quando nos ajudam a encarar a realidade.

Nunca sabemos se depois da chuva haverá um arco-íris. Daí a beleza de quanto o avistamos, sonhado mas inesperado.

Você sabe que o fogo queima porque um dia ali encostou a mão. Ou levou um choque ao mexer em fios de eletricidade e aprendeu com isso. Surtou com uma paixão ardente que gerou lágrimas e aprendeu a dosar os sentimentos.

Mas se você soubesse previamente tudo isso, para que passar por essas experiências?

Perderíamos nossa humanidade e nos tornaríamos robôs – previsíveis, programados, frios, sem emoções.

Prefiro viver nessa montanha-russa de imprevistos, risos e choros, angústias e alegrias, chegadas e despedidas, felicidade e saudade, a levar uma fria vida linear, com os acontecimentos se sucedendo dentro de uma programação estabelecida e conhecida.

Os aparentes imprevistos acontecem apenas porque estávamos na direção errada, esperando o que não era nosso, com excesso de expectativas equivocadas.

Já nos basta a certeza da morte, que nos persegue no dia a dia, mas mantendo a surpresa, pois nunca sabemos onde nem quando nem como.

Por desconhecermos o resultado, lutamos continuamente. E é gratificante conseguir depois de muito tentar, sem saber se alcançaremos ou não.

Mesmo quando fracassamos, nos sentimos bem porque tentamos, acreditamos – e sonhamos.

O sofrimento vem para que possamos valorizar as alegrias.

Vencer ou fracassar são as faces de uma mesma moeda. A dor do fracasso incentiva a perseverar até conhecer o júbilo e a vibração do vencer.

Futuro é o que vier. Devemos nos preparar para tudo. E sonhar, sonhar muito, sonhar sempre.

Isso é viver.

Navios na tempestade

(Repito, novamente, neste espaço, esse texto escrito em 16.08.2014, época em que residia no Guarujá… mas acho que a mensagem ainda é válida)

 

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage. ( Charles Baudelaire, L’Ennemi)

 

Blog do Riquetti: Chuva e saudade

 

O mar quase transparente se colore entre verdes e azuis de forma absolutamente inacreditável. O céu monocromático de intenso azul. Ambos pontuados de branco – um com suas espumas, outros com suas nuvens. Brancos etéreos, igualmente feitos de água.

Em súbito de repente o vento chega, invejoso, desmanchando as espumas, esparramando as nuvens. 

O mar, plumbeado, se apressa em recolher e guardar suas cores. As ondas se desgovernam, já não sabem para onde ir, perdem seu ritmo. O azul do céu se desvanece em cinzas. A claridade se esvai… 

Atônitas, as pessoas se assustam. Os que estão no mar correm para a praia, os que estão na praia se apressam em ir para o calçadão, e aquelas que nele caminhavam se dirigem para as casas. 

Ouço portas batendo com o vento. Ouço janelas sendo fechadas. A humanidade se recolhe. Medo do mar. Medo do vento… 

Continuo em minha varanda assistindo ao espetáculo da transmutação repentina. 

Na linha do horizonte, onde agora céu e mar se confundem, a única alteração são as luzes que se acendem nas dezenas de navios fundeados, esperando sua vez de entrar no canal. 

Não saem correndo, não pulam, não saltam. Continuam ali, imóveis, no vai-e-vem das marolas agora furiosas. 

Nenhum se apavora. Nenhum tenta fugir. Sabem que a tempestade vai passar. E, quando acabar, tudo voltará a ser como antes – mar calmo, céu limpo e azul, sol brilhando. 

Essa certeza os mantém calmos. Esperam melhores momentos que sabem que virão. 

Comparo esses navios, tão grandes em si, tão pequenos na imensidão do mar, com as pessoas que fugiram, assustadas com a tormenta. 

Tão cheios de si, tão arrogantes, se sentem tão importantes. Mas diante da menor demonstração da força da natureza, saem correndo, tentando se abrigar, se esconder… 

Devemos ser, nas horas agitadas das procelas do destino, como os navios na tempestade: não tomam decisões, não se abalam, não se agitam. 

Confiam em sua âncora, que os mantêm fundeados, e, calmamente, esperam o fim da tormenta. 

Que nossa fé seja nossa âncora e nos faça confiar o suficiente para que, como Pedro, também possamos andar sobre as águas…

 

Dia de poesia – Carlos Drummond de Andrade – Amor e seu tempo

POEMAS DO AMOR DESESPERADO | Gaveta do Ivo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Vírus e vespa

Cientistas alertam sobre aparecimento de vespa gigante nos EUA

Há regiões do Brasil que não têm epidemia pelo novo coronavírus. Não está explicado se é por falta de imprensa suja, se é por política limpa ou se o calor, realmente, interfere na propagação do vírus.

A informação inicial do horror que aconteceu no norte da Itália foi devido, principalmente, ao frio inverno que o país enfrentava.

Aqui, era pleno verão. Os governadores que hoje quebram seus Estados com quarentenas inúteis afirmavam, em janeiro, e em fevereiro, que aqui a epidemia não se espalharia. Por esse motivo mantiveram o calendário do lucrativo e contagiante carnaval.

E o verão acabou e o calor continuou.

De um lado, notícias alarmantes de milhares de mortos. E prefeito comprando milhares de caixões e mandando abrir centena de covas em cemitério.

De outro, informações dos cartórios de registro civil que o número de óbitos não se alterou de um ano para o outro. E surgem notícias de caixões vazios sendo enterrados para “tacar terror”  na população.

De um lado, notícias apavorantes de milhares de doentes, hospitais lotados, escolha de quem salvar e quem deixar morrer.

De outro, fotos de hospitais vazios e notícias de vagas em UTIs sub-ocupadas.

Difícil acreditar em qualquer dos dois lados. O melhor é dividir tudo por 04 e acreditar em parte em um, em parte em outro…

Mas sempre temos uma certeza: enquanto fizer calor, não estaremos tão vulneráveis como a população dos países frios.

Aqui onde estou cumprindo minha quarentena temos duas estações no ano. Apenas duas, e bem definidas: verão e inferno. Atualmente está começando o verão. O inferno acabou, por ora.

Outra piadinha local é que aqui o inverno dura de 3 a 4 horas/ano.

Por isso, respiramos aliviados. Calor o ano todo.

Mas…

Esse Mas vem sempre para obrigar dar marcha-a-ré, estragar o dia, perturbar a paz… talvez devêssemos fazer uma campanha para excluir o Mas da língua portuguesa.

Pois é, MAS

A china, depois do vírus, resolveu mandar a vespa mandarina para o continente americano.

A terrível vespa assassina. A vespa gigante. Coisa de filme de terror. Não perde o ferrão quando pica, o que permite que uma mesma vespa ataque várias vezes. E sua picada pode levar à morte por problemas renais.

E daí, você vai dizer… se o vírus não foi essa coca-cola toda aqui no Brasil, a vespa morre na entrada.

Não meu amigo. Essa veio de encomenda.

Para ocupar o lugar em que o vírus não conseguiu vingar.

A vespa precisa de calor…

Ferrou!

Retrato em branco e preto

Estava me preparando par a escrever o post de hoje, e começo ouvir essa música. Largo tudo, mergulho no passado, e não resisto: vou dividir com vocês. De Chico Buarque na interpretação de nossa estrela maior, Elis Regina

 

 

Já conheço os passos dessa estrada