Uma borboleta

Pour connaître la rose, quelqu’un emploie la géometrie et un autre emploie le papillon. (Paul Claudel)

 

Borboletas-monarca dispõem de “bússola interna” ~ Criacionismo

Voando leve e colorida, como se fosse  uma flor com asas, a graciosa borboleta pousa silenciosamente sobre uma folha.

Como pode essa maravilha etérea e cheia de esplendor ter sido, um dia, a feia e desengonçada lagarta, ou larva de borboleta… mistério da natureza.

Com olhos superpotentes – formados por 12.000 – doze mil! – partes minúsculas que permitem enxergar em 360 graus, e ainda seus dois pares de asas, esses magníficos insetos são movidos “a bateria solar”, uma vez que suas asas dependem da energia solar para voarem.

As borboletas são místicas. Depois do ciclo lagarta, vem o estágio da crisálida. Ali, sob a dura casca pendurada por fios, desenvolve-se a borboleta em almofada de seda.

Então a curiosa metamorfose acontece e surge a borboleta.

Todo esse caminho deve ser naturalmente percorrido. Se alguém, inadvertidamente, tenta apressar e abre o casulo, não haverá a borboleta. Ela só pode viver quando chegar seu exato momento.

E, uma vez livres, têm tantos significados para os humanos.

Quem assistiu ao filme “Suplício de uma saudade” jamais poderá avistar uma borboleta sem se lembrar das duas cenas que envolvem os protagonistas e as borboletas.

Para uns é sorte, para outros, o amor chegando, ou a felicidade, a fortuna…

E os pequenos bichinhos, pesando cerca de 1 grama, voam, indefesos e, aparentemente, ignorando o que os humanos pensam a seu respeito.

Não devem ser capturadas, e, se nascidas em cativeiro, perdem sua natureza.

Por exemplo, a magnífica borboleta monarca, que voa 5.000 km em sua migração anual do Canadá para o México, em busca de calor – criadas em cativeiro, perdem a capacidade da migração.

A liberdade é sua essência.

Eu as vejo como flores sem raízes, voando livres, felizes por terem atingido esse estágio na vida, depois de tanta feiura, clausura e sofrimento.

Ela entende minha admiração, alça voo, faz pequena reverência perto de mim, e voa em busca de seu destino.

Escrevinhar

Banco de imagens : céu, condor, pássaro, vôo, Cuba, nuvens, Ave de ...

Hoje estou com muita preguiça de escrever! Ofício ingrato este da escrevinhação! E dá trabalho!

Pense bem: temos 23 letras. Alguns sinais. Pontos e vírgulas.

E tenho de me virar só com isso para escrever contos, crônicas, livros, poesias… não é possível inovar.

E mais: só posso usar as palavras que os outros já inventaram e no sentido que se lhes deram. Nem inventar palavras me é permitido. A não ser que eu fosse um Guimarães Rosa, a quem o neologismo foi chamado de arte.

E não adianta comprar dicionários. Eles não fazem de você um poeta nem um escritor. No máximo, ajudam a escrever corretamente.

Nasci humano. Tenho de me contentar com as humanas limitações.

Se me fosse dado escolher, nasceria pássaro. De grandes asas e altos voos.

Pairaria sobre as cidades e os campos, conheceria todos os continentes, voaria sobre mares e cordilheiras. E nunca precisaria escrever nada.

As árvores também não escrevem. Mas eu não gostaria de ser árvore. Nascer, viver e morrer com raízes fincadas no mesmo lugar. Eu só nasceria e morreria, jamais viveria.

Nem bicho, nem peixe, nem flor, nem borboleta. Queria ser pássaro. Um condor. Um falcão.

Meu instinto seria voar. Jamais teria raízes nem âncoras. Só asas e o espaço para voar livre. Como destino, a liberdade.

No entanto, pequena humana que sou, sem asas nem raízes reais, eu as tenho imaginárias. As asas eu mesma as cultivo. As raízes – e âncoras – são impostas pela vida. E por mais que me sinta livre e tente voar, tenho de voltar ao mesmo lugar. E escrever é o caminho dessa vida.

Para não enlouquecer, para voar sobre o mundo, escrevo.

Como destino, a fuga pelas letras.

50 dias

Floresce um relativismo moral e cultural, abrem-se as comportas da desordem e da ilicitude, expande-se o comércio de drogas e de armas. (Gaudêncio Torquato) 

 

Cinquenta dias de confinamento. O mundo que conhecemos se desfazendo como fumaça no ar.

Esse isolamento está destruindo afetos, famílias, empregos, empresas. E os aloprados dos políticos com cara de paisagem, aproveitando para roubar dinheiro público e rir do povo. Somos animais enjaulados. Feras desdentadas, sem garras.

Até quando suportaremos essa situação, que nem mesmo temos certeza ser necessária? Uns dizem que é preciso “achatar” a curva para não causar colapso no sistema hospitalar (que é um caos no Brasil desde 1990).

Outros dizem que não há ocupação das vagas hospitalares disponíveis.

Ainda há aqueles que sustentam que a epidemia somente será controlada quando 85% da população estiver contaminada, portanto é necessário que haja exposição controlada ao vírus para a doença acabar – e com o isolamento estamos protelando o pico. Ou seja, se ficarmos confinados até dezembro de 2020, teremos o pico da epidemia em 2021…

Atiram em todas as direções e a população não consegue acreditar em mais ninguém. Mas com as contas vencendo, a pobreza se aproximando a passos largos, todos estão tendo uma certeza: esse isolamento será a desgraça do país.

Quando um prefeito, em um lapso de lucidez, resolve revogar o confinamento e começar a volta organizada das atividades, ou o governador cai de pau ou alguma dupla promotor-juiz, que não foi eleita para nada, resolve administrar a cidade e tudo volta a ser proibido.

Mas nem o governador, nem o promotor e nem o juiz estão preocupados com as famílias que estão completamente sem fonte de renda, depois de quase dois meses de prisão domiciliar.

Tudo está represado. Em algum momento haverá de estourar. Não sabemos qual o ponto mais vulnerável. Mas tudo levado a um extremo arrebenta.

Há um ponto de resistência do qual nada passa. A física explica. Ali tem de haver uma mudança de força ou de rumo, porque senão estoura. E estamos chegando nesse ponto com os políticos brasileiros.

O povo é usado de maneira desavergonhada para servir de fonte de ganhos. Essa é a verdade. Poucos – quase nenhum – está preocupado com o bem-estar, a educação, a segurança ou a saúde da população.

Somos vistos como número potencial de votos. Apenas isso.

Contando com a ignorância reinante na população, fruto de 34 anos de desmantelamento do sistema de ensino no país, sabem como é fácil manipular a vontade do povo. Na base do “panem et circenses”.

Mas agora o circo fechou e o pão está acabando. A massa humana perdeu a inocência, em razão das manifestações dos últimos anos, da expansão das redes sociais, da necessidade natural de sair do círculo que está pegando fogo.

A decadência moral largamente exibida e incentivada pela classe artística e meios de comunicação tradicional levaram a uma procura pelas redes sociais, o que, se bem usada, leva um pouco de luz a essa população antes sujeita tão somente a duas ou três emissoras de televisão como seu guru, conselheiro e oráculo.

Vivenciamos extraordinário momento histórico, do qual resultarão profundas mudanças. Estamos passando por uma mudança de era. Daqui algum tempo os registros históricos apontarão a Idade Contemporânea como sendo o período compreendido entre a Revolução Francesa (1789) e pandemia da peste do covid (2020).

Porque não há dúvida que tudo o que era e que existia antes desse lapso de confinamento mundial não sobreviverá à pandemia. Mudanças ocorrerão.

Não as besteiras dos filósofos de internet, que “sairemos melhores” dessa crise. Porque nenhuma crise tem esse poder. E ficar confinado em casa navegando o dia todo nas redes sociais ou dormindo não vai melhorar ninguém.

Melhoramos na medida que conhecemos nossos semelhantes, que nos preocupamos com os rumos da humanidade, que estendemos a mão a quem precisa, que nos prestamos a trabalhos voluntários para ajudar necessitados, e vamos sendo lapidados pelas pedradas que infelizmente levamos pela vida afora, e nos depuramos com a caridade que praticamos e crescemos com o amor que sentimos, espalhamos e recebemos.

Será inevitável uma mudança depois dessa crise. Porque estamos presenciando a ganância dos homens pelo dinheiro e pelo poder, ainda que a custa da morte de milhares de pessoas.

Estamos atravessando um período de guerra, ainda que nenhum tiro tenha sido disparado, nenhum míssil tenha atingido alvos militares.

A população civil sendo fortemente prejudicada – e desconfiada que tudo isso foi planejado. Se comprovada essa tese, imperdoável a maldade com que agiram para provocar esse caos mundial.

A degradação moral, familiar e social, o uso – e a defesa desse uso – maciço de drogas ilícitas, criando verdadeiras comunidades de dependentes, totalmente marginalizados, e o desmando decorrente de excesso de judicialização da vida e politização da justiça, formam o caldo propício para um estouro de comportas.

O ponto de mutação traduzido no I Ching está chegando. Só não sabemos como ficará a humanidade depois de passar por esse processo. Só o futuro dirá…

Dia de poesia – António Ramos Rosa – Não posso adiar o amor

Aurora Boreal: onde encontrar?
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

Morte na quarentena

Cidade abandonada / Abandoned City by GabrielBevacqua-Arts on ...

 

Ela leu a lista mais uma vez. Voltou à cozinha, e tornou a conferir os mantimentos.

Vestiu um velho macacão de mecânico que foi do pai por cima das roupas, calçou galochas, os cabelos presos dentro de um grande lenço, máscara e luvas. Saiu rapidamente. Andava encolhida. Foi ao mercado, separou tudo o que ainda precisava, chamou um carregador e mandou entregar na sua casa. Disse que podia deixar tudo na varanda da frente.

Passou na farmácia, para mais algumas compras, conferiu mentalmente se já havia esgotado a lista e voltou quase correndo para casa.

Sentou-se na escadinha da varanda, esperando as compras. Logo o rapaz apareceu na esquina. Ela recebeu as compras. Arrastou as caixas pelo corredor lateral até a porta da cozinha. Usando o álcool e o desinfetante que já deixara ali, foi limpando cada peça e colocando no chão da cozinha. Tirou o macacão, galochas, luvas, lenço e máscara e os deixou sobre o tanque. Passou álcool nas mãos e nos braços e entrou.

Trancou a porta com chaves e ferrolhos. Conferiu se todas as portas, janelas e cortinas estavam devidamente fechadas. Estava com muito medo.

Quando veio a ordem de quarentena, com isolamento total e aviso que todo o comércio seria fechado em 48 horas, com a explicação que um vírus muito contagioso estava se espalhando rapidamente e dizimando a população, sentiu-se insegura e apavorada.

Elaborou uma lista que lhe permitisse passar mais de cinco meses sem sair de dentro de casa, onde morava sozinha. Decidiu que não abriria a porta para nenhuma pessoa, e que não morreria durante a epidemia.

Guardou as compras, tomou um banho e foi dormir.

E assim viveu meses seguidos. Com portas e janelas trancadas, fazendo o próprio pão, cuidando de si e da casa, sem nenhum contato com o mundo exterior.

Afinal, ninguém sabia como era a forma de contágio desse vírus, e quem fosse contaminado morreria em poucos dias. Não havia salvação.

Na dúvida, guardou-se completamente de qualquer contato humano. Aproveitava o tempo para ler, ouvir músicas, sempre resguardada na confortável residência. Com o passar dos dias percebeu que os sons externos foram diminuindo. Já não havia mais aviões passando sobre a casa, que era rota de aeroporto. Também o barulho de pessoas conversando nas calçadas, os gritos dos vendedores, a sirene de ambulâncias, o apito do guarda noturno. Tudo foi silenciando.

Ela dormia a maior parte do tempo. Não percebia o quanto estava necessitada de sol, de alimentos com mais sustância, que estava enfraquecendo.

Os dias se arrastavam. E semanas e meses se foram.

Os mantimentos já estavam se acabando.

Ela teria de sair novamente. O pavor e a ansiedade a consumiam. Não queria morrer de peste. Mas chegaria o momento em que precisaria ir a um mercado. Foi diminuindo a ingestão de alimentos para ficar mais tempo em casa. Até o dia em que não havia mais nada para preparar uma refeição.

Apavorada, preparou-se para sair. Abriu a porta, ninguém à vista. Foi até a esquina e chegou na avenida, antes local de intenso movimento.

Não via pessoas nem carros nem ciclistas. Lojas fechadas. Sujeira para todo lado. Começou a perceber corpos decompostos nas portas das casas.

Precisava comprar comida. Estava em transe. Continuava a andar sem rumo, mas não avistava qualquer sinal de vida.

Estava com medo de respirar. Mesmo de máscara, poderia contrair o vírus e também morreria, e não queria morrer – desafiara o terrível vírus e pretendia sobreviver à peste.

Ocorreu-lhe ir até a loja de uma conhecida, onde poderia ter notícias sobre o que aconteceu nos últimos meses.

A porta estava aberta. Saltou sobre alguns corpos amontoados na calçada e entrou na pequena loja. Completamente abandonada. Nem sinal de pessoas.

Voltou-se para sair e se assustou com a imagem no espelho. Demorou a se reconhecer – aquela figura magra, quase esquálida, com uma cor de cera, olhos fundos, cavados…

Tentou retornar à casa, no meio do nada que restara na cidade morta. E percebeu que era a única pessoa que não morrera na epidemia. Mas nem por isso sobrevivera, de certa forma estava, também ela, morta.