É assim que é

Quem vai dizer ao coração, Que a paixão não é loucura… (Oswaldo Montenegro)

 

 

O que é mais bonito – ver a montanha da planície ou escalar a montanha e ver a planície lá do alto?

Acredito que a montanha vista da planície é a visão mais linda que se pode ter da montanha. Mas escalar a montanha dará como prêmio, a vista da planície e do horizonte.

São ângulos completamente diferentes. Não é possível comparar.

Deitar na grama e olhar o céu, o leve movimento das nuvens, fitar o azul profundo. Não é a mesma visão que se tem de quando se está “no céu” – as nuvens são diferentes. A Terra não é de uma só cor.

Quando um olha para o mar, vê o mesmo mar que o outro está olhando? Ou enquanto um olha as espumas, o outro só vê a linha que o separa do céu?

Assim é a vida. O que um vê não é o que o outro vê. Mesmo que estejam, lado a lado, olhando para o mesmo objeto.

A experiência, as dores, os amores, as frustrações e as alegrias de cada um o faz ver tudo de forma personalizada. Cada um vê o que olha e não pode enxergar o que o outro vê.

Por isso tão difícil a convivência.

Não se pode esperar receber o que se dá – seja amor, seja atenção, seja carinho. E nunca se sabe o que o outro espera.

Coisas indizíveis, que se quer sejam dadas por mera adivinhação.

E a quebra das expectativas aumenta a cada dia.

As pontes se vão na torrente das pequenas desilusões, que, unidas, fazem caudaloso rio.

As portas se fecham.

E a distância se impõe.

Como a nuvem que se dissipa lenta e quase imperceptivelmente, a paixão se esvai. E um dia se percebe que todo aquele tsunami de sentimentos desapareceu, ficou só o fundo azul do céu, que já escurece no prenúncio da noite existencial.

Em busca de ser feliz

Era tanta tristeza, que um dia a vida me falou: “é hora de ser feliz! Venha!!!!!”

E fomos em busca da felicidade.

“Para se sentir feliz, em primeiro lugar é preciso ter paz”, disse ela. Escalamos montanhas, atravessamos desertos e vimos o sol nascer na África.

Vimos o sol se pôr no Oceano Pacífico.

Vimos a lua entre as montanhas dos Andes.

Ficamos no branco eterno do Mont Blanc.

No silêncio do voo do Condor.

E encontramos a paz.

Com o coração em paz era hora de continuar a busca pela felicidade.

“Para se sentir feliz, também é preciso ter os olhos preenchidos de beleza”, ela disse.

Fomos para a praia ao amanhecer. Caminhamos na areia ainda úmida. Quando o sol se levantou e aqueceu a imensidão de água, ali mergulhamos e nos deixamos levar pelo mar, doce amigo tão salgado.

Os olhos se enchiam das maravilhas daquele mar sem fim. Era hora de partir e ver a natureza pura, as cores da terra e das matas, e “l’aurora di bianco vestita”.

“Para ser feliz é preciso ouvir a música da natureza”, ela falou.

Fomos para floresta. O barulho dos animais noturnos, o chilrear dos grilos e os gritos das corujas, a algazarra dos animais do final da noite e então o canto dos pássaros no alvorecer. A alma estava em paz…

“Para ser feliz é preciso dançar”, ouvi então.

E fomos para a Grécia onde dançamos o hasapiko, percorremos toda a costa do Mediterrâneo, entramos na Itália, aprendemos as danças napolitanas, fomos para o norte, dançar com os cossacos e depois à Baviera aprender a dançar holzhacke.

Chegamos às Américas, aprendemos dançar rumba, samba, tango, salsa, bolero e mambo…

E enquanto dançávamos, cantávamos, ríamos e nos divertíamos.

E foi tanta alegria, nessa busca da felicidade, que eu me esqueci porque estava triste.

Como eu te amo

Eu te amo

sem orgulho

sem esperança

Como o mar ama a montanha

sem jamais a alcançar

e, por suas ondas, incessantemente,

tenta chegar a seus pés

 

Eu te amo

Com desvario

Com insanidade

Como a lua ama o sol

Sem jamais encontrá-lo

E sem temer o abraço fatal

Que os fundiria irremediavelmente

 

Eu te amo

Sem vaidade

Sem egoísmo

Com um amor que não tem brio

que sufoca a dignidade

e se basta a si mesmo

 

Eu te amo

Com loucura

Com paixão

Nesse doce devaneio

Que é apenas insanidade

Esse constante delírio

De inquieta alucinação

Hoje é dia de poesia -Miguel Carlos Vitaliano – Café da manhã

Nesse “dia de poesia” trago um poema do Miguel Carlos, meu querido amigo Carlucho, do livro “Outro livro”, 2006:

 

 

Migalhas de vida esparramados na mesa

Cacos de um destino a rasgar a toalha

Lágrimas de dor umedecem o ambiente

E um ar impregnado de ausência

faz perceber a saudade no ar.

De um lado uma cadeira apara

o corpo do poeta

Do outro, outra cadeira

apara o nada.

A fome de amor invade a alma.

Pesa na penumbra da manhã cinzenta

um olhar de adeus, um aceno de mão.

E um insuportável vazio

toma conta da mesa posta.

Fim

Não sei se as palavras já não bastam

Ou se elas não mais são necessárias

O silêncio trouxe a distância

Que mantém separadas as paralelas

Essas linhas que tanto se querem

Mas só se encontrarão no infinito.

Onde fica esse infinito? Não se sabe

A paixão, tão ardente, mina em lágrimas

Que teimam em brotar nos olhos

De quem se viu em outros olhos

Ardem as mãos no vazio

Da falta das outras mãos tão queridas

O nada se impõe e domina

A vida se esvai nos fiapos

De um passado distante

De um amor mal-resolvido

De uma paixão não vivida

Metamorfose

Vivia encolhida, sem luz, sem ar. Presa na armadilha que o destino lhe preparara. A insegurança a dominava, limitada ao escuro da existência sem futuro, sem alegrias.

Mas, em seu âmago, crescia um sentimento novo: uma paixão ardente, descontrolada, que, naquelas condições, não podia ser vivida.

Subitamente sentiu que era hora de romper com tudo que a limitava. Porém, enfrentar o desconhecido poderia significar sua morte. Não podia ter certeza se sobreviveria.

                                            

De certa forma, morreu ali mesmo, porque, ao romper o casulo que a prendia, a pesada lagarta, feia e disforme, perdeu sua existência, no exato instante em que, colorida, leve e cheia de alegria, a linda borboleta alçou seu primeiro voo.