A árvore

A velha árvore lançava sua grande sombra a quem dela necessitasse. Nunca recusou aconchego e frescor a quem quer que fosse.

Ali fixada desde tempos esquecidos, vira crianças que cresceram brincando sob sua fronde se tornarem namorados, e um dia trazerem suas próprias crianças para ali se divertirem. Alguns já traziam netos, enquanto outros deixaram de vir.

Os homens passavam, mas a grande árvore ficava.

Tantas modas mudaram, tantas casas foram construídas ao redor, tantos carros apareceram…

Até o dia em que a terrível motosserra chegara e os homens importantes discutiram, brigaram, e marcaram várias de suas companheiras, condenando-as à morte.

Mas ela, sabe-se lá porque, fora poupada de destino tão horrível. E continuou, firme e verde, lançando sua sombra, abrigando ninhos e testemunhando a vida passar.

Um dia outros homens vieram medindo tudo, e riscaram o chão, anunciando que o progresso vinha chegando.

E inúmeras máquinas, fazendo muito barulho, traçaram duas paralelas perfeitas, abriram o chão, nivelaram, e cobriram. Com uma dura, horrível e fedorenta substância preta-acinzentada, onde antes era a grama macia, verde e cheirosa.

Para esse serviço, os malvados, sem piedade, cortaram quase metade das raízes da velha árvore.

Ela passou dias e dias se sentindo mal. Muita dor, tontura, náuseas, sentia que balançava a qualquer ventinho que desse.

Mas a natureza, dedicada, com toda a delicadeza providenciou a cicatrização das pontas amputadas. Só não podia lhe dar novas raízes ou melhorar seu equilíbrio.

A velha árvore já não era a mesma. O verde de sua folhagem mudou de tom, tomando, ela também, nuances de cinza.

Já não se divertia com os folguedos infantis. E sentia muita dor quando agora as crianças brincavam nos balanços fixados em seus galhos, o que antes a divertia tanto.

Veio o inverno. Muito frio para uma mutilada árvore de sua idade. Quando voltou a primavera, metade de seus galhos não teve forças para novas folhas.

Sua sombra já não era tão aconchegante.

A velha árvore morria, mas ninguém percebia.

Aflita, ela olhava em volta, mas via só asfalto e calçadas. Já não existiam mais árvores de sua idade, ela estava ficando sozinha no mundo.

O sol tentava dar-lhe algum calor e amor, ela agradecia, mas já não reagia.

Sentia muita sede, com apenas algumas raízes, já não havia circulação suficiente para levar água aos galhos. O tronco mirrava aos poucos.

As pessoas a olhavam com estranhamento e já não ficavam por perto. Temiam sua queda.

Então a árvore, envelhecida, mutilada, abandonada e sedenta, pediu compaixão aos céus.

Suas preces foram ouvidas.

O sol se recolheu, respeitoso que era, e uma chuva fina, agradável, leve, começou a cair.

As folhas foram se lavando, os galhos ficaram úmidos, as raízes restantes se encharcaram. As lágrimas da velha árvore desciam aos borbotões pelo tronco, junto com as gotas da chuva.

Quando anoiteceu, a natureza silenciou. E a velha árvore se curvou sobre si mesma, deitando no solo mansamente, onde repousou sua ramada. Estava morta.