Dia de poesia – Perda

                                       Perda

Quando te fores

Leva a maresia e o cheiro das arribas em desassossego

Leva as cores do sol destronado

O vento amarrado à lama e este vinagre

da tua ausência

Leva tudo a que já me habituara.

Sabes,

Fica aqui um mar de luas caídas

sempre que levas o barco

e abandonas minhas mãos no cais.

(Isabel Cabral)

Abraço

As nossas mãos se encontraram e se entrelaçaram

mas não foram apenas minhas mãos que você tocou,

como também não foram apenas suas mãos

que apertei entre as minhas mãos

naquele intenso, eterno e breve momento

em que nossos olhos se viram e nossos olhares se cruzaram.

 

Entramos dentro da alma, um do outro. Então

suavemente nossos corpos se tocaram

e no ritmo do desejo se enlaçaram

em um abraço de amor e rendição.

Na paz do instante em que fomos apenas um:

dois corpos unidos no abraço acontecido.

 

Senti meu coração bater junto do seu.

Seu sangue corria tentando se misturar ao meu.

Momento divino, anjos aplaudiram,

estrelas surgiram para nos ver.

A noite chegava aos poucos,

prometendo a lua dos namorados.

 

Todos os sons mundanos cessaram, só ouvimos nossa respiração.

Então a magia cessou, os corpos se afastaram;

os olhares, constrangidos, se voltaram a outras direções

e as mãos se soltaram, tímidas e envergonhadas

por terem proporcionado aquele abraço infinito

que durou eternamente por alguns segundos.

 

Um breve, fugaz e infinito momento nos uniu novamente

Antes que a nova separação se impusesse entre nós dois.

Mas aqui na minha alma você permaneceu,

deixando um rastro de querer dentro de mim.

E arrancou um pedaço de meu ser

e o levou consigo, para sempre, em sua alma

Arte

Desde sempre convivi com arte.

Arte no sentido clássico. Arte como atividade humana que desperta uma emoção.

Estética, beleza, harmonia…

Assim foi durante a infância e adolescência, quando estudava música e fazia conservatório musical, com aulas de história da música e história da arte.

Também pelo interesse e estudo sobre a matéria. Sou fascinada pela música e pela escultura, as quais considero a expressão máxima da capacidade humana de tocar a alma de outro ser humano.

Admiro as outras artes, como a pintura – não sei desenhar nem o elefante dentro da cobra do Pequeno Príncipe. Admiro quem desenha, quem escreve, quem pinta, quem encena, quem canta, quem dança…

Ao mesmo tempo, infelizmente, presenciamos uma nova era artística. De onde o belo foi banido.

Nada de bonito, nem de harmônico, nem de sentimento estético.

A arte foi desconstruída para dar espaço a pessoas completamente sem talento.

Imagino, aqui, os museus do futuro …

No dia em que nos separamos

No dia em que nos separamos o sol brilhava

E pássaros inundavam o ar com seu canto delicado.

Naquela noite a lua, insensível, surgiu radiante

E reinou soberana liderando o séquito de estrelas brilhantes.

E as flores da noite se abriram e perfumaram os caminhos.

As aves, amantes, aos pares se recolheram aos ninhos,

E o vento soprou mansinho,

apenas leve brisa a acalentar as folhas.

Nada nem ninguém viu meu desespero, tanto sofrimento;

Lágrimas escondidas misturadas ao sangue

corriam em minhas veias,

Não houve dentro de mim qualquer alegria,

qualquer alívio ou bálsamo

Somente a dor aguda de mais uma separação,

que me inundava toda

E ocupava os lugares onde até então era só alegria,

sorriso e êxtase.

Amanheceu um novo dia.

A natureza não se abala com a dor alheia.

Como se tudo estivesse bem, o sol brilhou novamente.