Dia de poesia – Alberto Caeiro

              XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois

Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,

E que para de onde veio volta depois

Quase à noitinha pela mesma estrada.

 

Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas…

A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco…

Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas

E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

(de O Guardador de Rebanhos)

 

Que imagem!

Santo Sudário

          

                  O Santo Sudário é uma peça de linho confeccionado em tear manual rudimentar, mas com acabamento cuidadoso, no qual as linhas horizontais passam por três linhas verticais e por baixo de uma em uma formação de zigue-zague chamada “espinha de peixe”. Apesar desse padrão só ter aparecido na Europa no século XVI, já era fabricado em países do oriente como Egito e Síria. 

                   Por não haver vestígios de outro tipo de fibra, como a lã, acredita-se que o tear pertencia ao ambiente judaico onde a mistura de fios era proibida. Além disso, a medida coincide com as dimensões do chamado cúbito sírio, utilizado pelos judeus no século I d.C. O lençol mede exatamente 8 X 2 cúbitos sírios, ou seja, 44,41 metros por 1,13. 

                   O Sudário contém a imagem de um corpo, frente e costas. Nota-se que metade do tecido ficava embaixo do corpo enquanto a outra teria passado sobre a cabeça e cobria a parte frontal. 

                   Ao longo do Sudário encontram-se diversas manchas vermelhas. Ao serem analisadas, demonstraram ser sangue humano do tipo AB, raro entre europeus, mas comum em judeus. Com as análises, os cientistas comprovaram que o corpo esteve em contato com o lençol durante um período de 30 a 40 horas, encontraram cromossomos X e Y, componentes do DNA masculino, e constataram a presença de bilirrubina, substância cicatrizante produzida pelo fígado a partir dos glóbulos vermelhos, quando o corpo é gravemente traumatizado. 

                   O contato entre o corpo e o lençol se interrompeu sem provocar a mínima alteração nas manchas de sangue, fato que não possui explicação. 

                   Entre as fibras do tecido também foram encontrados 77 tipos de pólen, sendo que metade deles pertence a plantas que só crescem na Palestina, material terroso cuja composição é idêntica ao solo encontrado em grutas de Jerusalém. 

                   Em meio às partículas de pó extraídas do Sudário, foram identificadas aloés e mirra, substâncias aromáticas usadas na antiguidade e um composto denominado Natrom, utilizado na Palestina para desidratar cadáveres em um processo similar ao da mumificação egípcia. 

                   Em 1898 percebeu-se que a imagem impressa no tecido é mais visível num negativo fotográfico do que a olho nu, quando Secondo Pia tirou a primeira fotografia do lençol. Esse registro passou a intrigar cientistas e iniciou-se uma intensa polêmica sobre a origem do Sudário e a identidade da pessoa retratada. 

                   Engenheiros da Nasa submeteram um foto do Sudário ao analisador de imagens VP8, projetado para reconstruir o relevo dos planetas a partir de fotos enviadas por satélites. O resultado foi a imagem do corpo tridimensional, ao contrário do que acontece em uma foto comum. 

                   Mesmo após inúmeros testes não se sabe como a imagem foi produzida e se mantém no tecido há tanto tempo. Aparentemente as dúvidas crescem a cada especulação.

(LeCristo. Julho 2010)

Dúvidas? a fé não admite dúvidas, isso é para cientistas e investigadores da história. Para quem crê não é preciso provas materiais da existência de Cristo. Ele esteve entre nós e nos deixou um imenso legado de amor e de busca pela paz. Isso basta.

Dia de Poesia – Zorongo (*)

 

Essas mãos de meu carinho

te estão bordando uma capa

com recamo de alelis

e com esclavina de água.

Quando tu foste meu noivo

pela primavera branca

os cascos de teu cavalo

quatro soluços de prata.

A lua é um poço pequeno,

as flores não valem nada,

o que vale são teus braços

quando de noite me abraçam,

o que vale são teus braços,

quando de noite me abraçam.

(Garcia Lorca)

(*) Baile popular andaluz

Mãos

 

Busco suas mãos.

Eu as busco no conhecido e no desconhecido. No finito e no infinito. Na tristeza e na alegria.

Se tenho de atravessar um lindo campo, florido e iluminado, busco suas mãos. Para que você venha comigo, aproveitar desse momento único. Se estou em perigo, sem enxergar, correndo riscos, são elas que procuro para ter força e coragem, pois nelas eu confio.

Ao longo dessa vida busco suas mãos. Para todos os momentos. Para que guiem, sustentem, toquem e acariciem. Da mesma forma as buscarei no infinito, porque a morte não é o fim de um amor. O infinito é logo ali, fica atrás da cortina dessa existência, e lá estaremos juntos – um dará ao outro a mão na hora de atravessar o espelho.

Na tristeza só quero suas mãos. Quero suas mãos me afagando os cabelos, me abraçando e me fazendo acreditar que tudo vai passar. E, quando a alegria dominar novamente, serão suas mãos que buscarei, para nos tocarmos com paixão, e nos completarmos levando à comunhão das almas todo o aconchego que nossas mãos já deram aos corpos.

Por isso busco suas mãos. Hoje, aqui, amanhã, aí, antes, sempre e depois.

Busco suas mãos. Dê-me suas mãos. E vamos juntos conhecer a felicidade de amar.

Bolha de sabão

 

Paira, um momento, tão linda

Coloridamente flutua e roda

E sobe, e desce, e vem, e vai

Tocada por quase imperceptível brisa

 

E, como um ímã, hipnotiza

Já não vemos mais nada ao redor

Nossos olhos, fixos e encantados

Seguem a bolha de sabão pelo ar

 

Ela brinca com cada um que a vê

Chega perto e sorrindo foge

Não se deixa tocar nem prender

Sua vida é encantar e alegrar

 

Mas não nasceu para ficar

Tem de ir, flutuar, deslumbrar

Até que, num súbito momento,

Se desfaça no ar e quebre o encanto…

 

Assim também foi minha paixão

Surgiu num de repente da vida

Bailou, flutuou, me encantou

Hipnotizada eu a segui deslumbrada

 

Suas cores eram as mais lindas

Sua existência se tornou meu existir

E a brisa, teimosa, a levava de mim

Angustiada num momento insano tentei detê-la

 

E diante de meus olhos, agora molhados de lágrimas

Ela se desfez no ar e deixou-me a lembrança

De toda sua beleza, de tanta leveza

E então, no meu sofrer aprendi:

 

Nunca toque, nem tente prender a paixão

Porque ela é mera bolha de sabão…

Maravilhosa Praga

 

 

 

OK, respondo novamente, mas já publico e respondo aqui, de uma vez: 

A foto foi, sim, tirada em um restaurante de Praga, República Tcheca, há alguns bons pares de anos, na verdade, algumas décadas atrás. 

Estava tomando a genuína pilsen, em seu próprio berço – e pedi o copo pequeno, porque não sou muito de cerveja e nem fazia assim tanto calor, cerveja para mim é bebida de praia, de preferência em boa companhia. 

Mas, voltando à foto, foi uma viagem maravilhosa, eu sempre quis ir a Praga. Era um desejo recorrente. 

Eram livros de estórias e histórias que se passavam em Praga, cada vez que me caía um nas mãos sonhava mais e mais ir até lá. Eram filmes feitos na antiga Tchecolosváquia. E os vírus do turista profissional se multiplicando. 

Daí li A Insustentável Leveza do Ser. E quis mais ainda ir a Praga. 

Aí assisti Kolya. E delirei – se não fosse a Praga teria ataques de lombriga, chiliques e piripaques… só esperei a queda do comunismo, o que só veio a ocorrer em 1989, quando a  então Checoslováquia teve de volta a liberdade, através da “Revolução de Veludo“. Era a deixa para eu ir… E não fiz por esperar.

Até que… FUI À PRAGA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 

E não me decepcionei em nada. Era até mais do que eu sempre esperei. 

Estive em lugares que só se tornaram real porque fui lá, vi, ao vivo e em cores, esses locais que  povoavam um rico imaginário que é próprio de quem gosta de ler: 

Katedrála svatého Vítaa maravilhosa e antiga igreja; Pražský hrad , o famoso Castelo de Praga; Pražský orloj, o relógio astronômico medieval,em  rua central, diante do qual multidões param  esperando seus movimentos; Obecní dům – o notável prédio da Câmara Municipal, estilo Art Nouveau –  Vltava, o rio que corta Praga e sua Ponte Carlos; Mala Strana e sua roda d’água, bairro incrivelmente típico, peculiar, muito usado para filmagens;   –  Staroměstské náměstí, a velha Torre…, foram tantas as maravilhas que fica difícil enumerar aqui.  

Vi um grau de civilização bem mais elevado que o nosso aqui, do Brasilsão velho de guerra! 

Vi a temida polícia de preto, resquício dos anos de chumbo. 

Um povo que se redescobre a cada dia, mostra sua alegria de viver, seu empenho em ter a Pátria grande e respeitada, em ver a verdadeira democracia reinar absoluta. 

Vi os telhados vermelhos de Praga e constatei que realmente os telhados em Praga são vermelhos. 

Vi, ainda, a imagem original do Menino Jesus de Praga, que lá é chamado de Deus Menino, vi restos de guerra e, acima de tudo, vi os cristais mais lindos que poderia imaginar.

E ouvi a língua mais esquisita que poderia haver, aprendendo o básico para ser gentil e bem aceita pelos nativos. Mas reconheço, essa é difícil de verdade, não tem nenhum nexo com qualquer língua conhecida.

Imagino como se sentiam os navegadores e exploradores quando se deparavam com populações nativas falando línguas e dialetos absurdamente ininteligíveis. Mas, é claro, pequeno detalhe que em nada embaçou o prazer da viagem. 

Quase não voltei, porque lá estava muito bom, muito bom mesmo. Mas chegou a hora e o avião decolou… 

Quem sabe um dia volto para lá…

 

Hoje é dia de Poesia – Canção

 

Canção

(Cecília Meireles)

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio…

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas