Velhos quintais

(Escrito em 24/03/10, mas mais atual do que nunca) 

A casa de meu avô…

Nunca pensei que ela acabasse!

Tudo lá parecia impregnado de eternidade

(Manuel Bandeira

 

Viver é se reciclar. Ou não é viver, é ficar vivo e espantado esperando a morte. 

O que era já não é mais. O que foi já não tem mais… 

E nesse mundo do instantâneo em que vivemos, cinco minutos podem ser a diferença entre o novo e o obsoleto. 

A relação, por exemplo, entre as pessoas e seus aparelhos de telefone celular. Parece que nasceram já trazendo seu celular nas mãos. Não podem ficar sem eles por cinco minutos. 

Ando na rua e vejo muitas, muitas pessoas caminhando e falando ao celular enquanto andam; enquanto dirigem; enquanto comem em restaurantes (engolem a comida porque não prestam atenção no comer, apenas na conversa) e assim por diante. 

E pensar que há pouco mais de quinze anos não existia telefone celular, e sobrevivemos muito bem assim… 

Também os cachorros. Estes eram dados às crianças, para desenvolver a sociabilidade, inibir o egoísmo, ou eram adquiridos para mais segurança das casas e seus enormes quintais. Hoje pertencem à mãe, que gosta mais do cão que dos filhos, mora dentro da casa e dorme na cama dos donos. Coisa impensável em outros tempos. 

Os quintais – item essencial nas casas de algum tempo atrás, era o domínio da criançada. Fomos crianças dos quintais. Que tinham árvores, horta, grama, terra. E era nosso, nosso reino, nosso forte, nosso tudo. Hoje as crianças vivem em apartamentos que poderiam caber no quartinho da garagem de nossas casas. Crescem sem ralar o joelho, sem cair das árvores, sem ver a minhoca saindo da terra fresca…

O respeito aos mais velhos – éramos mesmo obrigados a respeitar tios, avós, vizinhos idosos etc. Fazia parte da educação. 

Hoje nada mais disso há. E temos que viver nesse mundo, não adianta ficar chorando num mundo que já se foi. 

Mas a nostalgia existe. E dá uma certa pena de ver essas crianças mecanizadas, que ganham brinquedos no lugar de afeto, que disputam os pais com os cães, e, pior do que tudo, não têm quintal…