Janela de ver a vida

  Je rends grâce à cette terre qui exagère tant la parte du ciel. (Roger Caillois)

 

Da vidraça da janela vejo a vida passando pela rua. Pessoas, carros, bicicletas, motos, alguns ônibus.

Onde vai toda essa gente? Por que só eu estou dentro de casa?

Do outro lado da rua vejo uma moça na outra vidraça. É uma vitrine e a moça é de resina – ou gesso – não sei do que são feitos os manequins de vitrines.

Por que as moças que não são de verdade são tão perfeitas? Por que seus cabelos estão sempre penteados, sua maquiagem nunca está borrada nem a meia desfiada?

Sentado de costas para a parede vejo um homem com seu cão, que dividem uma refeição em uma marmitinha de papel alumínio.

Por que para eles essa comida miserável é tão apetitosa? Por que nada lhes faz mal e eles não ficam doentes de comer sobras que não fora guardadas com todos os requintes que a saúde pública exige?

Passando alegres e saltitantes vejo duas adolescentes voltando da escola.

Por que para os jovens a vida é tão leve? Por que acham tudo maravilhoso e vivem tão intensamente como se não houvesse um amanhã?

Logo depois vejo um casal que passa empurrando um carrinho de bebê. Conversam despreocupadamente da mesma forma que o bebê dorme.

Anoitece, está na hora de fechar a janela e enfrentar a vida aqui deste lado. Já não vejo mais nada, mas suspeito – seriamente – que lá fora a vida continuar palpitante e iluminada, não partilhando o escuro que reina dentro de mim.

(05.11.08)