Dia de Poesia – Alberto Caeiro – Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.

Meu coração

“Se for caminhar no coração do outro, recomendo que vá descalço. Coração é solo sagrado”

Hoje li essa mensagem. E fiquei pensando.

De que é feito meu coração? Não esse órgão que mecanicamente pulsa e bombeia o sangue, tudo fisiologicamente explicável e controlável.

Falo do centro da minha paixão, o que pulsa e bombeia sentimentos, emoções. Tudo o que me tira o chão, me eleva ao céu, me mostra o inferno, me faz sentir, me traz alegria, me faz triste, descarrega toda essa adrenalina, desperta o desejo, faz querer viver – ou morrer…

Pergunto, novamente: de que é feito meu coração?

Meu sofrido coração é um caminho encantado. Nem todos que por aqui passaram mereciam caminhar nesse solo sagrado.

Ele é pavimentado de nuvens de carinho. Fontes inesgotáveis de ternura o mantêm aquecido. E os pés que o percorrem são abençoados e acolhidos no amor.

Mas é muito sensível. Sempre pronto a sangrar, ao menor descaso. Como uma taça prestes a entornar, tudo o machuca e transborda.

A cada dia que passa mais ele se torna vulnerável. As desilusões o tornaram assim. Sofrido. Dilacerado. E, o pior de tudo, é que ele está se fechando. Já não quer outros pés aqui caminhando, aqui buscando luz e calor, para depois se ir subitamente, deixando-o vazio de amor e preenchido de velhas marcas de pegadas.

Porque quem se foi não se preocupou se estava deixando suas pegadas para sempre fixadas nesse piso de nuvens e amor.

E agora esse velho coração se confunde, doído e marcado, por tantas ingratidões que o atravessaram.

Quando caminhei pelos alheios corações talvez também tenha sido ingrata e saído sem me despedir, deixado marcas entristecidas da falta de carinho. Não foi intencional.

Mas acho que agora será difícil que voltem a caminhar nesse meu coração. Porque ele, cheio de amargura, se fecha para novos pés. Ainda que doces, leves e amorosos. Os caminhos se esgotaram.

Da música

O que seria da vida sem música? Mas Música de verdade, com M.

Estou assistindo, pela milésima vez, aos concertos do violoncelista Hauser – em Zagreb e em Pula, Croácia, sua terra natal.

Simplesmente encantador. Fascinante.

Você se deixa transportar e consegue ir junto com a melodia.

Orquestras maravilhosas. Músicos dedicados.

Não resta qualquer dúvida que a melhor música do mundo e os melhores profissionais são do leste europeu. Eles nasceram para a música verdadeira.

Logo que acabou a URSS eu fui conhecer o lado de lá da “cortina de ferro”. Lembro-me de uma tarde em Bratislava. Eu estava apaixonadamente encantada com aquele povo. Lindos, gentis, extremamente pobres em sua maioria. O comunismo saqueara e explorara o país e o povo. Quando acabou, quase nada restava aos povos. Mas a vontade de refazer o país era grande e eles lutavam para o reerguerem. E o fizeram, sendo atualmente um país próspero. Mas estive lá em outro tempo: menos de um depois do “divórcio de veludo”.

Esse dia, de calma para ficar flanando na linda capital, pude presenciar turmas de crianças nos horários de entrada e saída da escola. Todos uniformizados, andavam pelas ruas e praças, carregando seu material escolar E um instrumento.

O que mais me chamou a atenção foi ver as crianças levando seus instrumentos musicais. Violões, flautas, violinos, celos, praticamente todos portavam um estojo de um instrumento. Ou seja, a música era matéria curricular do ensino fundamental.

Quase todos os grandes compositores imortalizados na arte pura da música erudita nasceram nessa região do continente Europeu. E os povos ainda cultivam a música naquelas paragens.

Basta assistir a um concerto e se entende o valor que dão à música. O público comparece massivamente ao local. Crianças pequenas, adolescente, jovens, adultos, idosos. Todos assistindo com atenção e educação. Valorizando a música como arte e expressão de união. Porque são as mesmas sete notas que compõem todas as melodias conhecidas. Todos os povos do mundo falam a mesma língua quando se trata de música. Há uma única escala, independe da sua representação.

Enquanto flutuo com a angelical música apresentada no concerto, tenho de suportar a modinha que algum vizinho obriga a todos escutarem, na sua festinha aqui no salão na frente de casa, mostrando a falta total de nível da educação que recebeu.

Esse é o lado triste da vida…

 

Dia de poesia – Os versos que te fiz – Florbela Espanca

OS VERSOS QUE TE FIZ

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.

 

Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder…

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

 

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei…

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

(Florbela Espanca)

Ressignificação

calma (s.f.)

é aquilo que me passa a sua voz. é quando o coração acha conforto. é a alma acomodada no próprio corpo. é respirar de um jeito bom. é fruto que se colhe de bons conselhos. é quando a gente olha para a nossa essência, não para um espelho. é se importar de menos com quem quer demais da gente.

é alma com c.

sorriso (s.m.)

é quando a felicidade transborda pelo rosto. é quando eu sei que estamos bem. reflexo do nosso coração quando vemos alguém especial. objeto utilizado para evitar perguntas desnecessárias sobre nossa vida quando estamos mal. o seu é tímido, o meu é desbocado, mas se a gente sorrir junto vira poesia.

é a roupa mais bonita do nosso rosto.

distância (s.f.)

é o que tem entre Brasília e Juiz de Fora. é grande demais para caber em mim. aquilo que inventaram para separar a gente. relativo ao tempo. é o que faz o perto ficar longe. espaço que o avião atravessa para a gente se encontrar. quando criança, media em passos, hoje meço em dias.

é lenha que aumenta o fogo da saudade.

 

(de “o livro dos ressignificados”, de João Doederlein)

Como um barco

 

 

Como se eu fosse o barco no meio do mar

Que navega em círculos e mais círculos

Vendo as luzes do cais ali tão perto

Mas não pode dele se aproximar

 

Cruzei os mares e ancorei em outros portos

Vi outras paisagens e me perdi nas ondas

Fui levada pelo vento e vencida pelo cansaço

Tantos perigos, tantos dragões enfrentei

 

Como se fosse um barco ao sabor do mar

Embalei minhas noites nas calmas ondas

Atravessei dias de fortes tempestades

Vi em mim o sol nascer e também o por-do-sol

 

O mar calmo era sempre o mais perigoso

Os ventos, as rochas, os naufrágios

Tudo era sobressalto, era medo, era difícil

Mas a marola me acalmava e embalava

 

Olho agora esse cais a minha espera

Vejo que existe, é sólido e está aí

Sei que não posso me aproximar, mas tento:

Eu sonho, eu quero, eu preciso atracar

 

O cansaço de tantas travessias vividas

De tantas decepções sofridas e

Tantos amores já mortos ou perdidos

Mostra que você é meu cais, é meu porto

 

Estou presa por grossos fios invisíveis a

Um barco à deriva, sem remo e sem leme

E um vento indizível me impede de ir

Sofro sozinha aqui, entre as ondas e o vento

 

Quantas batalhas enfrentei sem ganhar

Quantas derrotas suportei nesses mares

Mas consegui, de algum jeito, sobreviver

E agora avisto meu cais, meu velho porto

 

À espera de um momento mais acertado

Em que eu possa finalmente me aproximar

Levar meu barco até seu cais tão sonhado

Jogar minhas cordas e em ti descansar

 

Pequena brisa

Pequena brisa que queria ser vento

Soprava forte, soprava alto

Mas nada conseguia derrubar

Nem as folhas das roseiras secas

Buscava toda a força dentro de si

Mas seu sopro, sem calor suficiente

Não bastava para torná-la vento

Então a pequena brisa entendeu

Que precisava crescer para ventar

E crescer implicava em se apaixonar

Amar, perder e então sofrer

Porque se não sofrer não vai crescer

E a pequena brisa, entristecida

Recolheu-se no abrigo da grota

E ali chorou por se sentir tão fraca

Ela, que queria ser tão grande

Chorou tanto que a grota umedeceu

Solidária também chorando a pequenez

Da gentil brisa que ali se abrigava

Dentro da grota úmida e triste

A pequena brisa não percebeu

O quanto crescia em seu sofrimento

Até explodir em si a necessidade

De se lançar no espaço inteiro

E então compreendeu, que finalmente

Era um forte vendaval, que tudo carregava

Transformara-se, assim, no vento que sonhava ser.