No trânsito

Um milhão de preocupações. Enquanto espero o semáforo ficar favorável, mentalmente faço a lista do que já fiz e do que ainda falta fazer. A fila anda. Dez metros e para tudo de novo. Sinal fecha novamenteo. O dia é curto para tanto afazeres. Preciso ir ao banco, ao correio, ao cartório, à fisioterapia, ao mercado, almoço para fazer… e parada no semáforo, como se estivesse tudo feito a tempo…

Vida moderna. Só se corre. Não importa sua disposição. Sua necessidade. Sua vontade. Seu tempo não é seu. O que importa é dar conta de tudo.

No veículo ao lado, emparelhado com o meu, a garota-motorista canta a plenos pulmões junto com a música que toca em seu carrinho moderno e lindo.

Linda ela também. Além da beleza própria da juventude, a alegria do canto e a liberdade que deve estar sentindo em seguir sua vida dirigindo o próprio carro – sinal que já está começando a dirigir a própria vida – lhe dá um plus em beleza.

Fico encantada vendo sua leveza e sua alegria. Parece se divertir com o engarrafamento. Ou não tem horário para chegar, ou não tem compromissos para cumprir.

Apenas curte o momento. O trânsito parou? Ótimo momento para se cantar, parece pensar.

E canta. E com a mãos segue o ritmo batucando sobre o volante.

Não sofre de passado mal resolvido, não sofre de futuro que não está conseguindo resolver. Apenas vive o presente. E o presente é um baita engarrafamento causado por obras na pista e excesso de veículos circulando.

Ela está certa. Não dá para sair voando. Não se pode passar por cima dos outros. O jeito é curtir o caos.

Ligo minha música, uma hora conseguiremos sair desse trecho congestionado, e, mais contida talvez pelos anos já vividos, canto internamente…