Ainda de saudade

Saudade 
«É uma mania que a alma tem
De ouvir o que não é dito.
De sentir o que não se toca,
de ver o que não pode ser visto.
saudade,
é um pedacinho da gente,
Que alguém sem pedir permissão,
Leva para bem longe.»

(Marcelo Vico)

 

 

Quantas vezes eu já escrevi sobre saudade. E quantas mais sobre saudade eu li…

Saudade, essa presença incômoda de uma ausência que não nos abandona.

Esse sentimento de gosto amargo que adoça a vida com doces lembranças.

Essa presença invisível que nos acompanha dia-a-dia, hora-a-hora.

Esse fio mágico que não conhece distâncias e nos mantêm unidos a quem se foi.

Ah, saudade, eu peço, me deixe em paz. Procure outra alma para fazer seu ninho.

Quero viver sem pensar, sem lembrar, quero viver sem ter saudade.

Mas, imagino, sem saudade, a vida seria um deserto onde somente se avança

Onde não há um velho porto à nossa espera para voltarmos

As portas se trancam à nossa passagem e impedem o regresso

Porque sentir saudade é voltar um pouco e encontrar quem se foi

É trazer de volta sensações, cheiros, toques, abraços que se foram

Viver sem saudade é viver sem lembranças doces

É trilhar o atalho até à morte sem se ter vontade de ficar

Então eu peço: Saudade, fique! Não me deixe nunca!

Do vento

“O sol e o vento falam apenas de solidão.” (Albert Camus)

 

O que é, em que consiste, do que é feito o vento?

Não quero definições científicas, que existem nos almanaques. Quero que o vento me diga quem é, de onde vem, o que quer de mim e para onde vai.

Por que em dias mansos ele também vem manso, disfarçado de brisa e apenas levemente balança as folhas da pontas dos galhos das árvores?

Por que em dias atribulados, ele vem rápido, ventando, derrubando e fazendo barulho?

E, nos dias de tormento, ele se avoluma, zune, grita e assovia, leva tudo consigo, desarranja os cabelos de todos, desmancha sonhos e desfaz realidades?

Ah, vento, de onde você vem? O que já viu nos lugares por onde passou?

E essa pressa, vento, para onde você vai que não pode parar um só instante e ficar aqui comigo?

O vento é igual a uma lufada de paixão. Vem sem se saber de onde, arrasta tudo, bagunça nossos cabelos, muda a realidade.

E se vai. Subitamente como veio, segue embora e nos deixa ainda mais solitários e desvalidos.

Vento e paixão são feitos da mesma matéria .

Não se pode prender a paixão, ou deixará de ser paixão. Esse laço não pode ser apertado para não virar nó e estrangular a paixão. Tem de ser livre, vir quando quiser, ir quando bem lhe aprouver. Assim como o vento. Tente prender o vento.Se barrado, instantaneamente desaparecerá. E ele morrerá. Porque, preso, contido, limitado, deixará de ser vento. Sua essência é a liberdade.

Sonhos

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado montado num cavalo branco

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado de carroça ou a pé

Já nem precisa ser encantado, nem mesmo príncipe… apenas encantador

Mas se não puder ser encantador, que seja apenas atencioso

O tempo passou e levou todos os sonhos da juventude

E a vida não deu outro tempo para construir novos sonhos

E o tempo não parou para que alguém notasse a falta deles

E a vida seguiu sem sonhos, só na dura realidade que não deixa pensar

O tempo da diversão deu lugar ao tempo da responsabilidade

A leveza da juventude cedeu sua vez à intensidade da maturidade

E a vida se tornou um parque de responsabilidade, de deveres sem direitos

Um dia ao longe a vida mostra um lindo príncipe em um belo cavalo branco

Impossível alcançá-lo ou ser notada por ele no borralho da realidade

Então vem à mente a vontade já indisfarçável de fugir. Não com o príncipe

Mas montar seu próprio cavalo e, finalmente com as rédeas nas próprias mãos, 

Simplesmente ir…

Dia de Poesia – Machado de Assis – À Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro. 

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro. 

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados. 

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Aldravias

Ontem a querida amiga Ana Maria Tourinho apresentou-me às Aldravias. Apaixonei-me.

Leio e releio seu lindíssimo Desfolhando Aldravias – e deleito o olhar – a fotografia primorosa do livro é simplesmente maravilhosa.

Penso nos Lusíadas e outros poemas épicos. Penso em Castro Alves e outros poetas clássicos.

Penso nos sonetos e em Vinicius de Morais.

Lembro-me dos haicais e Guilherme de Almeida.

Agora são as Aldravias, nova forma poética, trazida pela poetisa Andrea Donadon Leal…

“O máximo da poesia, no mínimo de palavras”

Seis palavras. Um poema:

                   conto

                   poema  

            prosa – poética

                   trova

                 aldravia

               inspiração

 

E ainda:

 

                 caneta

                    na

                  mão

                ideias

              brotam

              escrevo

 

Desafiou-me. Apresentei minha primeira Aldravia. Apaixonei-me.

                aldravia

                  verso

                  ideia

                poema

                 nova

                poesia

Não sei o que será de meus poemas e sonetos. O que será de meus haicais e trovas…