Aldravias

Ontem a querida amiga Ana Maria Tourinho apresentou-me às Aldravias. Apaixonei-me.

Leio e releio seu lindíssimo Desfolhando Aldravias – e deleito o olhar – a fotografia primorosa do livro é simplesmente maravilhosa.

Penso nos Lusíadas e outros poemas épicos. Penso em Castro Alves e outros poetas clássicos.

Penso nos sonetos e em Vinicius de Morais.

Lembro-me dos haicais e Guilherme de Almeida.

Agora são as Aldravias, nova forma poética, trazida pela poetisa Andrea Donadon Leal…

“O máximo da poesia, no mínimo de palavras”

Seis palavras. Um poema:

                   conto

                   poema  

            prosa – poética

                   trova

                 aldravia

               inspiração

 

E ainda:

 

                 caneta

                    na

                  mão

                ideias

              brotam

              escrevo

 

Desafiou-me. Apresentei minha primeira Aldravia. Apaixonei-me.

                aldravia

                  verso

                  ideia

                poema

                 nova

                poesia

Não sei o que será de meus poemas e sonetos. O que será de meus haicais e trovas…

 

 

 

Despedida

A outra face da moeda do encontro – as mãos que um dia se encontraram e agora se separam.

A roda da vida que não para. E o que esteve junto já não mais permanece unido.

Tudo o que era já não é.

E suavemente as mãos se separam. Sem ódio nem rancor. Com o mesmo carinho com que se uniram e a mesma ternura que as ligaram.

Apenas agora cada uma seguirá sozinha e levará consigo o perfume da lembrança da outra.

 

 

 

 

 

Quando eu te deixar

Um dia hei de me cansar e me irei

E a ti, eu te deixarei para sempre

Quem te amará quando eu desistir de te amar?

Quem olhará nos teus olhos com tanto amor

Como sempre viste nos meus?

E ficará a teu lado em todos teus dias

E te esperará todas as noites e madrugadas?

Quem haverá de segurar tuas mãos nos momentos de dor

E nunca te dirá – mais tarde,  pois agora ocupo-me de mim?

Quem te enviará versos falando

De uma paixão ardente que abrasa a vida

Rompe o tempo e apaga a distância?

Quem mais te fará os versos que eu te fiz?

Lembranças

Há algumas décadas era moda fazermos uns “cadernos de lembranças” – era um caderno que passava de mão em mão na escola – colegas de classe e demais amigos. Cada um escrevia o que desejasse. Alguns colocavam belas citações, outros copiavam poesia, os poetas colocavam textos próprios…

Assim, há muito tempo, eu fiz o meu caderno. Encontrei-o, entre meus livros, um dia desses e me transportei para a fase da adolescência, quando éramos eternos e imortais. Dentre os escritos há um acróstico feito por um professor. Recordo-me que na época esse poema me emocionou. E agora, tanto tempo depois, senti emoção quando o reli:

 

Meus tempos idos de um feliz passado…

.

Acho nos versos que um tempo acabado

Lá bem distante na vida esqueceu.

Imerso em cores de tanta lembrança,

Comparo agora o tempo de criança,

E vejo então que quem mudou fui eu.

(A.L. Queiros, 1970)

Basta sorrir

Nós não sorrimos porque somos felizes, nós somos felizes porque sorrimos.
(William James)

 

Posso estar enganada, mas acredito que só o ser humano ri. Nenhum outro animal tem esse recurso.

Há pessoas que riem sempre, e outras que nunca riem nem sorriem.

Alguns só riem quando estão nervosos, aquele risinho entre o pavor e o sarcasmo, geralmente irritante.

Quando o bebê começa a reconhecer as pessoas e ambientes e consegue sorrir (não aquele esgar que só a mãe e a avó acreditam que seja um sorriso – mostra o quanto é instintivo sorrir para o ser humano.

E também que não há qualquer dúvida que o riso vem diretamente do prazer.

Na hora da dor, do desespero, na triste hora do adeus é impossível rir ou sorrir.

Mas só.

Nas demais horas o riso é essencial.

Se formos capazes de darmos uma boa risada nas horas de aflição e aborrecimento, acho que a vida seria bem mais leve.

Eu, por exemplo, prefiro rir sempre. Seja procurando um lado engraçado nas pessoas, nas coisas, nas situações, nos acontecimentos, tento olhar com olhos de sorriso para tudo. Acho que vou morrer rindo. Nem que seja de mim própria.

Por exemplo – você está com muita pressa, atrasado, e derrama um copinho de café na camisa. Em lugar de xingar, praguejar, experimente dar uma risada de sua própria ação e verá que basta trocar de camisa e seguir – dois  ou três minutos não são a diferença – você já estava atrasado mesmo.

Ou numa briga – por qualquer motivo, besta ou não, começa uma discussão com a mulher, ou o marido, ou o irmão etc. Na hora de respirar, quando tiver que se calar por um momento para não morrer de falta de ar, aproveite e dê um sorriso. Aberto, sincero, acolhedor, sem ironia.

Verá que o outro responderá com um sorriso. E ambos pensarão: para que discutir, podemos resolver isso calmamente através de uma conversa adulta.

Se você cai ou chuta – descalço – o pé da cama. Não grite nem fique sob tensão – solte os músculos – primeiro da face, com uma boa risada, depois vai se soltando. E o corpo ficará leve, nem sentirá dor.

Mas tem que rir de verdade.

E, principalmente, quando tiver mais pessoas em volta, tente rir, sinceramente, do que os outros falam, integre-se na alegria e a promova, e num instante todos estarão rindo também.

Mais importante, ainda, é aprender a rir de si mesmo. Se você for capaz de rir de si mesmo, em toda e qualquer situação, rindo escancarado ou só por dentro, será uma pessoa feliz, porque o que todo mundo gosta mesmo é de ver os outros travados, emburrados, sofrendo.

Nada mais incomoda a maioria das pessoas do que ver alguém leve, sorridente, de bem com a vida.

 

Sorri quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua for

E ao notar que tu sorris

Todo mundo irá supor

Que és feliz

(Charles Chaplin)

Espinho

Cravado espinho trago no peito

Jorra-me o sangue aos pés da flor.

Tal rouxinol a tingir a rosa

Como Wilde cantou um dia,

Vejo o vermelho chegar às mãos

Que carregam as flores tristes,

Coroando o fim de um amor.

Onde um dia éramos alegres risadas,

Hoje escorrem lágrimas salgadas

Marcando as faces já tão sulcadas,

De um viver em vão dentre lembranças,

Que o vento da distância avivou

– verdadeiras chamas de um antigo vulcão

Que se acreditava adormecido para sempre,

Nesse peito que ainda sente bater

Um coração que um espinho trespassou –

O terrível espinho da paixão ardente.