Despedida

A outra face da moeda do encontro – as mãos que um dia se encontraram e agora se separam.

A roda da vida que não para. E o que esteve junto já não mais permanece unido.

Tudo o que era já não é.

E suavemente as mãos se separam. Sem ódio nem rancor. Com o mesmo carinho com que se uniram e a mesma ternura que as ligaram.

Apenas agora cada uma seguirá sozinha e levará consigo o perfume da lembrança da outra.

 

 

 

 

 

Quando eu te deixar

Um dia hei de me cansar e me irei

E a ti, eu te deixarei para sempre

Quem te amará quando eu desistir de te amar?

Quem olhará nos teus olhos com tanto amor

Como sempre viste nos meus?

E ficará a teu lado em todos teus dias

E te esperará todas as noites e madrugadas?

Quem haverá de segurar tuas mãos nos momentos de dor

E nunca te dirá – mais tarde,  pois agora ocupo-me de mim?

Quem te enviará versos falando

De uma paixão ardente que abrasa a vida

Rompe o tempo e apaga a distância?

Quem mais te fará os versos que eu te fiz?

Lembranças

Há algumas décadas era moda fazermos uns “cadernos de lembranças” – era um caderno que passava de mão em mão na escola – colegas de classe e demais amigos. Cada um escrevia o que desejasse. Alguns colocavam belas citações, outros copiavam poesia, os poetas colocavam textos próprios…

Assim, há muito tempo, eu fiz o meu caderno. Encontrei-o, entre meus livros, um dia desses e me transportei para a fase da adolescência, quando éramos eternos e imortais. Dentre os escritos há um acróstico feito por um professor. Recordo-me que na época esse poema me emocionou. E agora, tanto tempo depois, senti emoção quando o reli:

 

Meus tempos idos de um feliz passado…

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Acho nos versos que um tempo acabado

Lá bem distante na vida esqueceu.

Imerso em cores de tanta lembrança,

Comparo agora o tempo de criança,

E vejo então que quem mudou fui eu.

(A.L. Queiros, 1970)

Basta sorrir

Nós não sorrimos porque somos felizes, nós somos felizes porque sorrimos.
(William James)

 

Posso estar enganada, mas acredito que só o ser humano ri. Nenhum outro animal tem esse recurso.

Há pessoas que riem sempre, e outras que nunca riem nem sorriem.

Alguns só riem quando estão nervosos, aquele risinho entre o pavor e o sarcasmo, geralmente irritante.

Quando o bebê começa a reconhecer as pessoas e ambientes e consegue sorrir (não aquele esgar que só a mãe e a avó acreditam que seja um sorriso – mostra o quanto é instintivo sorrir para o ser humano.

E também que não há qualquer dúvida que o riso vem diretamente do prazer.

Na hora da dor, do desespero, na triste hora do adeus é impossível rir ou sorrir.

Mas só.

Nas demais horas o riso é essencial.

Se formos capazes de darmos uma boa risada nas horas de aflição e aborrecimento, acho que a vida seria bem mais leve.

Eu, por exemplo, prefiro rir sempre. Seja procurando um lado engraçado nas pessoas, nas coisas, nas situações, nos acontecimentos, tento olhar com olhos de sorriso para tudo. Acho que vou morrer rindo. Nem que seja de mim própria.

Por exemplo – você está com muita pressa, atrasado, e derrama um copinho de café na camisa. Em lugar de xingar, praguejar, experimente dar uma risada de sua própria ação e verá que basta trocar de camisa e seguir – dois  ou três minutos não são a diferença – você já estava atrasado mesmo.

Ou numa briga – por qualquer motivo, besta ou não, começa uma discussão com a mulher, ou o marido, ou o irmão etc. Na hora de respirar, quando tiver que se calar por um momento para não morrer de falta de ar, aproveite e dê um sorriso. Aberto, sincero, acolhedor, sem ironia.

Verá que o outro responderá com um sorriso. E ambos pensarão: para que discutir, podemos resolver isso calmamente através de uma conversa adulta.

Se você cai ou chuta – descalço – o pé da cama. Não grite nem fique sob tensão – solte os músculos – primeiro da face, com uma boa risada, depois vai se soltando. E o corpo ficará leve, nem sentirá dor.

Mas tem que rir de verdade.

E, principalmente, quando tiver mais pessoas em volta, tente rir, sinceramente, do que os outros falam, integre-se na alegria e a promova, e num instante todos estarão rindo também.

Mais importante, ainda, é aprender a rir de si mesmo. Se você for capaz de rir de si mesmo, em toda e qualquer situação, rindo escancarado ou só por dentro, será uma pessoa feliz, porque o que todo mundo gosta mesmo é de ver os outros travados, emburrados, sofrendo.

Nada mais incomoda a maioria das pessoas do que ver alguém leve, sorridente, de bem com a vida.

 

Sorri quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua for

E ao notar que tu sorris

Todo mundo irá supor

Que és feliz

(Charles Chaplin)

Espinho

Cravado espinho trago no peito

Jorra-me o sangue aos pés da flor.

Tal rouxinol a tingir a rosa

Como Wilde cantou um dia,

Vejo o vermelho chegar às mãos

Que carregam as flores tristes,

Coroando o fim de um amor.

Onde um dia éramos alegres risadas,

Hoje escorrem lágrimas salgadas

Marcando as faces já tão sulcadas,

De um viver em vão dentre lembranças,

Que o vento da distância avivou

– verdadeiras chamas de um antigo vulcão

Que se acreditava adormecido para sempre,

Nesse peito que ainda sente bater

Um coração que um espinho trespassou –

O terrível espinho da paixão ardente.

Fala a Loucura

Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e impudente o autoelogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome.

De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço? De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.

Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais.

É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o elogio da Loucura.

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E porque, segundo o meu costume, não hei de vos falar mais livremente? Dizei-me, por favor: serão, talvez, a cabeça, a cara, o peito, as mãos, as orelhas, como partes do corpo reputadas honestas, que geram os deuses e os homens? Ora, meus senhores, eu acho que não: o instrumento propagador do gênero humano é aquela parte, tão deselegante e ridícula que não se lhe pode dizer o nome sem provocar o riso. Aquela, sim, é justamente aquela a fonte sagrada de onde provêm os deuses e os mortais.

Pois bem, quem desejaria sacrificar-se ao laço matrimonial, se antes, como costumam fazer em geral os filósofos, refletisse bem nos incômodos que acompanham essa condição? Qual é a mulher que se submeteria ao dever conjugai, se todas conhecessem ou tivessem em mente as perigosas dores do parto e as penas da educação? Se, portanto, deveis a vida ao matrimônio e o matrimônio à Irreflexão, que é uma das minhas sequazes, avaliai quanto me deveis. Além disso, uma mulher que já passou uma vez pelos espinhos do indissolúvel laço, e que anseia por tornar a passar por eles, não o fará, talvez, em virtude da assistência da ninfa Esquecimento, minha cara companheira? É preciso dizer, pois, a despeito do poeta Lucrécio, e a própria Vênus não ousaria negá-lo, que sem a nossa pujança e a nossa proteção, a sua força e a sua virtude languesceriam e se desvaneceriam completamente.

Foi, por conseguinte, dessa agradável brincadeira, por mim temperada com o riso, o prazer e a amorosa embriaguez, que saíram os carrancudos filósofos, agora substituídos pelos homens vulgarmente chamados frades, os purpúreos monarcas, os pios sacerdotes e os pontífices três vezes santíssimos. Finalmente, dessa brincadeira é que também surgiu toda a turba das divindades poéticas; turba tão imensa que o céu, embora muito espaçoso, mal pode contê-la. Mas, pouco amiga seria eu da verdade, se, depois de vos provar que de mim tivestes o gérmen e o desenvolvimento da vida, não vos demonstrasse ainda que provêm da minha liberalidade todos os bens que a vida encerra.

Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os prazeres da volúpia? Oh! Oh! Vós me aplaudis? Já vejo que não há aqui nenhum insensato que não possua esse sentimento. Sois todos muito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo que sabedoria. Podeis, pois, estar certos de que também os estoicos não desprezam a volúpia, embora astutamente se finjam alheios a ela e a ultrajem com mil injúrias diante do povo, a fim de que, amedrontando os outros, possam gozá-la mais frequentemente. Mas, admitindo que esses hipócritas declamem de boa-fé, dizei-me, por Júpiter, sim, dizei-me se há, acaso, um só dia na vida que não seja triste, desagradável, fastidioso, enfadonho, aborrecido, quando não é animado pela volúpia, isto é pelo condimento da loucura. Tomo Sófocles por testemunho irrefragável, Sófocles nunca bastante louvado. Oh! nunca se me fez tanta justiça! Diz ele, para minha honra e minha glória: “Como é bom viver! mas, sem sabedoria, porque esta é o veneno da vida”. Procuremos explicar essa proposição.

Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável. Mas, que é que torna os meninos tão amados? Que é que nos leva a beijá-los, abraçá-los e amá-los com tanta afeição? Ao ver esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os socorre. Qual é a causa disso? É a natureza, que, procedendo com sabedoria, deu às crianças um certo ar de loucura, pelo qual elas obtêm a redução dos castigos dos seus educadores e se tornam merecedoras do afeto de quem as tem ao seu cuidado. Ama-se a primeira juventude que se sucede à infância, sente-se prazer em ser-lhe útil, iniciá-la, socorrê-la. Mas, de quem recebe a meninice os seus atrativos? De quem, se não de mim, que lhe concedo a graça de ser amalucada e, por conseguinte, de gozar e de brincar? Quero que me chamem de mentirosa, se não for verdade que os jovens mudam inteiramente de caráter logo que principiam a ficar homens e, orientados pelas lições e pela experiência do mundo, entram na infeliz carreira da sabedoria. Vemos, então, desvanecer-se aos poucos a sua beleza, diminuir a sua vivacidade, desaparecerem aquela simplicidade e aquela candura tão apreciadas. E acaba por extinguir-se neles o natural vigor.

Por tudo isso, observai, senhores, que, quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incômoda velhice, tão insuportável para si como para os outros. E, já que falamos de velhice, não fiqueis aborrecidos se por um momento chamo para ela a vossa atenção. Oh! como os homens seriam lastimáveis sem mim, no fim dos seus dias! Mas, tenho pena deles e estendo-lhes a mão. Não raro, as divindades poéticas socorrem piedosamente, com o divino segredo da metamorfose, os que estão prestes a morrer: Fetonte transforma-se em cisne, Alcion em pássaro, etc. Também eu, até certo ponto, imito essas benéficas divindades. Quando a trôpega velhice coloca os homens à beira da sepultura, então, na medida do que sei e do que posso, eu os faço de novo meninos. De onde o provérbio: Os velhos são duas vezes crianças.

(Elogio da Loucura – Erasmo de Rotterdam)

de mais Saudade

 

Lembranças doces que nos perseguem
Ausência de uma paixão que se esmaeceu no tempo
Presença constante da falta que alguém nos faz
Buscar no nada uma razão para a existência
Fazer da névoa da memória uma companhia
Olhar para as próprias mãos, agora vazias
Ainda com o perfume do amor compartilhado
De tudo que escorreu por entre nossos dedos
E não conseguimos reter em nossa vida,
Mas não tivemos jeito de tirar do coração.
Relembrar cada momento de doçura e encanto
Ouvir de novo a voz agora tão calada
Perder os contornos precisos e só ter um vulto
Como um barco que se afasta aos poucos do cais
Sentir de novo toda a ternura repartida
Ver caírem, uma a uma, as pétalas do amor
desfazendo a rosa vermelha da paixão
Saudade é o nome da solidão infinita
É a distância que insiste em ficar perto
É a certeza da perda, do não ter mais
É saber que o sonho acabou para sempre
É desejar morrer docemente dentro desse vazio