Da paixão

 

As tempestades não duram a eternidade. Assustam, destroem, mudam a paisagem, mas passam. Nada – nem ninguém – tem o poder de deter o vento. É uma das manifestações da natureza mais assustadora que existe.

Da mais suave e agradável brisa, até as grandes tormentas, furacão, ciclone, tornado, tufão… o homem, em toda sua arrogância, ainda não descobriu como amainar o vento. Não evoluiu nada em relação aos primatas das cavernas que temiam a natureza e não a entendiam. Hoje sabemos tudo sobre a natureza, menos como conviver harmonicamente com ela. Conseguem até prever a intensidade dos ventos, sua trajetória e seu potencial destruidor. Mas não passa disso. E a humanidade continua enfrentando e temendo vendavais.

Mas chega um momento em que o vento se vai. Para onde? Não sei. Como não sei de onde veio tanta fúria, tanto arrebatamento. Ele vai ganhando força. Vai tomando tudo, dominando, carregando, destruindo… de repente, passou! Vamos ver os estragos e tentar recuperar as perdas.

Assim é uma tempestade: surge do nada, de um lindo céu claro, do mais profundo azul. Nuvens brancas e fofas, de algodão, tudo paz. Do nada, do mais completo nada, uma brisa se torna vento. Esse vento se fortalece, alimentado sabe-se lá do quê, e começa a tempestade. Que, por mais assustadora, é, paradoxalmente, fascinante. Nada mais lindo que o vento dobrando árvores, raios marcando o céu, nuvens passando apressadamente para chegarem a lugar nenhum.

Em um momento, tudo se assossega. E volta a calma, o domínio, cada coisa recupera seu lugar, tudo retoma à anterior normalidade, como se nunca tivesse existido essa tormenta.

Assim é a paixão.

Chega como uma brisa. Mas toma força de vento. E venta. E arrebenta reservas, comportas e janelas. E se torna mais forte, como um furacão remexeu todos os cantos de cada ser. Derruba conceitos e telhados. Abala bases e alicerces. Revirando tudo o que havia dentro da alma.

De uma simples palavra, de um gesto banal, um sentimento que é menos que uma brisa, toma o peito de assalto, torna-se um temporal indomável, domina o pensamento, o sentimento, o querer, e faz querer viver.

Mas passa. E faz querer morrer. Faz-se, então, o rescaldo e para ver o que sobrou dentro do peito, o que ainda resiste. Porque tanta ternura se perdeu, que nunca mais poderá ser recuperada.

É hora de se separar cacos de peças recuperáveis. Tentar remontar um bem-querer para ter algo, ainda, a oferecer, ou a perder na próxima tempestade. Que virá. E de novo fará bagunça, misturando sentimentos, destruindo o que parecia forte e resistente. Mas também passará… a capacidade de se apaixonar de novo é admirável.

Toda a dor é esquecida e se fica pronto para o novo arrebatamento, da mesma forma que a natureza se recupera e perde a memória do vento antes da próxima tempestade.

A paixão é a tormenta da alma.