Um gato de porcelana

Corrientes, tres cuatro ocho, segundo piso, ascensor, no hay porteiros ni vecinos, adentro cocktel de amor…

Assim começa uma das canções mais conhecidas e tocadas do século XX, o belo tango “A media luz”, imortalizado por Gardel. Você escuta desde pequeno, automatiza a letra na memória, e a deixa lá por muito tempo.

Um dia, já adulto, em uma viagem para a Argentina, depois de uma noite de tango e vinho em Buenos Aires, distraidamente anda pela bela cidade, quando avista a placa com o nome da via: Corrientes. E, como num estalo, a letra do tango vem à mente.

Por pura curiosidade, você olha o número da primeira construção e começa a procurar o 348.

Sente aquela ansiedade infantil de abrir o papel colorido do presente de Natal. Pensa em um lugar discreto, ninho de amores furtivos, garçonnière…

E vai caminhando, imaginando as delícias do famoso Corrientes 348.

Até chegar lá.

Trata-se, apenas, da entrada de um simples estacionamento. Não tem segundo piso, nem ascensor, nem coquetel de amor e muito menos um gato de porcelana…

O jeito é dar uma risada e continuar caminhando, voltar aos próprios interesses, depois de um malogrado episódio de detetive frustrado.

Quantas vezes na vida nos imaginamos na iminência de descobrir algo fantástico, um segredo guardado a sete chaves, um tesouro escondido… e tudo isso somente existe na nossa imaginação, na nossa ânsia de viver algo extraordinário, do cansaço da vidinha arroz-com-feijão que 99,8% da população vive.

Tudo e todos iguais: estudar, trabalhar, sofrer, amar, chorar, ganhar, perder… e sonhar.

Sonhamos com a saúde, com a riqueza, com o grande amor, com a paixão arrebatadora, com a nossa Corrientes 348.

Quantas pessoas no mundo que ouviram esse tango puderam ir pessoalmente conferir o endereço? Mas todas esperam um dia entrar na sua Corrientes 348.

Muitas chegam lá. Em sentido literal ou figurado.

E têm, então, a grande decepção.

Não encontram nada do que esperavam, não há riqueza, não há paixão, não há segundo piso… apenas um típico estacionamento para automóveis.

E, no entanto, em algum lugar teimoso de nosso sentir, continuamos sonhando com o gato de porcelana…

Dia de poesia – Cecília Meireles – Lua adversa

Quais são as fases da lua, e como elas influenciam na Terra?

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

140º dia de isolamento

Há pouco para se comentar, para se dizer. Mas nenhuma perspectiva de melhora.   

Um vírus – novo – está espalhado pelo país e pelo mundo.

A única medida foi mandar toda a população ficar em casa, lavar as mãos e se lambuzar de álcool gel. “É para o nosso bem”.   

Depois de 140 dias confinada nesta casa, sem explicações racionais, ouvindo de uns que a substância X é a solução para conter o avanço da doença, outros dizendo que não tem efeito, já não acredito em nada e em ninguém. Impossível que continuem tantas contradições sobre causa e tratamento.     

Soube de poucos conhecidos que contraíram  covid – dá para contar nos dedos das mãos e ainda sobram alguns. E, o mais interessante – ou talvez o termo adequado seja assustador – é que cada pessoa apresentou uma doença diferente, sintomas diversos, nenhum foi hospitalizado, muito menos para UTI ou respirador artificial. Pessoas cujas variavam de 30 a 80 anos.   

Mas um amigo, idoso, que necessitou se submeter a uma cirurgia neurológica de emergência, contraiu infecção hospitalar e seu óbito foi declarado como sendo covid. Resumindo: meu único conhecido que morreu de covid NÃO teve covid.   

E, por todo esse tempo, o comércio e os serviços em geral interditados. A cidade morrendo.   

Os pedidos de ajuda, para alimentação da multidão que hoje passa fome, não param de chegar. Desemprego, miséria e fome aumentando vertiginosamente. Mas os políticos olham para os dados manipulados das curvas do covid, com as mãos coçando pelas verbas públicas.

Nos hospitais da rede particular é possível receber as medicações preventivas. O que é negado nos estabelecimentos públicos, sob o argumento que a ciência ainda não se manifestou quanto à eficácia de um medicamento utilizado há mais de setenta anos no país e sem efeitos colaterais relevantes.

Mas uma vacina recém-desenvolvida pode ser aplicada desde já, mesmo sem qualquer aval científico.

Definitivamente, esse país não é sério nem para amadores.

Poesia da casa – Anoitece

Fases da Lua #moon #night #Lua-cheia | Lindas paisagens ...

Quando o dia se esvai, tudo é silêncio,

e a noite, suave, traz a lua e seu encanto,

na hora em que nada mais se espera,

penso em tudo enquanto penso em nada;

eu me recolho no vazio de minha alma,

para deixar fluir toda essa ternura

e sonhar que não há tristezas na vida

e ter a certeza de que estamos juntos.

Que vontade eu sinto de você,

que saudade eu sinto de nós dois;

venha me tocar do jeito que só você me tocou,

venha me falar as palavras que só você já falou,

venha, meu amor, ser meu ninho e serei seu aconchego,

Venha me amar da forma que nunca ninguém me amou.

Dia de poesia – Álvares de Azevedo – Lembranças de morrer



Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei. que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores.
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida

20º domingo de quarentena

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Ando nas ruas, agora tão vazias de vida, nessa cidade entristecida. Alguns poucos carros, e mesmo assim tão apressados. Por que tanta pressa?

A cidade fechou há mais de quatro meses, o país se desmancha, não há motivo para correr. Estamos todos morrendo.    

Onde estão as crianças que brincavam nos parquinhos? Os idosos sentados nos bancos das praças? Os atletas correndo nas pistas?    

Onde estão todos?    

Por medo de morrer, enfurnaram-se nas casas, que permanecem fechadas. Enterraram-se vivos, famílias divididas, amantes separados,  encontros cancelados. Por medo da doença, evitam o contato com todos os outros seres humanos. E, acaso alguém é obrigado a sair, esconde o rosto o sorriso e alegria atrás de uma máscara horrorosa. Não há mais sorrisos.    

E, mesmo com todas essas medidas, as pessoas continuam a ficar doentes. E muitas morrem. O vírus foi uma bênção para os doentes: há mais de quatro meses que não se morre mais de doenças crônicas, neoplasias, problemas cardíacos, nada mais. Só do novo vírus.    

Vamos viver, minha gente!!!!! Abram as janelas e as portas, saiam ao sol, celebrem a vida enquanto a temos! Porque todos morreremos. Nem antes nem depois, mas só no exato momento que nos foi planejado morrer.     O medo nos mata em vida.      A morte virá nos buscar, estejamos em casa, com a janela aberta fechada. Estejamos nas ruas, nos bares, nos cinemas. Onde estivermos, seremos encontrados. Dona Ceifeira não falha.     E, na minha opinião, o melhor que temos a fazer, é viver enquanto não morremos. Para isso estamos nessa Terra adoentada pelo medo de morrer.      

Tenho saudade da alegria da vida. De ouvir risadas nos mercados. Das lojas abertas. Da cidade movimentada. Das pessoas se cumprimentando com sorrisos e beijos. Das cafeterias simpáticas e com o infalível perfume do café no ar. Dos bares lotados no final do dia, com risadas e copos brindando.    

Tenho saudade de viver.